O LIRIO E A ROSA




A idade seguia se circulo natural da vida e ele o Akili, soba da tribo, há muito que se preocupava com a descendência. Sabia que segundo as leis da tribo, se não tivesse um filho varão, o trono seria atribuído ao sobrinho mais velho com a sua morte.

Não importava se assim fosse se não houvesse um senão. O sobrinho era mau, cruel e sanguinário. As mais notícias espalhavam pela tribo e ninguém ficava a margem da preocupação, vendo o Akili  que se envelhecia e nenhuma das suas 15 mulheres a lhe dar um herdeiro. As mulheres davam-lhe filhas e filhas, mas nenhuma presenteava a tribo o herdeiro do trono.

Desesperado o Akili teve que recorrer ao curandeiro da tribo. Queria saber o que fazer para ter um filho varão e que pudesse salvar seu povo das garras do sobrinho.  Mandou chamar o vidente e este ao receber a ordem do soba não se fez rogado e foi a correr para a cubata centrar, não era longe, pois ele, como curandeiro mor, a sua cubata era ao lado da do Akili.

Chegou e fez as referências habituais e com toda a calma do mundo sentou no chão, num ato de respeito e de submissão.

O Akili, depois de um momento de reflexão que o momento exigia virou-se para o curandeiro e disse:

-O que é preciso para que eu tenha um filho?

-Terei que fazer uma consulta aos deuses e as outras divindades, eu posso fazê-lo?

Era um momento de responsabilidade e de respeito. O curandeiro tinha a noção que o serviço era excepcionalmente de vida ou morte. Ele não podia falhar e notava-se um cunho de muito medo nele também.

- Sim é uma ordem e uma necessidade da tribo. É o futuro de todos que está em jogo. Não sei quando a Morte virá para me levar...

- Assim sendo, não há alternativa, voltarei logo a noite para jogar a sorte e ver o que nos reservam as divindades.

 

Era 11 horas da noite quando o curandeiro voltou. Não era a mesma pessoa, agora era ele quem se mostrava altivo e poderoso e o Soba se curvava sobre a autoridade que o curandeiro personificava-se...  O curandeiro preparou todos os utensílios e pormenorizadamente fez uma espécie de “check list” e confirmou que nada faltava. Sacrificou uma galinha totalmente negra e espalhou parte do sangue pelos cantos, a outra parte bebeu-a antes.

Tirou do bolso um lenço que a estendeu no chão. Tinha dentro 13 pedras raras e que eram atribuídos poderes especiais se o portador fosse como era o caso, um curandeiro. Na penumbra das lamparinas alimentadas de olho de palma e no ritual já conhecido pelos presentes atirou a sorte. Viu as pedras, analisou-as com cuidado, abanou a cabeça. Voltou a repetir o ato, de novo abanou a cabeça e repetiu o mesmo:

-Não pode ser...

Vez tudo de novo, desta vez até sacrificou mais uma galinha. Repetiu várias vezes e rendido as evidencias disse:

-Grande chefe, teu servo não tem boas notícias...

-Fala curandeiro!

-As divindades te mandam para ires negociar com a Rainha do Mal. A tua esposa mais nova está grávida, vai ter um menino, mas ele nascerá com a praga da Rainha do Mal.

-Não vou negociar coisa nenhuma, vou ter um herdeiro e é isto que importa.

-Grande Mestre, o teu sobrinho tem a proteção da Rainha do Mal... Tu tens que negociar com ela.

-Pelo contrário, vou é resolver agora mesmo o problema. Que se considere proscrito o meu sobrinho. Se ele se aproximar e entrar no meu reino, que seja morto. É dito.

-Grande Mestre isto não é solução, se não negociar, no momento que o seu filho se casar e abraçar a noiva, algo de mal lhe acontecerá.

Mas o Soba estava tão feliz com a notícia da chegada do herdeiro e tão determinado na proteção do reino que se tornou surdo.

 

O reino do Akili ficava a norte do outro reino.  A tribo do outro reino era grande, o que fazia do seu soba, um soba poderoso e ambicioso. Não escondia a vontade de unir os dois reinos, se não recorria a guerra para este efeito era por causa do acordo existente há milhares de anos e que estava simbolizada na enorme e velha árvore onde os dois reinos se dividiam.

O soba do sul chamava-se Enzi, soube que o soba Akili teve por fim o herdeiro. Uma das suas mulheres estava grávida e no gesto de cortesia e inteligência mandou uma mensagem para o Akili. Dizia que estava muito feliz com o acontecimento e que oferecia a gravidez da sua mulher ao futuro soba.

O Akili não podia negar tão grande honra e a partir daquele momento passou a suportar a mulher do seu vizinho soba. Primeiro na esperança de o fruto da gravidez fosse rapaz, puro engano, era uma menina e linda. Os custos aumentaram, mas a beleza da nora era tanta que aceitou com agrado tal missão.

Quinze anos depois é marcada a data do casamento e os dois reinos estão em festa. Todos se pitam e  se mascaram, a cerimonia é bela e única. Vai-se plantar uma árvore e será o selo de um novo acordo. Os dois reinos serão eternamente amigos e a paz reinará entre os dois povos. Apenas um homem está triste, o velho curandeiro. Ele previa o pior e tinha que fazer alguma coisa, mas o que seria? Pegou no seu recipiente de água e partiu. Sabia que as festas do noivado duraria 3 dias. Tempo que tinha para se encontrar com a Rainha do Mal. O destino lhe chamava.

Chegou e não foi fácil, a idade era muita e o caminhar era lento. Sentou e esperou. Sabia que o mal andava sempre nas trevas. Esperou que a treva fosse total. Meia noite em ponto e sentiu o mal a chegar. Teve medo, mas já não importava...

-Que queres de mim? – Disse a Rainha do Mal.

-Entregar-me no lugar do meu senhor e do seu filho!

-Tarde de mais, tu pouco ou nada vales.

-Mas estou cá e me entrego à ti!

- O teu gesto é de coragem e merece alguma contemplação. Vou relevar um pouco a pena do futuro soba. Ele vai reinar e governar o seu povo. De dia ele será humano e a noite se transformará num lírio e a bela noiva dele...

-Tenha pena dela, Rainha do Mal.

-Ela de noite será mulher e de dia uma rosa perfumada.

-Assim nunca poderão ter um momento de amor... E o futuro do reino?

-Sim poderão, pois apenas no dia da lua cheia e perante os raios de sol refletidos na lua, o Lírio será humano de noite e a Rosa também.

-Para toda a vida?

- Não se no momento de amor e na noite de lua cheia forem cobertos por um arco-íris, a minha sombra deixará de cobri-los.

O curandeiro voltou e contou tudo aos jovens que com atenção ouviu-o. Podiam fugir ao destino, bastavam não se casarem. Mas preferiram viver o amor e seguirem o destino.

Todos os dias o príncipe Lírio trazia ao peito sua rosa vermelha e perfumada e todas as noites a Rosa dormia com o seu lírio ao peito, exceto nas noites de lua cheia, que longe de todos os olhares se amavam... Na esperança de um dia o feitiço que não mereciam se quebraria...

 

FIM

 

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Respostas a este tópico

 João Pereira Correia Furtado

Que estória belíssima, li e reli, encantada,

parabéns estimado amigo poeta João, bjs MIL.

MIL muito obrigado, foi escrito a pressa, estive fora por algum tempo...

Um abraço do amigo

João

PAZ E BEM

Amigo poeta, uma beleza de obra o seu conto. Abraços carinhosos.

Obrigado amiga e poetisa Regina da Conceição.

Paz e Bem,

João

Nesta difícil arte, uma belíssima página. Parabéns ! Abraços do Paolo.

Caro amigo e poeta Paolo

Muito obrigado pela leitura e comentário!

Abraço de paz e bem,

João

Que conto tão espetacular que BELISSIMO CONTO cheio de tradições cheio de africanidade e lendas CHEIO DE BELEZA!

Admiro tua arte de contar admiro teu estilo contador e sabes disso!

PARABENS POR TEU Príncipe Lírio e princesa Rosa e pelo triunfo dum AMOR poderoso mesmo nos feitiços....

Querida amiga e grande escritora e poetisa Chantal, o seu comentário e a sua leitura dos contos que tenho escrito é o alento que me faz continuar....

Muito obrigado por tudo amiga!

Um belo conto, um conto de verdade, onde o encontro e choques culturais Lírio e Rosa enfim, um enlace fantástico

Parabéns amigo João, tive de ler 3 vezes, e com calma, não que o conto esteja mal contado, mas que as situações tribais, há de se ter toda atenção para bem entender o Todo

antonio

Obrigado amigo e poeta António Filho pela leitura e pelo comentário.

Um abraço,

João

PARABÉNS para todos os participantes.

Um abraço de paz e bem!

João Furtado

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