Ele revirou-se na cama, estava inquieto e sem sono. Uma certa luz vinha de fora e penetrava o quarto pela janela. Era a luz de uma lâmpada que pendia do poste que havia diante da casa. Ele estava só. Sua mulher acabara por abandoná-lo. Ele, ao menos pelo que ele próprio sabia, não tinha dado motivos. Durante o dia, telefonara ao velho tio que era padre par que viesse até ele. O velho padre veio e tentou consolá-lo, dizendo-lhe que a mulher pecara. Agora chegava a noite e a solidão invadia-lhe a casa e o coração. No domingo, fora à missa e ouvira o sermão do tio condenando as adúlteras. Ele mesmo não sabia ao certo se havia outro na vida de sua mulher. A noite avançava e ele não conseguia dormir, se lembrando dessas coisas recém-vividas. Então ergueu-se da cama e procurou um retrato da mulher. Achou-o e mirou-o. Ela era bela e ele se sentia sem vontade de condená-la. Se ao amanhecer, ela voltasse, ele a perdoaria, pelo menos agora era o que pensava. Mas amanheceu e ela não voltou. Os dias iam se passando e, aos poucos, ele ia se acostumando a viver só. Viveram juntos, ele e a mulher, durante belos e harmoniosos cinco anos. Não tiveram filhos. E, sem mais , nem menos, ela partiu. Ele refletiu um pouco: será que tinha conhecido e compreendido mesmo a mulher? Restaram-lhe dúvidas, agora, sobre isso. Lembrou-se de quando a conhecera. Eram ambos muito  jovens quando começaram a namorar. Certa vez ele perguntou a ela:

        - Você viveria uma vida comigo?

        - Sempre - ela lhe respondera.

        Conseguia se lembra disso, o que gturvava o seu pensamento agora. Como ela tinha sido capaz? Ele andava pelas ruas da cidade e era como se a visse quando via outras mulheres. Não tinha vontade de ter outra mulher. Seu tio padre vinha visitá-lo vez em quanto:

       - Como vai o meu sobrinho?

       - Muito bem, já me acostumei a viver sem ela.

       Ele e o velho padre encontravam-se com frequência. O tio o ajudava a enfrentar a solidão em que vivia agora. Um certo dia ele se pegou diante de uma fotografia em que apreciam ele e ela juntos. E se perguntou:

      - O que eu faria agora se ela voltasse?

      Não encontrou resposta para si mesmo. E deixou que seu pensamento vagasse sobre mil outras coisas. Entre essas coisas encontrou lugar para pensar sobre o amor. Afinal, o que era o amor? Para ele durara muito pouco tempo. De modo que ele não se julgava capaz de definir o amor. Então pôs-se a ler os evangelhos cristãos. Havia coia maior que o amor ao próximo? Não, ele se respondia, não havia. Amar o próximo como a si mesmo era o que havia de coisa maior na vida. Resolveu-se, pegou muitas moedas e foi para as ruas. Distribuiu as moedas entre os pobres que encontrou e se sentiu melhor do que vinha se sentindo nos últimos tempos. Já não pensava tanto nela e nem fazia recriminações desnecessárias e inúteis sobre o acontecimento. De nada adiantaria. Ia vivendo assim, quando uma manhã bateram-lhe à porta. Ele atendeu e se surpreendeu. Era ela, que voltava e que entrou pela casas antes mesmo que ele pudesse impedi-la se o tivesse desejado. Já se havia passado bastante tempo desde que ela se fora. Ele a reconheceu e fechou a porta atrás de si, ficando os dois um diante do outro.

       - Por que voltou? - ele perguntou.

       - Não sei o que fiz - ela disse.

       - Nesta casa não mais lugar para você - ele se viu surpreso ao dizer-lhe isso. E abriu a porta:

       - Saia - ordenou.

       Ela o olhou. Nos seus olhos estava marcada a luz um tanto mais apagada da que ele um dia conhecera. Ele manteve a porta aberta e só voltou a fechá-la depois que ela saiu. Então ele chorou como uma criança, pois, no fundo teria desejado retê-la. Mas feito, estava feito. Foi quando o telefone tocou. Era o tio padre:

       - Creio que você não importa de eu recebê-la - lhe perguntou o religioso. Ele se recuperou do que sentira momentos antes quando a fizera sair e disse ao tio:

       - O senhor pode compreendê-la, eu não.

       Despediram-se e ele chamou o seu advogado. Pediu-lhe que providenciasse o divórcio. O velho tio veio vê-lo:

       - Mandei-a para a casas dos pais dela.

       Ele só voltou a vê-la quando foram ao fórum assinar a separação. Voltou para casa e o sentimento de tristeza o dominou.. Lembranças lhe vieram à mente. Viu-se no dia em que começaram a namorar. Ela lhe prometera neste dia uma fidelidade eterna. Eles caminhavam abraçados pelas ruas e as horas pareciam não ter fim. O primeiro beijo foi trocado na varanda da casa e ele ficou feliz com isso. Mas, esses tempos já não existiam, tinham se transformado em passado. E o hoje não contém o passado, a não ser em forma de memória quando evocada. E, embora a memória não possa ser apagada, não precisa ser reinvindicada a todo o momento. E ela agora pertencia ao limbo do tempo que só restava na memória. E ele descobriu que os dias de hoje eram os que os preparavam o seu futuro. E do seu futuro ela não fazia parte. Despediu-se do passado e recomeçou a sua própria história.

                                                             MOEDA, 16/06/2016

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