FÁBULA: 

O VELHO CUSCO E A ONÇA-PINTADA

Um velho xiru, angurreado de quimeras, mui saudoso das andejadas mateiras, atinou azular pruma caçada de bicho bagual, pegou de seus avios de caça e gauderiou rumo à mata fechada pareado com seu velho cusco vira-lata.
 
O cusco, que os pândegos achavam  que já estava de ansim meio ronceiro, deu de correr atrás de borboletas pensando talvez serem paturis,  de arranco deu-se conta de que estava era alonjado.

Teatino a esmo, procurando o pé do rastro , o velho cusco percebe que um jovem  macho de onça  pintada o tem na mosca e vem aviventando o passo mal intencionado com afinco de fazer do cusco  um bom refestelo!

O cusco velho sem causar bulha pega a cismar: - Mas bah! Barbaridade! Estou mesmo contraponteado!

Mas, corajudo e coruscado, olhou ao derredor; e de relancina por alhures viu ossos pinchados no chão  e nas macegas até canhadão abaixo.

 

Ao invés de atarantar-se, o velho cusco se enrodilha pareado ao osso mais achegado, e “a todo o trapo” se afinca a roer a carcaça, dando a cola  ao felino de mio arroucado.
Quando o macho pintado ia lançar a rodilha do bote, o cusco velho alardeia bem a canta galo:

-
Mas bah tchê! Esta onça pintada estava mesmo a gosto ! Será que hay outras por aí alhures?



Ouvindo isso, o jovem macho de onça enquizilou-se com um arrepio de terror, releva seu
bote já meneando a começo, e enredou o rastro esgueirando-se na direção da mata cerrada.

- A la pucha cuê! Pensa a onça: - essa foi por um fio, se o cusco me pega me estraga! O cusco velho por uma cerda de crina quase me carnea!

Um bugio, empoleirado numa árvore lindeira viu toda a presepada, e logo caraminhola como gauderiar um lucro topetudo sobre o que vira: em troca de ficar com as costas quentes com a onça, informaria ao felino - predador que o vira-lata chiripento não havia carneado onça alguma...

E dizendo - Chô-mico, num arranco, sai com “um quente e dois fervendo” na cola da onça. Mas o velho cusco enxerga tudo... e cisma: - Aí tem coisa!


O símio logo alcança o felino, faz um bochicho nas orelhas deste, do que lhe interessa e faz um acordo com o felino macho pintado.

O jovem felino fica fulo de raiva por ter sido feito de João- bobo, e diz:
- Aí, assim é que se faz macaco! Se enforquilhe em minhas costas para você ver o que acontece com aquele  - cusco chimbo, vira-lata e abusado!

 

Agora, o Cusco Velho divisa uma onça furiosa, tirante a carniceira em sua direção enveredada, com seu bugio pelego nas  costas, e pensa: - E agora, o que se me dá pelear ?

Mas, em vez de abandonar a rinha (sabe que suas pernas perrengues não o levariam mui adelante...) o Cusco Velho senta mais uma vez, dando costas ao agressor e seu esbirro, e fazendo à moda de que ainda não dera reparo, que ainda não os negaceara... e quando estavam bem  ao alcance de ouvi-lo, o Velho Cusco  diz: - Cadê o safado daquele bugio, será que o danado pescoceou? Estou com  aquela fome  de comer tatu com casco, e ouriço sem tirar o espinho. Minha fome é Fome! Eu o mandei buscar outra onça pra mim, bem na sua conhecida malandragem!  E cadê ela - "seu" desinfeliz...?

 

A onça não esperou  mais nada, derrubou sua carga, dizendo tu me hay de pagar bugio - é só esperar... E vira tão rápido deixando até suas pintas para trás rumo à mata fechada.

Moral da história:

Não te metas com Cusco Velho, idade e habilidade,

só o tal de Tempo se sobrepõem à maldade

das seguidas traições,

livrando-te de arapucas, de intrigas e embaraços,

de geração a gerações.

Repassando a contra-canto como ciência:

Sabedoria só vem com o Tempo e a Experiência.

 

 

N:- É claro tchê que eu não estou de modo

algum insinuando que você esteja velho(a).

Apenas um tantinho assim mais experiente.
Ou você não percebeu o tamanho da letra que tristonho

escolhi para esta nota? rsrs

 

_________________________________________

Vocabulário regionalista

Contrapontear - atrapalhado, enrolado

Cusco - cão; cachorro.

Angurriado - aborrecido; agoniado; tristonho.

Ronceiro - lerdo

Enforquilhar - montar no cavalo. Enforquilhe - monte

Arranco - saída rápida; disparada.

Enquizilar o mesmo que enquizilhar (se) - entre aborrecimento e raiva [no caso deste texto usou-se a forma reflexiva ]

Aviventar o passo - acelerar a marcha.

A todo o trapo - à toda; à brida; à disparada; a toda pressa [Fil. reg. origem expr. "a todo o pano"  ou ainda  inflar as velas (do barco) da própria língua lusófona-mãe.

Chiripento - quem ganha no jogo [mais em especial o de cartas] por puro acaso.

Alonjado - perdido; desgarrado; mui  (muito) longe.

Chimbo - vagal, vagabundo, vadio, coisa à toa

Exibições: 135

Respostas a este tópico

Bah guri...

é trilegal "ouvir" o falar gauchesco...

Traz lembranças para este indio velho...

Aquele aperto de mãos quebra dedos...

Marcial

Mauro Martins Santos 

Mauro, sem palavras, mais que tri, eu tava aqui meia abichonada, enroscada no poncho (o frio tá de renguear cusco),  depois de ler tua prosa,  oigalê!!! Eu já fiquei buenacha, já risquei da cama e fui prepará o mate, ehehehehe... Muito grata, e o texto é mais que tri, sempre muito tri, grande beijo, MIL.

RSS

Membros

Poema ao acaso...

Pensamento do dia

Portal para 38 Blogs-Sílvia Mota

Badge

Carregando...