Um amor de Primavera
Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz

- “Rio de Janeiro é uma bela cidade”, pensou o estudante de Medicina nascido em Goiânia, que gostava de andar de calça jeans alargada na cintura, o que lhe permitia mostrar uma nesga das cuecas, quase sempre negras. Camiseta curta ajustada ao tronco sugeria o corpo corretamente definido. Dessa forma, provocava os olhares curiosos e excitados das jovens em flor, em particular as colegas da universidade. Nem feio, nem bonito, valia-se da inteligência e dons corporais e musicais, para atraí-las. Namorava uma jovem mais velha, mais experiente, que o mantinha às rédeas curtas, preso indiscutivelmente aos prazeres da carne.

Como num conto de fadas, a princesa surgiu-lhe à frente, belíssima, numa morenice de sol e calor estampado no olhar. Um olhar que, ao ensejo de expor malícia, transmitia pudor. Direção oposta, o anjo fazia-se acompanhar da irmã, uma das colegas de turma. Aproveitou a ocasião e cumprimentou-as. A Bela e a Fera foram apresentadas. Formaríamos um casal loucamente romântico e apaixonado, pensou depressa o aprendiz de Dom Juan. Trocaram alguns sorrisos e cada qual foi para o seu lado. “Uma parte de mim acompanhou-a”, murmurou baixinho, pensamento excitado.

Muitos encontros ocorreram rápidos. Olhares sibilaram. Mas, naquela noite de primavera, rolaria um baile especial. Apanhou o celular. Convite realizado, finalizou: - “Leva tua irmã. O pessoal gostará de conhecê-la.” Tudo acertado, sorriu malicioso.

Durante o show dançaram por várias vezes. Quase não permitiu que os demais se achegassem à sua Cinderela, que também demonstrava não cobiçar outros braços.

Ah! O amor! O amor! Noite de primavera!

A irmã de Bela despedira-se há tempos e, dizendo-se cansada, entregara a jovem aos cuidados da Fera. Era a oportunidade desejada. Não cometeria erro algum, claro que não. Se o fizesse, mereceria a forca. Respirou fundo, para acalmar os desejos urgentes.

Permaneceram na festa até o final. À saída caminharam de mãos dadas, abriu-lhe a porta do carro, não sem antes apanhar no jardim um bouquet de violetas para enfeitar-lhe os cabelos longos cacheados e brilhantes, que esvoaçaram levemente à brisa da madrugada. À luz dos astros celestiais os contornos daquele corpo escultural evidenciavam-se mais sob o vestido justo e curto, azul como os olhos cristalinos. Linda!

Levou-a para casa. Despediu-se e beijou-lhe o rosto suavemente, a murmurar: - “O luar escurecerá quando desapareceres atrás daquela porta.” Ao impacto das palavras, não lhe ofereceu tempo para refazer-se: - “E eu não mais serei o mesmo homem sem o brilho do teu olhar.” A jovem abaixou os olhos encabulada. Silêncio. Foi então, que o mesmo olhar tímido levantou-se atrevido, a provocar a língua rosada de encontro aos lábios. Foi o que bastou. Beijaram-se por muito tempo. Ambos molhados de suor, ao vê-la exaurida nos seus braços, ligou o carro e fez abrupto retorno. Mãos unidas e trementes, nada disseram. O carro parou. Planejara tudo. Carregou-a no colo até a casa toda branca, florida e perfumada. Com os pés, empurrou a porta da entrada entreaberta. Levou-a diretamente para o quarto. Pétalas de rosas vermelhas pelo chão. Incenso afrodisíaco pelo ar. Música suave. Uma cama perfeita. Para a jovem, somente houve tempo de anunciar: - “Sou virgem.”

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