Naquele dia acordei com vontade de ir ver o mar.

Desejo incomum, para um dia frio em que o sol mal iluminava os caminhos, como se estivesse escondido, resguardando-se, também ele, do frio que se fazia sentir.

 

Peguei nas chaves do carro, vesti um abafo suficientemente forte para me proteger da aragem gélida e saí.

 

Na entrada do prédio encontrei um velhote agarrado a uma bengala velha e olhei-o com insistência. Parecia-me familiar. Mergulhei nas memórias e não encontrei a identidade daquela pessoa no meu baú. Desisti e avancei para o carro.

 

Percorri breves sete quilómetros e o mar surgiu imponente, altivo, forte, vasto ante os meus olhos que o admiraram com uma emoção avassaladora que fiz por esconder de mim mesmo.

 

Estacionei.

Saí do carro, corri o fecho do blusão que vestira, mas a aragem, agora ainda mais fria, entrou-me pelos olhos dentro, pelas orelhas, pela cabeça desprotegida e fez-me vacilar. Apeteceu-me regressar ao interior da viatura. Lá estava quentinho, pois o ar-condicionado tinha amenizado o ambiente. Mas ao olhar uma vez mais o mar, avancei decidido, afrontando o frio e galgando com passadas largas o terreno à minha frente, até que o areal me acolheu e os meus pés se arrastaram silenciosamente até à orla da praia.

 

Ali chegado, abaixei-me e fiquei de cócoras a ver as ondas fluírem e refluírem, a ouvir o som cavernoso das águas marulhando na areia, a observar as gaivotas que iam e vinham em voos sincronizados, sobrevoando o espaço amplo.

Levei uma mão aberta à areia molhada e agarrei com força um punhado de grãos que lancei com força às águas em torvelinho.

Levantei o olhar e espreitei o sol ainda envergonhado por detrás das nuvens densas. Um raio furou uma nesga de nuvem e veio “espetar-se” nos meus olhos, cegando-os. Sacudi a cabeça, como se quisesse afastar a cegueira ocasional e ao abrir os olhos vi o inesperado: o velho da bengala que encontrei à saída da porta do meu prédio.

 

Incrédulo, esfreguei os olhos a tentar afastar a visão que me pareceu apenas miragem.

Reabri os olhos e o velho lá estava. Imóvel no seu corpo velho, amparado à sua bengala velha, sorrindo um sorriso sem cor, sem alma, sem dimensão.

 

Levantei-me e fiz para me dirigir ao velho. Dei um passo e o velho afastou-se um passo, recuando, sem dizer nada.

Tentei de novo e de novo a cena repetiu-se. Avancei e o velho recuou.

Parei então e quis perguntar-lhe quem era. As palavras foram ditas, mas o som das palavras não foi emitido. Ainda assim o velho sorriu, agora com um sorriso mais claro, mais vivo, mais humano. E respondeu à minha pergunta.

 

Fiquei boquiaberto, quando ouvi o que me disse. Não podia acreditar no que acabara de ouvir. Como era possível que aquele velho fosse quem dizia ser?

 

Insisti na pergunta e contrapus a veracidade da informação recebida.

 

O velho sentou-se na areia e pediu que me sentasse também. Anuí e fiquei a observar o modo como aquele homem de barba crescida de alguns dias, de olhos encovados, de nariz rubicundo, de roupa suja e de sapatos usados em demasia se colocava perante o mar. As suas mãos apresentavam sinais claros e evidentes de muito sofrimento. Eram mãos envelhecidas, enrugadas, marcadas pelo trabalho. Calejadas pelos anos e pela vida.

 

O seu silêncio manteve-se, mas no meu ser senti que cresceu, como se fosse possível que ao silêncio absoluto se acrescentasse ainda mais e mais silêncio. A paz que sentia ao seu lado era indizível, inexplicável, incomensurável.

Olhei-o, encarei-o, quis vê-lo, observá-lo, penetrar nele a minha capacidade de discernir, de entender, de perceber, de acreditar.

O seu sorriso era agora catártico, imenso, intenso, profundo. Numa palavra: belo!

Tudo nele parecia renovar-se, redefinir-se, renascer. A sua velhice já não era vetustez, cansaço, sofrimento, morbilidade. Era luz, era fulgor, era vida. Era paz!

 

Ao mesmo tempo fixámos no outro os nossos olhares. A magia parecia acontecer na orla daquela praia. Contagiado pela serenidade que me envolvia, voltei à carga. Quem era ele?

 

Do mesmo jeito calmo, pacífico, encantador, a sua voz invadiu os meus tímpanos, penetrou no meu coração, incendiou a minha alma, fez-se labareda viva em todo o meu ser.

 

A dúvida desvanecia-se. A credulidade tomava, vagarosa, mas firmemente, conta de mim e aquelas palavras que eu ouvia sem ouvir – porque eram proferidas, mas não soavam – pareciam jorrar duma fonte de verdade que eu nunca antes conhecera e, mesmo agora, não podia dizer que existia.

 

Como se visse em mim alguma réstia de dúvida ou desconfiança, o velho despiu os seus andrajos de mendigo ou sem-abrigo, descalçou os sapatos e mostrou-me as marcas que me haveriam de fazer acreditar.

 

Arregalei os olhos, senti um calafrio avassalador, o meu corpo foi percorrido por um fogo inexplicável, que não apagava o frio que sentia, as minhas mãos tremiam, o meu coração disparou, a minha boca deixou escapar um desabafo de incredulidade total, absoluta, extraordinária. Por fim levantei-me, avancei para ele e abracei-o com força, estreitando-o com alegria e gratidão sem medida.

 

Ele permaneceu imóvel, envolvendo-me apenas com o seu abraço de velho cheio de uma paz que não tem tradução por palavras.

 

Quis falar, mas ele olhou-me e percebi que devia permanecer em silêncio.

Tomou-me pela mão e virá-mo-nos ambos para o mar, que acalmara. No céu as gaivotas como que faziam um circulo sobre as nossas cabeças, rodopiando suavemente. O vento, antes gélido, tornara-se ameno, suave. Havia um perfume de rosas e lavanda no ar. O sol finalmente rasgara as nuvens e o seu calor descera até nós.

 

O extenso areal não tinha vivalma. Só eu e aquele velho especial e único.

 

Tomado pela alegria de ali estar e de estar com aquele homem que sabia conhecer, quis falar. E disse:

- Obrigado por ter vindo ao meu encontro! Não merecia tal bênção!

 

Sorrindo ainda, o velho pousou sobre a minha cabeça a sua mão direita, como que abençoando-me, e disse em voz clara, que ecoou na praia vazia, ante o mar calmo, a roda de gaivotas dançantes, a aragem doce e o sol agora quente:

- Os milagres existem e acontecem!

 

E saiu em direcção ao mar, sobre cujas águas caminhou até se perder na lonjura do horizonte.

 

Estendi-me na areia em completo êxtase, fixando o firmamento. Pacificado e feliz. Abençoado.

O perfume mantinha-se intenso. A luz aquecia-me o corpo e a alma. As gaivotas haviam dispersado. O mar mantinha-se em sossego, com ondas que vinham de manso beijar a areia.

 

Levantei-me e, sem medo ou temor do frio, mergulhei na água, tal como estava.

E uma voz soou por sobre as ondas aquietadas:

 

- Eu sou o Menino Jesus do Natal que celebrais!

 

Voltei para o carro e quando liguei o motor aquela voz continuava vibrante a dizer-me quem era.

Sim, era ele. Eu vi os sinais da sua cruz nos pés, nas mãos e no seu lado.

Paulo César

09.Dez.2016

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Boa noite, amigo Paulo César, milagres existem e passamos por eles todos os dias. Quando estamos predispostos a enxergá-los eles desenham-se diante dos nossos olhos. Quando vemos com a alma e o coração o nosso entorno, belezas rasgam o véu de nossa incredulidade e tudo acontece. Belíssima obra. Tocou-me profundamente a alma.Deus sempre em nós. Abraços carinhosos.

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