(2010)

CANTO VELHO


     Tenho mais de cem anos...

      Perdi minha conta dos anos e das paisagens que vi, dos cantos em que fiquei a viver. Aaah, mas vivi! E ainda vivo! Há um ano que vivo no mesmo canto. Meu canto velho; vou cantar em velho canto, meu canto velho …
      Atravessei o mar, depois de ter sido construída por artesãos, de humildes origens e mãos artísticas, sem luvas e cicatrizadas por golpeadas no trato e manejo da sua arte. Minha madeira, ainda há poucos anos, tinha gravada a tinta “Manteiga Açoreana”! Tudo servia, na sua pobreza, para transformarem em arte, cobrindo com vime as tábuas, que juntavam, fazendo entrançados de desenhos bem criativos!
     Meus pés, são elegantes e trabalhados com finura, em rendado torneado, que lembra o macramé, que minha dona fazia, há cerca de cem anos. Minhas pernas, altas, suportam os arcos leves. Eu era bonita, airosa, exibia, com altivez, a minha leveza resistente!
    Vim acompanhada pelo Canapé e os Cadeirões, grandes, fundos e confortáveis! Recolhiam almofadões coloridos de grandes flores garridas, repletas de folhelho, que faziam barulho, quando, cada manhã e tarde, eram batidos, sacudidos, para afofarem, diziam, enquanto aumentavam de tamanho, para receberem anafadas nádegas de alguns, ou as mais juvenis, elegantes e firmes, ou ainda as doridas, secas e austeras de pudicas, da minha dona. Aaah! O cheiro do folhelho batido!

     O tempo passava ao som do zumbido das abelhas e das moscas! Recordo como havia tantas moscas naquele tempo, naquela quinta, de frondosas tílias, nas faldas da Serra, de píncaros altos e fragas pedregosas, tão longe do mar florido onde nasci …
     A minha primeira juventude, vivi-a alegre, com jovens donzelas de vestidos rendados e mil preguinhas e pequenos folhos que frufrutavam, naquele suave som da seda em movimento! Usavam largos chapéus de palha e bordavam ou faziam macramé, riam em
pequenos risos contidos, mas eram felizes! Pelo menos algumas! Minha dona nem por isso! Pai severo, muito severo! Mas, mais com ela do que com sua irmã mais nova; recordo agora que era assim. Talvez porque minha dona gostasse mais de ler do que folgar, quem sabe?...     

Numa altura, as vidas mudaram, e até eu, saí do jardim da casa, para ir para a Quinta das férias! Como eu vivia feliz na Quinta! Voltara a encontrar os que deixara! Os ruídos, os zumbidos, as árvores e o velho Tanque grande, com água que corria molemente, sem pressa, mas também sem lassidão! Conferia tranquilidade ao ambiente. E o tempo decorria estioso, com a pachorra lenta dos animais ao sol, no meio dos zumbidos de insectos e o cheiro da madeira quente estalando sob o calor!
   - Que dizes Arvore? Sabes que já não ouço como dantes! Sou uma velha Lady! E se me queres interromper, fá-lo de forma que eu ouça!
   - Dizia eu, que gosto muito, que tenhas chamado "O Velho Canto" ao nosso espaço! Sou mais novo que tu! Só tenho trinta e seis anos, mas, para árvore, já é uma bela idade por estes sítios!
    - Sim! Julgo que tens razão! Concedo-te que me afligia a ideia de acabar a minha vida elegante, naquela garagem bafienta. E, se bem que não és tão importante, como as tílias da minha primavera, a verdade é que, as tuas bossas nodosas conferem-te uma distinção invejável! E confesso que me senti rejuvenescer, quando ELA me colocou sob as tuas frondes perfumadas … porque o zumbido das abelhas era tanto, que me senti regressada ao tempo, em que os sons que se ouviam eram os do campo.
       - Muito me lisonjeias, minha amiga! Felizmente, perdeste bastante da tua pose tão altiva! Nem sabes como eras pedante, com teu aspecto decadente e meio destruído. Sim, tu estás, agora, mais simpática! Do meu lugar, fui observando o que ELA te ia fazendo, os lugares em que te ia colocando, estudando o melhor sítio, o melhor ângulo, a melhor luz… Na verdade, tens sorte, ELA ama-te!
        - Siiiim…Tens razão! Não em me teres chamado pedante! Que topete! Mas lembro-me bem quando ELA entrou na garagem bafienta! A exclamação, dorida e revoltada, quando me encontrou, fazendo de suporte a uma maquinaria e sei lá que mais! ELES tinham-me transformado em estaleiro, em depósito, em palanque, em…Aaaghh!
Que horror! Aquele cheiro! E todas as humilhações que passei com aqueles detritos! O rendado dos meus pés elegantes, debaixo daqueles líquidos lamacentos e fétidos! Sou uma Lady! Sou uma Lady!
ELES troçaram! Mas ELA foi teimosa, limpou-me, pôs-me ao sol e mesmo tão estragada, sinto-me muito feliz sob a tua protecção, recebendo tuas folhinhas perfumadas e ouvindo todos os que se acolhem nos teus braços!
      - Bah! Este canto velho já me cansa! No fim, nem vês o quanto beneficiaste em Me teres a teus pés! Estou aqui ouvindo-vos! Não me ligavam nada, naquele muro onde me relegaram! Esquecidos que estavam, de mim e de minhas folhas e flores mimosas e frágeis! Eu chamava-vos, mas vocês achavam-se demasiado importantes para me responderem! Tu, Árvore, julgas-te o mais importante, porque, há trinta e seis anos, ELA te Ama, até pede licença para se sentar sob tua copa, não permite que te cortem ramos…Ah! Tem paciência! Ainda dizes que a velha Lady é pedante?!
       - Ora Vaso! És despeitado! Pffft! Nem de matéria nobre és! És de plástico! Sim, confesso que ELA me respeita! Os meus nós, a minha voz grave… han…hum…lembro-me de a ver escrever ao namorado, à minha sombra ainda tão imberbe! E tu, Lady! Era sobre ti que ELA escrevia, trazia uma caixa azul marinho, onde ela punha o material para escrever, porque se destacava no teu Branco! E colhia um raminho pequeno de mim, para enviar ao namorado, no envelope, porque cheirava bem!
        - E eu estava tão bonita! Muito bonita! ELA pintara, cuidadosamente o meu vime, de branco! Como me sentia vaidosa! Ainda não era centenária…
        - Mas tinhas uma maturidade elegante! Tal como agora!
        - Ora, Árvore! Que Cavalheiro …confundes-me! Não tenho idade para me sentir confundida com a sedução!
        - Eu tinha apenas um ano! Mas soube ver a tua elegância! E senti-me lisonjeado quando ELA me escolheu para te pôr em realce! Ainda a recordo, explicando como o verde tenro das minhas folhas, se aliava à elegância do trabalho do teu vime branco!
        - Pois sim! Pois sim! Mas eu, aqui em baixo, dei o toque de elegância aos teus pés e às tuas pernas, que parecem ter meias descaídas!!! Comigo junto, ficas muito mais bonita! E o redondo bambu, destituído Cadeirão, nem fala! Ainda não recuperou da mudança! Canto Velho! Ah! Ah! Ah! Bem velho, não há dúvida!
         - Meias descaídas?! Meias descaídas?! Eu… Eu…Eu sou uma Lady…centenária…!
         - Não chores Lady! Eu rodava, dançava e estou parado, bloqueado e ELA me massajou, alimentou-me e colocou almofadões confortáveis, para acolher o cansaço e o descanso de novos e mesmo o DELA!  Querida Lady! Não chores! A tua velhice está cheia de História e rendas e bordados e flores frescas e meninos com papas de farinhas e de frutas, de Avós com Sabedoria e Amor, de chás de menta e limão e cafés com bolinhos e compota de amora silvestre, pimenta rosa e mel de abelhas e cartas com poemas de Amor! Toda uma vida cheia de vidas!


“ Nosso canto velho de velho canto nosso velho canto de canto velho, nosso canto velho de velho canto……….”


A brisa, ora forte, ora leve, sussurrava juntamente com eles, trazendo-me suas notas de nostalgia, por entre os aromas de jasmim e de petúnia roxa e canto de pintassilgos e chilreio de tentilhões….
A Vida, sempre nova, do velho canto do Canto Velho!
SEM FIM…

Junho 2010

Maria-José Chantal F. Dias

Portugal

(1981)

Notas: a melopeia gira em torno de uma mesa uma árvore um cadeirão de bambu e um velho vaso de plástico. (na 1ª foto)

Peço desculpa de ter torcido uma coisa: Árvore para mim sempre foi do genero masculino, talvez deformação do francês! mas na verdade..só em português é do genero feminino!!

Folhelho: recheio de almofadas e colchões antigos, feito a partir das folhas secas do milho!! não sei se no Brasil se diz assim!

Exibições: 138

Respostas a este tópico

Com certeza, teu velho canto, trouxe novo encanto para meus olhos, e para uma bela reflexão sobre a vida...

Beijos mega aplauditivos,

Marcial

querido Poeta Marcial ..Grata por teres gostado desta melopeia dos antigos da casa!!

Beijos agradecimencantados!!!!

Tive de fazer um reajuste! é que na quinta-feira ao publicar, fiz reajustes no original e, ao copiar, houve um pedaço que faltou e que para mim- claro! - fazia sentido existir! Agora está bem!! obrigada a quem tem lido!

Numa altura, as vidas mudaram, e até eu, saí do jardim da casa, para ir para a Quinta das férias! Como eu vivia feliz na Quinta! Voltara a encontrar os que deixara! Os ruídos, os zumbidos, as árvores e o velho Tanque grande, com água que corria molemente, sem pressa, mas também sem lassidão! Conferia tranquilidade ao ambiente.

realmente pe uma linda parte de seu conto.

Belo conto e fotos, Gostei de ler Bjus

Querida Dione! Muito me honraste em teres lido meu conto! Fico feliz que tenhas gostado!! Na 2ª foto sou eu com os meus filhos! na altura com 4 e 6 anos!!

beijos

chantal

lindos seus filhos. São nossos tesouros . bjus 

A honra é minha 

Um canto encantado, que encanta o leitor.

Parabéns, querida Chantal!

Beijosssssss

RSS

Membros

Designers PEAPAZ

*Sílvia Mota*

*Margarida*

*Nara Pamplona

*Livita*

*Imelda*

*Toninho*

Poema ao acaso...

Visitantes

Badge

Carregando...

© 2018   Criado por Sílvia Mota.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço