Vez em quando me recordo de passagens de muito tempo atrás. Dizem que é a recognição da memória remota ou coisa parecida. Nesses casos, não me lembro de onde pus a chave do carro, mas me recordo perfeitamente do que ganhei no Natal de 1972. Ou do que não ganhei, já que minha mãe cumpria as promessas.

 

                              Como isso não vem ao caso me surpreendi recordando o tempo de escola, quando morava na cidade e nos finais de semana ia para o sítio. Gostava muito de ir lá. Não era muito grande, uns poucos alqueires de terra cortados pelo rio Sorocaba de excelentes pescarias nos ceveiros cuidadosamente preparados. A pescaria preferida era do curimbatá, com isca de queijo e anzol de três lados.  Lavoura de cana e umas cabeças de gado. Gado de leite. As vacas ficavam em um curral com um piquete no interior e eram ordenhadas todas as manhãs pelo Julião, camarada do sítio. Contando com minha preciosa ajuda pelo menos nos finais de semana. 

                              No sítio e naquela época a gente dormia cedo. Sem luz elétrica, depois do escurecer não havia muito que se pudesse ser feito. Um lampião a gás na sala fornecia iluminação para leitura. Lampiões a querosene complementavam nos outros cômodos. Para os deslocamentos individuais, cada um se munia de uma lamparina de pavio. Deixava o nariz da gente todo preto por dentro e havia a necessidade se sempre se ter uma caixa de fósforos por perto.

                              Para não dormir com as galinhas, de vez em quando saia uma partida de truco ou de buraco à luz do lampião da sala. Ou conversas na varanda onde a rede era disputada.  Também era preciso sempre acordar cedo. Quem dormia até mais tarde corria o risco de acordar com o rosto todo pintado com rolha queimada ou coisa parecida. Ou bem pior. Para isso também o sono leve era de bom alvitre.

                              E a vida era assim. A boa vida era assim. Não chegava a enjoar. Só dois dias de tranquilidade e a mesma coisa, sem nada acontecer a quebrar a monotonia.

                              Era chegar, jogar a tralha num canto e arrancar os sapatos. Pescar, andar a cavalo, ajudar a tirar o leite, pintar a cara dos outros com rolha queimada, dormir, pescar, andar a cavalo, e assim por diante.

 

***

 

 

II

 

                              Certa feita, o pessoal foi a um velório num sítio nas proximidades. Ajeitaram a charrete e saíram antes do escurecer. Ficamos meu irmão mais novo e eu. Não gostávamos de velórios. O café era muito fraco e a conversa muito chata. Na boca da noite, enquanto os pernilongos deixavam, ficamos na varanda. Um lampião a carbureto nos provia de luz para que eu lesse um jornal da semana passada e o Moisés jogasse paciência com um baralho ensebado. Trapaceando, como sempre.

                              Ouvi um barulho que me pareceu ser no curral, cerca de cem metros dali. Não liguei muito. Barulho no curral não era anormal, exceto a rima. Mas mugidos, barulho de batidas na cerca foi aumentando até que de repente, um miado forte. Dei um pulo e gritei para o Moisés:

                              - É onça?! - meio perguntado e já querendo que a resposta fosse negativa.

                              - É onça o que? – diz ele sem tirar os olhos do jogo.

                              - Que miou lá no curral.

                              - Não ouvi nada – disse ele, agora já meio prestando atenção na conversa.

                              - Mas eu ouvi – garanti com toda a propriedade e respeito de irmão mais velho.

                              - Miou é? – debochou ele.

                              - É! – disse eu com circunstância e pompa.

                              - Mas gato também mia! – debochou Moises outra vez, mas fingindo que não estava preocupado também.

                              - Gato mia, mas não assusta boi. Leva pisão e saí correndo. E se for onça? Dizem que nessa mata aí dos lados de Boituva tem onça. Vamos lá ver – arrematei.

                              - Eu sou contra.

                              - Uia. A menina está com medo?

                              - Estou sim.

                              - Medinho do meu gato? – em tom de troça provoquei. Precisava de apoio por que eu também já estava meio receoso.

                              - Pois vamos ver. – levantando-se e batendo a mão espalmada sobre a mesa, espalhando as cartas da paciência.

                              Pegamos a espingarda e um lampião e saímos. Atravessamos o terreiro sem problemas. Firmes e fortes. Na porteira fizemos uma pausa para avaliar a situação. Resolvida a estratégia, atravessamos a estradinha e de certo ponto em diante progredimos agachados. Num passo de pato que provocaria gargalhadas a quem quer que visse. Felizmente não havia viva alma por ali e as do outro mundo tinham coisa mais séria para fazer do que rir de dois metidos a valentões iniciando uma expedição em busca da onça.

                              Por uma fresta nas tábuas do curral olhei atentamente. Divisava o vulto dos animais contra a luz da lua. Em resumo, não vi nada além de vultos de cascos, pernas e muito estrume.            

                              Murmurei entre esperançoso e cético:

                              - Será que já foi embora?

                              - E. Foi embora mesmo. Se é que esteve aqui. E nós também já estamos indo. Ou melhor, já fomos- disse Moisés já embicando em direção à porteira.

                              - Não – contrariei. - Vamos olhar direito. Hoje somos responsáveis pelo sítio. Dê a volta para olhar pelo outro lado.

                              -Eu não! Vá você – miou o Moisés assumindo a covardia.

                              - Não posso. Acabou de voltar aquela minha dor nas costas. De quando você puxou a cadeira antes de eu sentar, lembra-se. Ficou a dor que vai e vem.

                              - É – disse ele. Ela sempre vai, mas volta na hora certa. E não me lembro disso de cadeira.

                              - Deixa de ser medroso – disse eu tentando assumir o controle senão eu que teria que fazer a volta no perímetro.

 

                              - Protejo você daqui – e bati na culatra da espingarda para dar mais efeito.

 

                              - É que você não protege nem você de você mesmo – esganiçou ele sem tirar os olhos do caminho de volta.

 

                              - Vamos – ordenei em voz mais firme.

 

                              - Vamos nada. Quem vai sou eu, né belo?

 

                              - Vai logo então.

 

                              - Só tem um lampião. Naquela escuridão Moisés não põe os pés.

 

                              - Leve o lampião. Fico no escuro mesmo. Não tem perigo aqui – asseverei, mas me arrependi depressa.

 

                              - Aqui não tem perigo! E lá?

 

                              - Para com esse medo besta a vai logo. Ou então vou eu. Levo o lampião e a espingarda e deixo você aqui no escuro.

                              Pelo andar da carruagem Moisés não iria sair dalí. Teria que melhorar os argumentos.

 

                              - E se eu achar alguma coisa atiro, mas veja que vou estar de frente para você. Vai estar na linha de tiro – ponderei mais uma vez, com a autoridade de irmão mais velho e aficionado por filmes de faroeste.

 

                              - Vou levar o lampião e a espingarda – disse ele quase convencido.

 

                              - Vai sim. E caso veja alguma coisa atire.

 

                              - E se eu errar?

 

                              - Atira de novo. Tem dois canos.

 

                              - E você não vai estar na linha de tiro? – lembrou ele.

 

                              - Mas vou ficar abaixado. Estas tábuas são de guarantã e seguram esse chumbo fino – respondi meio esquecido do que havia falado antes.

                              Por sorte ele também nem lembrou.

                              - Tá legal.

                             

                              Moisés colocou a espingarda entre os braços e levantando o lampião em uma das mãos saiu rastejando.

 

                              - Por que vai rastejando? – perguntei. – Assim vai demorar uns dois dias para dar a volta.

 

                              - É para não espantar o bicho – responde ele todo orgulhoso da sapiência.

 

                              - Olha, Musa véio... Com essa luz na mão e fazendo esse barulhão batendo a espingarda em tudo quanto é tábua e toco vai assustar até elefante surdo e cego.

 

                              - Até se ele for papa-prego?

 

                              - O que é papa-prego?

 

                              - É o nome que nós, as pessoas cultas damos aos aleijados – responde ele com circunstância.

 

                              - Não é papa-prego. É paraplégico!

 

                              - E daí? Falei no superlativo – diz ele sem admitir o erro.

 

                              - Para com essa conversa mole e vá logo – arrematei.

 

                              - E o que quer que eu faça? Já esqueci tudo o que disse.

 

                              - Vai correndo curto até a primeira quina. Espere um pouco e olhe. Depois vai bem devagar até o piquete. Se enxergar algo estranho, atire – expliquei, complementando em voz alta:

 

                              - Onças... preparem-se que vai aí o Moisés, terror das domésticas...

 

                              - Não amole – disse ele, já preparado para a investida.

 

                              - Só estava incentivando.

 

                              - Eu vou. Mas se ela me matar e me comer juro que nunca mais falo com você.

 

                              - Não se preocupe – disse eu. – Ela não vai comer você. Pode sair correndo. O máximo que pode acontecer é arrancar um braço ou outro pedaço. E só...                      

 

                              - Obrigado – disse ele em tom irônico. Precisava mesmo era desse incentivo.

 

***

 

 

III

 

                              Moisés saiu devagar. Fiquei agachado e me ajeitei junto às tabuas. Vai lá que ele começa a atirar para o meu lado. Seguro morreu de velho e o prudente foi ao enterro, como dizia minha avó.

                              Alguns minutos que pareceram uns dois dias e Moisés chegou ao piquete sem parar na primeira quina como havíamos combinado. Vi quando entrou no cercado e fiquei esperando. Mas o tempo passava e nada de manifestações por lá. Nem um barulho, nada... Só o clarão do lampião.

 

                              - Será que ele pendurou o lampião e dormiu? – pensei eu. Resolvi chamar:

 

                              - Moisés... Ó Moiséees... Viu alguma coisa?... Moiiiséees – gritei.

 

                              - Fala baixo – respondeu ele meio sussurrando, meio em voz alta. – Quer espantar o bicho?

 

                              - Viu alguma coisa?

 

                              - Só um rato. E a boiada despejando caca como esguicho. Isso fede... – reclamou ele. – E daí? Viu alguma coisa?

 

                              - Nem sombra – disse eu.

 

                              - Ela já foi embora – concluiu ele. – E agora? – perguntou.

 

                              - Dever cumprido. Também vamos – respondi.

                              Em silêncio caminhamos até a porteira, do outro lado da estradinha. Minutos depois, Moises rompeu o silêncio:

 

                              - Tem fósforos?

 

                              - Mas isso é hora de palitar os dentes? – disse, apressando o passo por que justo naquele momento começou a ventar.

 

                              - Não vou palitar meleca nenhuma. E se apagar o lampião?

 

                              - Eu tenho – menti apostando que a manga protegeria a mecha até chegarmos à varanda. Mas, como se o ventou ouvisse e quisesse brincar, o lampião apagou.

 

                              - Me dá o fósforo!

 

                              - Mané fósforo, nem fosfato Musa véio. Eu menti!

 

                              - Então por que disse que tinha?

 

                              - Para você não ficar amolando.

 

                              - E agora? – choramingou ele.

 

                              - Vamos voltar ao piquete. O pessoal da ordenha sempre deixa fósforos por lá.

 

                              - No escuro?

 

                              - Claro. Não tem outro jeito. Está com medo?

 

                              - Estou – admitiu ele. – E você? – emendou.

 

                              - Eu também estou – tive que confessar.

 

                              - Minha santa barbaridade das caçarolas – resmungou o Moisés em tom de reza. – O que faço agora?

 

                              - Já disse. Vamos voltar ao curral. Se não acharmos um fósforo a gente espera o pessoal voltar do velório – ponderei, não vendo outro remédio.

 

                              Voltamos para o curral seguindo a cerca. Não foi difícil atingir o piquete.

 

                              - Hoje eu não deveria ter saído da cama – reclamou o Moisés.

 

                              - E por que saiu? – esbravejei meio nervoso com a situação que saiu do controle.

 

                              - Ora bolas! Foi só uma figura de discurso – diz ele.

 

                              Ficamos alguns minutos em silêncio somente quebrado pelo movimento e mugidos dos animais.

 

                              - Pare de estalar os dedos – sussurrou Moisés.

                              - Quem está estalando o dedo?

                              - Você está. Eu ouvi.

                             

                              - Você escuta demais.

 

                              - Fique quieto... escuta...

 

                              - O que?

 

                              - Nada... nada, mais nada de nada...

 

                              - E daí?

 

                              - Se que se a gente não escuta nada é porque não tem nada por aqui – concluiu Moisés todo seguro de si.

 

                              - Isso é – concordei aliviado.

 

                              - Temos que ficar aqui?

 

                              - Pare de arranhar a tábua da cerca – reclamei.

 

                              - E quem está arranhando?

 

                              - Você, claro. Só estamos nós dois aqui...

 

                              - Eu não... estou quieto...

 

                              Ambos ouvimos um barulho como de garras arranhando as tábuas da cerca. Bem perto dali.

 

                              - Foi você?

 

                              - Não.

 

                              - Então quem foi? Só pode ser a...

 

                              Em coro, quase gritamos:

 

                              - A ONÇA...

 

                              - Estou vendo – disse Moisés espavorido.

 

                              - Vendo o que? Está escuro aqui.

 

                              - Olha lá. É do tamanho de um boi

 

                              - Não exagere...

 

                              - Estou vendo sim...

                              - Você está vendo um boi pensa que é onça...

 

                              Miau... ouvimos ambos congelando a espinha.

 

                              - Você já ouviu boi miar? – pergunta Moisés com voz trêmula.

 

                              - Não. E você?

 

                              - Vamos cair fora daqui. 

 

                              - Para onde nessa escuridão?

 

                              Foi daí que vimos a onça. Não que a tivéssemos visto claramente, mas na escuridão pudemos ver dois pontos brilhantes.

 

                              - Atire – disse Moisés.

 

                              Apoiei a espingarda na cerca e puxei os ferrolhos, com o dedo no gatilho esquerdo. Poderia disparar os dois canos de uma só vez.  Os pontos luminosos aproximaram-se tanto que podemos sentir a respiração do bicho. Para nossa surpresa, um miado forte, vindo do flanco quebrou aquele estado de expectativa.

 

                               Estava com a arma travada em frente e não iria conseguir virar. Larguei a espingarda e saí correndo no que fui seguido pelo Moisés.  No escuro atravessamos o curral atropelando animais e enfiando os pés no esterco. Lá fora, com os olhos acostumados à escuridão e alguma luz do luar já alto, achamos a casa pelo rumo. Tropeçando, batendo em cerca. Arranhando-nos conseguimos chegar até a varanda.

 

                              Entramos correndo e fechei a porta enquanto o Moisés acendia o lampião a gás da sala.

 

                              - Ajude-me aqui. Para fazer uma barricada.

 

                              - Mas a barrica está lá fora. E não vou sair nem pagando – reclamou Moisés.

                              - Arraste a mesa até aqui para travar a porta. Vai cozinha e pega o machado que eu pego a foice.

              

                              - E agora que ela vier aqui vira casaco de pele. Viu só o tamanho dela?

 

                              - É. Parecia um cachorro grande – disse eu algo preocupado com a situação.

 

                              - Que cachorro nada. Tamanho de um bezerro – corrigiu Moisés enquanto trancávamos a casa o mais que podíamos. A impressão era de que seria uma longa noite, mas dormimos logo. Acordamos mais tarde outra vez com um barulhão no curral. Depois um miado forte. Entrei embaixo do cobertor como se ele fosse uma muralha.

 

                              - Está com a caixa de fósforos por garantia? Perguntei ao ouvir um ruído de algo batendo.

 

                              - Não são fósforos. São meus joelhos que não obedecem – diz Moisés meio choramingando.

 

                              - Então para com isso. Está me deixando nervoso.

 

                              - Não posso – respondeu. E acendeu um fósforo para olhar o relógio na mesinha da cabeceira.

 

                              - Quase quatro e meia. Daqui a pouco o Julião vai tirar o leite – disse eu referindo-me ao camarada que ajudava no sítio.

 

                              – A gente tem que avisar. Vai que ele dá de cara com onça – rematei decidido.

 

                              - No escuro eu não saio. Vai sozinho.

 

                              - Tudo bem – concordei deixando que o medo falasse mais alto que a preocupação com o camarada. – Vamos esperar começar a clarear. Daí vamos lá, antes dele chegar.

                             

                              Nos primeiros albores da aurora saímos.  Já no curral, Moisés pegou a espingarda do chão e disse:

                              - Que venha onça que eu mostro quem é Moisés. Sou um perigo...

 

                              - Agora você fala grosso – disse eu em tom de escárnio.

 

                              - E quem foi que saiu correndo primeiro?

 

                              - E quem veio atrás?

 

                              - Fácil. Vendo você bater em retirada, segui. Afinal você comandava a expedição cibernética – disse Moisés, enfatizando a palavra cibernética.

 

                              - Cibernética? – estranhei.

 

                              - Sim – disse ele - é o termo que nós os intelectuais usamos para a caça.

 

                              - Só que não seria cinegética?

 

                              - Pode ser.  Falei no pretérito perfeito – disse ele sem admitir o erro.

 

                              Entramos no curral. Julião ainda não havia chegado e tudo em ordem. No chão havia uma jaguatirica de uns cinquenta centímetros, se tanto. Morta. Esticada e com a cabeça esmagada. Deve ter sido pisada pelas vacas.

 

                              - Olha aí a sua onça – disse eu, rindo, pois não havia outra coisa a fazer senão rir de nós mesmos.

 

                              - Dispenso minha parte. Pode ficar pra você – disse Moisés, também começando a rir.

 

                              - Melhor a gente tirar ela daí e não contar nada para ninguém – pensamos e falamos em uníssono.

 

                              E foi o que fizemos. Enterramos o famigerado felino debaixo de um pé de caju e nunca ninguém mais soube da história da onça.

 

==@==

Do livro " O bardo não usa mont blanc", sob heterônimo de Tosco Bardo

 

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Respostas a este tópico

Enredo interessante e bem traçado, o texto cativa o leitor.

Parabéns!

Beijosssssssss

Muito bom. gostei 

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