RENÉ MAGRITTE - um pintor de idéias, um pintor de pensamentos visíveis, mais do que de assuntos.

René Magritte


*
Matéria coligida e confrontada bibliograficamente por M.M.Santos com  O Livro da Arte - Ed. Martins Fontes, 1996
História Geral da Arte, Scipiones Del Prado, 1995 - Espanha


 Magritte disse:

"Tudo quanto vemos esconde outra coisa; adoraríamos ver
o que aquilo que vemos esconde de nós..."

[Baseado no livro 
MAGRITTE, de Marcel Paquet, da coleção TASCHEN]


(O Império das Luzes)


O trabalho de Magritte foi caracterizado por uma profunda sensibilidade a tudo que foge à compreensão. Um mistério inerente aos objetos do mundo, esse mistério que pertence a todos e a nenhum. Depressa se torna claro para quem observa a obra de Magritte que os elementos apresentam entre si um contraste agudo, causando um choque na mente do espectador, convidando-o a pensar. Seu quadro O Império das Luzes, segundo Marcel, talvez seu quadro mais famoso, onde há simultaneidade da noite e do dia torna esta afirmação clara. 


(Perspicácia)
Magritte, traz realmente sua perspicácia ao comedido e inteligente humor, como neste quadro onde "vê" além do ovo - como disse acima : "Tudo quanto vemos esconde outra coisa; adoraríamos ver o que aquilo que vemos esconde de nós..."  (mms)




Um contraste diferente predomina no quadro A chave de vidro onde uma rocha paira no ar, contrastando entre o peso da pedra e a leveza que apresenta no quadro: o peso da pedra não se pode conciliar com a leveza que o quadro lhe atribui. Segundo Magritte, a realidade pode ser mudada e ser-lhe dada uma manifestação diferente no quadro; do mesmo modo, o artista pode dar às coisas uma lógica tal, que contradiga as leis da percepção comum. Magritte jogava interminavelmente com esta possibilidade de divergir da realidade. Retratava simultaneamente uma realidade de uma forma infiel - pintando o dia à noite; pintando um pássaro a partir de um modelo a sua frente, apesar do modelo ser apenas um ovo (Perspicácia) ou um espelho em que estão refletidas as costas de um homem que está de frente para ele mesmo .
Outra constante na obra de Magritte é a inverção ou fusão das visões de interior e exterior, ou de posições opostas ou extremas, fazendo um jogo de virar do avesso, nos perguntando o que está dentro e o que está fora. No "Espelho Falso" o olho humano, superdimencionado, ao invés de proporcionar uma visão do que está por dentro, na alma do homem,
reflete o que está fora - um céu com nuvens.


(O Espelho Falso - 1935)

Da mesma forma, na tela Elogio da Dialética (uma homenagem
de Magritte a Hegel) há esta fusão de interior e exterior.
           (
(O Elogio da Dialética - 1936)



Ainda mecionando Hegel pois Magritte lia, além deste, as obras de Heidegger, Foucault, Nietzche e Platão, também a tela a seguir, chamado pelo próprio autor de As Férias de Hegel,
nos mostra sua predileção aos pensadores. Hegel foi o expoente da dialética filosófica e é outra vez inspiração do artista. Ele mesmo diz sobre o trabalho: "Pensava que Hegel... teria sido muito sensível a este objeto que tem duas funções opostas: ao mesmo tempo, não admitir água (repelir) e admitir (conter). Ele teria ficado satisfeito, creio , ou divertido (como se estivesse de férias) e chamei ao quadro As Férias de Hegel".
A ênfase na obra de Magritte parece estar sempre ligada a estimular o pensamento. É uma pintura para filósofos ou, pelo menos, para apreciadores do pensamento filosófico. Era um pintor de idéias, um pintor de pensamentos visíveis, mais do que de assuntos.
       
 
    (Férias de Hegel 1958)



O improvável dentro do visual de Magritte

A tela - A Página em branco - uma homenagem de Magritte a Mallarmé que havia escrito sobre a impossibilidade de escrever numa página em branco, a Lua está numa posição inverossímel: na frente e não atrás das folhas.



Sobre a tela seguinte - Carta Branca, Magritte diz:
"Coisas visíveis podem ser invisíveis. Se alguém cavalga por um bosque, a princípio o vemos, depois não, contudo sabemos que está lá. A amazona oculta as árvores e estas ocultam-na também. Todavia os nossos poderes de pensamento abrangem tanto o visível quanto o invisível - eu faço uso da pintura para tornar os pensamentos visíveis".


Na próxima tela, nem o homem alado nem o leão têm a ver com a ponte. Parecem encarar a melancolia daqueles que sabem que a verdadeira vida está sempre em parte alguma, é coisa que não existe. Outra metáfora de Magritte que parece nos dizer que assim como o leão está num ambiente que não lhe pertence, também o homem ao seu lado de asas fechadas parecem sonhar melancolicamente em fugir, voar para outro lugar, fugindo da prisão que o mundo representa.
A este, Magritte deu o nome de A Saudade.


À tela abaixo Magritte deu o nome de O Modelo Vermelho
( Modèle Rouge) e falou o seguinte sobre ela:
"...o problema dos sapatos demonstra quanto as coisas mais assustadoras podem ser feitas, para parecerem inofensivas através do poder da negligência. Aqui sente-se que a união do pé humano com um sapato se baseia afinal num monstruoso hábito". (grifos do autor)





 No Jóquei Perdido, feito em 1948, o surreal está nas árvores
que surgem como folhas esquematizadas.

Um tema recorrente na obra de Magritte

(homens com chapéu-côco)




(Golconda - 1953)

Sobre esta tela o próprio Magritte diz:
"Há aqui uma multidão de homens, homens diferentes. Quando pensamos numa multidão, contudo, não pensamos "num indivíduo": do mesmo modo, estes homens estão vestidos de igual, tão simplesmente quanto possível, para sugerirem uma multidão... Golconda foi uma rica cidade da Índia, uma maravilha. Acho uma maravilha poder caminhar pelo céu, na Terra. Por outro lado, o chapéu-côco não constitui surpresa - é um antigo complemento, nada original. O homem de chapéu-côco é o "Sr. Normal", no seu anonimato. Eu também uso um [chapéu-côco]; não tenho vontade de me destacar das massas".



            
( O Mês da Vindima - 1959)

Também aqui, como em Golconda, aparecem os mesmos homens anônimos com chapéu-côco, obstruindo hermeticamente a vista para fora da janela, dando uma impressão assustadora, apesar da passividade estampada nos rostos.




* Uma observação particular: -Há postulados na semiótica  que levam a este mesmo patamar de pensamento. Quando falamos em sígnos na semiótica - ou semiologia - estamos dizendo que tudo no mundo fático, material, tem por trás uma outra leitura ou mesmo releitura. Busca-se como na filosofia o encontrar da semente por trás da carapaça, a verdade subjetiva de cada um, cujo entendimento repassa como a Verdade, que deseja incontestável - M.Martins Santos -

"My painting is visible images which conceal nothing; they evoke mystery and, indeed, when one sees one of my pictures, one asks oneself this simple question 'What does that mean'? It does not mean anything, because mystery means nothing either, it is unknowable."


                (Decalcomania - 1966)

A silhueta da esquerda parece ter sido recortada
das pregas da cortina.
(de novo, o homem com o chapéu-côco, devendo ser o mesmo Magritte)



(O Mestre da escola)
Quem seria ele o mestre escola de chapéu-côco? 

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Respostas a este tópico

Mauro Martins Santos 

Um magnifico trabalho, encantada,  parabéns amigo poeta Mauro, bjs MIL.

QUERIDA MIL

Arte - no caso as plásticas - mais que praticá-la é um tema que me fascina, desde a adolescência.

Estarei neste recinto do PEAPAZ, tentando aprender com os que de fato sabem. Obrigado querida amiga escritora pelas palavras de ânimo. Vindas de ti tem poder. Beijos e abraços   

Interessante . Sempre  mostrando  as costas o rosto nunca sobre sai. A face oculta onde nunca chegamos o eu do outro,. Ou as faces mil coisas falam este quadro e quando mostra a face não corresponde a do espelho, Existe segundo penso uma mensagem igual em todos estão juntas dentro de uma janela onde olham o mundo mas sem participar ou existe o verde como uma maçã calando  e desfigurando a face, mesmo quando pinta o ovo enxerga o futuro a ave em sua plenitude. 

 mesmo o leão com o ser alado para mim revela algo mais A dualidade entre o bem e o mal. O simbolo de Judá. O leão que lembre a religião que prega o bem e a libertação das más inclinações  e o homem que olho o lado oposto com azas negras . Pontes são para ligar .passagem, escolhas a serem feitas ou  o que existe dentro do ser de cafa um a eterna  escolha.Quando ele se integra a natureza a cortina  cobre sua visão O homem sempre em posição de sentido atento aprendendo assimilando ordens . Sinto a sua coluna vertebral endurecida.A nevoa que cobre o mundo e a lua que brilha em sua cabeça. mensagens que tentamos descobrir através de sua pintura

Obra inquietante.

Agradeço-te as informações aqui dispostas.

Beijossssssssss

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