ADÉLIA EM NOVA IORQUE


Mário, com 12 anos de idade, queria ficar, não queria deixar a Adélia, sua amiga de 10 anos e partir para o desconhecido. Este sentimento que querer ficar e ter que partir era cada vez mais forte quanto mais perto estava a data da partida.

Viu a Adélia da sua varanda, ela era frágil e mais frágil parecia com a lata de água a cabeça. O vento sempre presente na Ilha lhe abanava e ela parecia ir ao sabor do abano.  Sorrateiramente saiu e foi ter com a Adélia. A sua família não gostava de o ver com a Adélia. Ele era filho de distinta família dos emigrantes na América e tinha que ser digno do estatuto adquirido. Mal se viu na rua correu atrás da Adélia. Esta ia distraída e não percebeu o aproximar do amigo. Quando notou, o Mário estava tão perto e com o espanto deixou cair a lata de água e esta amolgou-se de tal maneira que seria difícil alguma comparação com a que ela levava na cabeça.

-Desculpa-me Adélia, te prometo, assim que chegar a América te mando uma lata nova.

-Mário, tu vais é esquecer-te de mim... Lá terás outras amigas. Lá é outro mundo.

-Eu te prometo, não só te mandar uma lata nova, como te tirar daqui e levar-te para a terra da nossa esperança.

 

Os anos passaram e a Adélia cresceu e com 18 anos, se transformou numa linda e bela crioula. Pobre, mas trabalhadora e muito asseada. Não tinha namorado, não era por falta de pretendentes, mas porque ela não gostava de nenhum dos que lhe assediava.

Era uma tarde de sol e calor como a maioria das tardes na Ilha. Ela estava sentada à sombra de um pequeno arbusto. Viu o pai aproximar-se e trazia com ele uma carta na mão. Quem teria enviado a carta?

Ele chegou ao seu pé e entregou-lhe a carta dizendo que era para ela. Que lhe escreveria? Veio da América, completou o pai. América? Quem da América lhe escreveria? Com as mãos trémulas ela recebeu a carta e viu o seu nome e do remetente “Mário Andrade de Andrade”... Só podia ser ele, o seu amigo. Recordou que um dia ele lhe disse que se chamava comicamente Mário Andrade de Andrade, pois a mãe e o pai eram primos e se casaram para a mãe poder ir para a América e lá, contra todas as expectativas, os primos se apaixonaram e um casamento de fachada se tornou em real e ele veio ao mundo. A mãe e o pai tinham pouco tempo para cuidarem dele e ainda bebê veio e foi entregue aos cuidados dos avôs.

Abriu a carta e começou a ler e em voz alta, de repente ficou muda e o pai lhe pediu para continuar, mas ela não conseguia continuar... Não conseguia dizer que estava a ser pedida para noiva e que devia ir para a Capital, na outra Ilha e tratar do Visto de Noivado e partir para a América.

Veio de barco para a Cidade Capital e quando chegou pensou que estava na maior cidade do mundo. Comparar a pequena vila com a capital era quase impossível. Não demorou muito, o Mário tratou de tudo, sem ela saber. Conseguiu todos os seus documentos através de um primo e estava tudo em ordem que uma semana depois ela estava de volta a pequena Ilha e pequena vila de onde brevemente partiria para a América.

Sentiu a mágoa de ter que partir e nos olhos da mãe e do pai a esperança de vida melhor. Uma vida melhor para ela, para eles e para os irmãos e irmãs.

Desta vez foi de barco, mas para a Ilha vizinha e de lá para outra de avião, um pequeno avião, de onde apanhou um avião enorme e este tinha um e único destino, a América. Quem pagou todas as despesas foi o Mário e ressalvava sempre que estava a pagar a lata amassada.

 

O Mário entrou no carro para ir ao aeroporto, ia receber a sua amiga Adélia.  Ia a cantarolar e feliz. De repente viu a sua frente um enorme camião e vinha em direção contraria...

O Avião chegou e os passageiros desembarcaram, a maioria vinha de África de Sul e falava uma língua que a Adélia não  entendia patavina. Durante a viagem não reparou em ninguém, mas ao chegar a fronteira sentiu a necessidade de encontrar algum apoio... Seu rosto transformou num rosto aflitivo. Foi quando ouvi uma voz:

-És de Cabo Verde?

-Sim sou, Estou aflita...

-Dá para se ver à milhas, fica calma...

Quando chegou a vez dela, o homem fez de tradutor e juntos levantaram a bagagem. Saíram. Era suposto ela se encontrar com o Mário no “Ponto de Encontro”. Estava lá muita gente, mas nenhuma com cartaz “ADÉLIA” conforme o combinado.

O passageiro seu companheiro da viagem estava com ela. Esperaram e esperaram e nada.

-Tens o numero dele?

- Sim é este!

Foram a uma cabine e ligaram para o Mário, o telefone tocou e alguém atendeu...

-É o Mário?

-Não, o Mário já não é deste mundo, teve um acidente. – respondeu alguém em Inglês.

O companheiro da viagem da Adélia, não sentiu coragem para lhe dizer a verdade. Disse-lhe que viesse com ele e que de casa ligariam de novo para o Mário. Ela saiu com ele e viu... Viu o que era uma GRANDE CIDADE, viu a Nova Iorque vestida de luz e acordada na noite. Viu de longe a Estátua da Liberdade, não a conhecia e nem sabia o que era.... E Sentiu-se minúscula, abandonada e privada de tudo.

Fim

João Pereira Correia Furtado

Praia, 18 de Novembro de 2016

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Respostas a este tópico

Muito Obrigado Amiga poetisa Miriam.

Querido Escritor João  Furtado

Guardei-te para o fim porque me deixaste mesmo sem sopro e de olhos em água!

da 1ª vez e hoje novamente...

Sempre, SEMPRE, me encantaste com teus contos.

sabes, contei-te, que tenho uma etiqueta com teu nome, para teus contos, no meu mail!rs

MAS NESTE CONTO ultrapassaste tuuuudo!

em tecnica: foste cinematográfico!!rsrs

ADIVINHA-SE...não explanaste tudo, numa exploração de descrições etc,

que, NESTE CASO, perder-se-ia o fulcro do teu Conto!

CARACOLES!!

Foste sintetico sem ser telegrafista!

Foste....UUUAAAAUUUU ESCRITOR CONTISTA!

no inicio e na conclusão!

Ai A CONCLUSÃO..... NADA A MAIS! A tua contenção...

essa conclusão fez-me chorar

de tal forma se sente O vazio, O sem chão de Adélia...

meu imenso aplausooooooo! meu enooooooooorme aplauso em pé!

exagero?! não penso!!

GRATA POR ESTE MOMENTO DE LEITURA!

Beijos de poesiaaaaa

Chantal Fournet

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