A ROSA E A ROSEIRA


Ela era a quarta mulher e seria devolvida brevemente se não engravidasse. Ela sabia que a culpa era dela, assim como foi das outras três mulheres. Ela tinha apenas 14 anos de idade, mas já era mulher e brevemente a humilhação da família. Marcada como infértil jamais casaria e seria a razão de troça de toda a minúscula comunidade que via confinada a uma praia da Ilha. Era seu destino e nada poderia fazer para mudar o circulo da sorte. Pensava a Amara.

O pai dela era o grande mestre e seria brevemente o mais humilhado. Ninguém jamais confiaria na sua mestria e o mais certo era voltar ao mar e tirar da água a alimentação que antes conseguia na sua minúscula casota de madeira e coberta de zinco. Não, ele não se conformava e tinha que procurar uma solução, nem que para tal tivesse que sacrificasse até a limitação do impossível. O impossível era possível para ele, ele era o grande mestre.

Foi ver a filha, não se aproximou, sabia que não devia se intrometer na vida dela, ela pertencia a uma nova família desde o dia que numa cerimonia ancestral foi levada. A tristeza que leu naquele rosto veio a acentuar a necessidade de procura da ajuda. Espero até ver a noite a cobrir o dia e o sol cansado mergulhar no mar e saiu. Foi até ao rio e seguiu seu curso até a nascente.

Sentou-se numa pedra lisa, era obra da Natureza ou alguém a colocou ai com este fim? Não sabia... A pedra sempre existiu e sempre serviu para ali se sentar e meditar ou conversar com os seres sobrenaturais que comandavam a vida. Depois de alguns momentos de silêncio invocou a Mãe de Água. Era tanta a sua fé e o seu temor que algo aconteceu pela primeira vez para ele.

Ela apareceu ao vivo. Linda e bela e magistral. Vestida de pura seda rosada e totalmente molhada, as gotas de água escorria de cabeça aos pés. Do céu uma chuva miudinha e leve caia. De sua cabeça uma coroa doirada imanava uma luz multicolor de arco-íris.

Ele ajoelhou-se e prostrado tentou falar, mas nada saia da sua boca...

-Que queres de mim, homem?

-Minha filha... –Titubeante, ele não conseguia falar... Acreditava no sobrenatural, já tinha recebido muitas ajudas durante seu exercício como curandeiro. Já fora incorporado várias vezes e em nome das almas de outro mundo dera muitos conselhos e muitas receitas milagrosas. Mas nunca tivera antes um encontro deste nível...

-Sei o que queres, é possível, mas a criança que nascer terá que me servir toda a vida ou eu a transformarei numa roseira.

Ele não pode responder e muito menos argumentar. Os seus lábios pareciam colados. A aparição foi de poucos segundos e de repente tudo tornou escuro e a noite, embora algumas estrelas no céu tentavam dar alguma claridade voltou a sua escuridão. O que não faltavam eram os sons das criaturas noturnas entre elas os sapos que não paravam de cantar. A vida continuava o seu círculo até na tristeza, ele o curandeiro era o símbolo da tristeza. Cabisbaixo e como se ele transportasse o mundo às costas regressou a sua minúscula aldeia.

A Amara deixou de estar triste e o seu rosto ganhou outro brilho. Parecia ter uma luz irradiante por baixo da sua negra e bela e jovem pele. Foi com naturalidade que nove meses depois dava a luz a uma linda menina. O marido não podia estar mais feliz. Colocou a menina o nome de Rosa.

A Rosa cresceu e 12 anos depois já estava pronta para ser noiva. O avô apreensivo foi falar com os pais:

- Meus filhos, eu estive a ver a sina da Rosa. Ela não pode se casar. Ela é filha da Mãe de Água e deve se preparar para lhe servir.

O pai da Rosa não aceitou, já recebera os dotes e não estava desposto a devolver.

-Zaki, sou eu Zaci que te digo. A tua filha é especial e não pode se casar. Tu sabes quem eu sou e se venho até aqui, na tua casa... Não trago uma ordem, trago um pedido.

Mas foi tudo em vão. O Zaki não queria perder os dotes recebidos e entregou a filha à sua futura família.

A nova família esperou que a Rosa fizesse sua trouxa e partisse com ela. Saíram da casa e caminharam. Numa cursa a Rosa pediu para ir à floresta, estava a precisar... Foi e não voltou. Mal colocou o pé direito fora da estrada transformou-se numa frondosa roseira.

O avô foi construir a sua casinha perto da roseira e assim passou a cuidar dela. Até hoje ela existe, a roseira.

Há quem diga que nas noites de lua cheia, mensalmente, uma das rosas se transforma numa bela rapariga e sentada à beira da estrada, enche a natureza da sua bela melodia.

A Rosa vestida de pura seda cor de rosa e iluminada pela lua sentada por baixo da mítica e intemporal roseira viva.

 

 

João Pereira Correia Furtado

Praia, 04 de Abril de 2016

http://joaopcfurtado.blogspot.com

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Respostas a este tópico

João Pereira Correia Furtado

Estimado amigo poeta, encantei-me com o teu texto, uma belíssima estória, com um final encantador,

parabéns pela magnifica obra, bjs MIL.

Há quem diga que nas noites de lua cheia, mensalmente, uma das rosas se transforma numa bela rapariga e sentada à beira da estrada, enche a natureza da sua bela melodia.

A Rosa vestida de pura seda cor de rosa e iluminada pela lua sentada por baixo da mítica e intemporal roseira viva.

 

MIL, poetisa e amiga!

Muito obrigado pela leitura e comentário.

Abraço de paz e bem!

João

Amigo João, uma surpreendente obra. Abraços carinhosos.

Amiga e poetisa Goda

Muito obrigado. Abraços de paz e bem,

João 

Que bela história! Parabéns por tanta doçura e beleza. Bjo.

Muito bomito amigo joão parabéns 

Abraços

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