Eu me aperreava ouvindo o barulho do relógio pendurado na parede. Tic-tac incessante a me  lembrar de que o tempo passava inexoravelmente. O que fazer? As paredes brancas do hospital, a enfermeira a me dar remédios, a espera da visita do médico. Por que me acontecera aquilo? Já haviam se passado dias desde que me trouxeram, me pegaram do chão, na rua, me enfiaram numa ambulância e eu vim sentindo dores no corpo todo. Minha mulher vem me ver todas as tardes, traz frutas e pães, tenta me consolar. O motorista do carro que me atropelou está pagando as despesas e até me visitou, com um pedido de desculpa que eu ouvi sem dizer nada. Meus ossos doem, meu corpo imóvel na cama, tenho pontos pelos braços que se cortaram. Fico tendo visões de um automóvel que vem ao meu encontro e me joga longe. Nada agradável ter tais visões.

       Os dias vão se passando. Fui operado e estou em recuperação.Não vejo a hora de estar em casa. O cheiro de desinfetantes, que eu sinto, não chega a me fazer mal. O meu chefe veio me ver:

       - Seu Amarildo, o senhor faz falta no escritório.

       Fico martelando os dedos no lençol, como quem quer datilografar alguma coisa. Sinto-me bem ao pensar que poderia ter morrido e não morri. Nâo sei a quem agradecer tal fato. Se a Deus, ou se a alguma circunstância ao redor do atropelamento. A enfermeira é bonita e jovem, é bom vê-la. Fico sabendo, por ela mesma, que ela é casada e tem um filho pequeno. Peço a minha mulher que traga um presente para o menino, filho da enfermeira. Ela agradece quando recebe o mimo, mas continua a me tratar como sempre tratou.

       Já estou melhor, mas posso dizer que vi a morte de perto. Fico muito tempo no quarto sozinho, e as visões do atropelamento não me abandonam. Meus colegas de trabalho também me visitaram. Um deles disse:

      - Amarildo, como é que você não prestou atenção ao sinal?

      Se referia ao sinal de trânsito. Eu não respondi. Eu mesmo não sabia como é que me deixei pegar pelo automóvel. O relógio pendurado na parede bate as horas, mas não me atormenta. Só me distrai em meio a esse silêncio hospitalar. Faço minhas necessidades fisiológicas na cama, usando uma branca cumadre de alumínio pintado. Já tomo os remédios sozinho, só preciso da enfermeira para fazer os curativos no corpo.  Está chegando o dia da alta. Ficarei em casa por um bom tempo.

     O médico veio me ver.

     - Você já está pronto prá outra - ele me diz, brincalhão.

     Eu sorrio e digo:

     - Nunca mais outra vez.

     E ele assina a alta. MInha mulher vem me acompanhar na sasída do hospital. Vou de cadeira de rodas pelos corredoress, entramos no elevador e ela me empurra até chegarmos ao ponto de táxis. Tomamos um e em pouco tempo estou em casa.

     Revejo minhas coisas.Minha mulher me pede:

     - Amarildo, deixa para mexer com essas coisa quando você estiver melhor.

     Aquiesço e deixo que ela me leve para o quarto. Ela me põe na nossa cama de casal e me serve a primeira refeição caseira que como depois que saí do hospital. Lembro-me do tempo em que era estudante e as palavras de Santo Agostinho  me vêm à mente ainda um pouco confusa. "Se me perguntarem o que é o tempo, eu não sei. Mas se não me perguntarem, eu sei". Era algo assim.

      Sinto falta de música e digo a minha mulher, que põe algo para tocar. Eu estar vivo... sorrio e acho que já falei isso, que podia ter morrido. O primeiro dia em casa me deixou uma sensação de conforto inexplicável. Olho para o relógio que minha mulher  colocou no criado-mudo à cabeceira da cama. Seu tic-tac é infinitamente mais baixo que o tic-tac do relógio do hospital, mas me satisfaz. Cultuo as horas como quem não tem outra coisas pra fazer. E de fato, não tenho outra coisa para fazer. Minha mulher contratou a enfermeira do hospital para vir me fazer os curativos necessários. Acabamos ficando amigos da mulher que um dia trouxe o marido e o filho para que nós os conhecêssemos. Gente jovem que eram os dois pais do menino e que passaram o dia conosco.

        Chega o dia de me levantar da cama. Ergo-me com cuidado, dou os primeiros passos pela casa, com minha mulher a meu lado. Pronto, em pouco tempo, já estou andando por toda a casa. Passa-se o tempo de repouso, vence a licença para tratamento médico e esi-me de volta ao escritório. Sento-me em frente ao computador e ponho-me a trabalhar. O chefe e os colegas se alegraram com a minha volta.

       Quando ando pelas ruas, agora, é diferente. Olho para cada esquina, para cada cruzamento, para qualquer faixa de pedestres com o máximo de cuidado. Os automóveis passasm velozes e eu os vejo com medo. Um medo que não tinha antes. Olho para os soldados da guarda de trânsito com quem olha  o seu anjo da guarda, atento a todos os movimento deles. Ficou um traquma, o trauma do atropelado.

       Um dia, de repente, ouvi:

       -Amarildo, me espera.

       Era um colega de trabalho que me trazia uns documentos que teria que providenciar para o dia seguinte. Quando parei ao ouví-lo me chamar, um automóvel passou de raspão por mim. Eu me senti tonto e voltei correndo para o passeio. Fiquei ali esperando que o colega me entregasse os papéis e, logo em seguida, caminhei lentamente para o ponto de ônibus. Com muito medo dos automóveis.

       Quando chego em casa todos os dias, me ponho diante de minha mulher e lhe digo:

       - Nunca mais outra vez.

       Ela me olha detidamente, e com um carinho desmesurado me beija a face. Eu vejo em seu olhar uma alegria renovada a cada vez que nos defrontamos. E, assim, vamos levando o resto dos dias que nos restam.

                                                                             MOEDA, 21/06/2016

        

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