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Episódio: "Quando Morri"

Da série Trechos  A Domingos

Meus olhos enxergam as paredes cambaleantes pálidas de branco sem cor em todos os dias neste casarão, os dias longos e prontos da falta de anoitecer, o sol nublado entra por entre as frestas das janelas e portas e projetam-se por si mesmo no chão imundo e sujo enlameado, a falta de limpeza limita-se aos pratos, colheres, garfos e facas cortantes que cortam os dedos e os pulsos, os dias são longos em longas semanas, meses intermináveis, em anos esvoaçantes e dissipando desejos. As panelas enferrujam sozinhas e solitárias, há falta de palha de aço, um panela maior, outra menor e uma frigideira, peças de ferro, estes esquecem-se  ao relento do vento, o fogão, a lenha comercializada chega pronta, chatice infinita, meus olhos pressentem que o abajur descreve-me e caçoa das circunstâncias, homem só sou eu, o lápis , papel, sinto-me doente, bêbado de doces e vinho. Escrevo de rosto enrugado de gordura transsexual obesa no cinto de couro malhado 140 centímetros e rabugento, eu jovem longevo, meta da pesquisa, escrevo a carta anestesiado , asfixiado , contaminado e intoxicado pela canfora, valha-me Adeus aos chás inoperantes,  e a carta, a carta eu passo por telefonema , a noitinha , na esquina da rua, um frio na espinha, mãos trêmulas, voz abafada por tabagismo vicioso e nostálgico leio a carta decorada pelo acaso,  e a ela do lado de lá  eu imploro que me lave os pés inchados e o chão da cozinha. Durmo recostado machucando os travesseiros retorcidos, mal ajeitados, a máquina de CPAP queimou atoa. Ouço meu ressoar no ar e que me acorda sempre acordado, noites curtas, de extremo padecer nas cobertas mofadas e úmidas. Mini e Maxi apneias atrapalham-se com os mini e maximizados sonhos, sinto leve fulgor fogoso, na frigidez do quarto, na seminua luz da lamparina da lâmpada de luz fluorescente, o flúor quebrou-me dois dentes, o dentista de todos fugiu da cidade que me fugiu do andar. Não sei caminhar, desaprendi o equilíbrio da alma. Noites concisas sem aspas e reticências, um último suspiro é o que diz de seu tempo de poucos minutos. Força nos dedos escrevem a 2ª carta,  reparada e detalhada, esticada e aos trancos mexem com as letras, não deformam as palavras mal borrifadas no papelão. De noitinha, outro frio, na esquina da mesma rua de séculos, balbucio legível aos ouvidos dele lá do lado de lá, imploro por mingau de milho e por buquê de rosas  que enfeitem minha escrivaninha e água ao trinca-ferro de penas apavorado torceu todo o gradeado da gaiola, sem energia final, faltou-lhe milímetros para fuga. O Interlocutor surdo e mudo que me presta ouve a voz das palavras da ressentida de eufemismos enganosos. Pressinto um final ardiloso, dores intermitentes brincam com o sujeito eu, predicado de final infeliz ao passar das horas sem precisão dos dias de tantas horas e curtos sustos de ociosidade.

Desci as escadas da eternidade, eram 25 degraus, contava quando subia ao quarto e recontava quando descia, encontrei-me com a sala, cumprimentei o corredor, acenei a cozinha, sentei-me na almofada esfarrapada, molas pontiagudas a mostra que feriam a pele e rasgavam calças.

O lápis desmaiou de fome e sucumbiu no frio piso de mármore carrara nebuloso tipo furta cor de uma cor, o papel suicidou-se  por combustão espontânea  no querosene da lâmpada fria  durável de LED, meu peito ameaçou outra vez, pontada aguda na caixa de ossos, sem retratação, atenção é Retratação ( retratar-se) doeu duas vezes, e na terceira vez, sem jeito e querer, eu quis e fiz,  abandonei a cabeça, tronco e membros , acostei no teto acima, subi para cima, eu invisível e me vi caído de frente para a janela, morto me achei, assustei-me com a cena , a luz do sol nublado, invadia a privacidade do escritório de quarto adaptado, naquele corpo inerte, ainda  vivo de doces e quente de vinho. Espantei-me em me ver morto, sem oração, queria uma canção, sem caixão, sem lápide nunca deste dia eu falei com alguém, com ninguém eu resmunguei segredos.

Esparramado no teto, um fantasma, olhava-me o fim, desvairado como quando jovem, olha o velho morto, sou eu, muito jovem da pesquisa!!!  Precisava de um médico para confirmar se o fato era consumado, queria saber a razão daquela desgraça, atestado de vida finda, esquecido de mim e de tudo a todos meu perdão.

Fiz-lhe afinal uma vontade e cantei-lhe com o mal da afinação, doença sem prescrição, uma canção, e ecoou bela e cortante aos sons do violino nas madeiras do teto acústico.

“ Quando eu estou aqui, eu sinto este momento lindo.....la ra la ra la ra... ra ... Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi...” (*)

 

Fim

ADomingos

28 de setembro de 2016

Exibições: 120

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*Sílvia Mota*

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Poema ao acaso...

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