Lorenzo seguia com a cabeça baixa, contava distraidamente as pedras da calçada, como se fosse algo de extrema importância   para manter sua sanidade mental. Assim parecendo que estava no mundo da lua, não notou que um cachorro vinha disparado em sua direção arrastando a guia - Devido a velocidade ela dançava no ar. Quando finalmente o cérebro de Lorenzo começou a decodificar a mensagem do instinto de proteção, já era tarde demais.

O cachorro passou rente as suas pernas e a guia se enroscou numa delas,antes que tivesse tino de achar em seu campo de visão algo com que se segurasse, se viu caindo em câmera lenta em plena rua.

Foi tão inusitado e ridículo a situação que ficou ali na calçada, olhando as nuvens vagarosas. Disfarçando a risada da cena, as pessoas passavam apressadas como que fingindo que aquela pessoa estatelada na calçada fosse invisível. O Cachorro depois de tentar várias vezes se soltar, entendeu que era mais inteligente ficar quieto. Cansado e expectante, deitou, descansando a cabecinha no peito de Lorenzo.

O rapaz ainda zonzo, não sabia bem porque mas, do nada ouviu a voz da sua mãe, o chamando carinhosa para sair do sereno e se agasalhar dentro de casa, onde ao piano sempre naquele horário ela o esperava com um pratinho de rosquinhas de baunilha e uma caneca de chocolate quente.

Sentia saudades dela... Da sua mãe, sua melhor amiga, que lhe ensinou as primeiras notas da melodia eternizada dentro de si. Todo o dia ela ao voltar do trabalho, faltando cinco minutos para o poente, tocava do re mi fá três vezes. Dessa forma onde quer que estivesse no perímetro de casa , ao ouvir sabia que ela estava chamando para a hora mágica da poesia que sem palavras cantava através dos dedos dela.

-  Mãe quem ensinou ele cantar assim?

- Ele quem filho?

- O Sr. Piano!

Com um sorriso na voz doce ela calmamente respondeu:

- Bem...  Reza a lenda que Guanza era um dos mais lindos e fortes guerreiros da sua tribo, era alto, com longos e fartos cabelos que livres e brilhantes caiam em cascatas por suas costas, tinha uns olhos de sonhador porem determinados, aguçados, mas o que mais chamava admiração em seu povo era além da sua extrema inteligência,Guanza tinha uma voz que hipnotizava assim afirmava quem  o ouvia detalhando que  tanto quando falava , como quando cantava contos e poesias das suas aventuras na montanha dos lêmures exilados.

Um certo dia tudo parecia muito calmo... Todos na aldeia faziam suas tarefas, aguardando o grupo de guerreiros que saíram na liderança de Guanza em busca da flor sagrada, para com suas pétalas e espinhos salvar a vida de uma garota que estava muito doente e corria o risco de morrer.

O sol se deitou no horizonte... Nasceu o outro dia e novamente veio a despedida do sol e isso aconteceu cinco vezes, o povo começava a murmurar já aflito pela demora anormal.

Já perto do nascimento da primeira estrela, as pessoas ansiosas foram  ouvindo um lamento alto e longo, que ecoou por todo o prado. 

Uma chuva muito fina começou a cair mas era diferente das chuvas normais, chovia gotas de estrelas e notas musicais, muito pequeninas e onde quer que tocassem cantavam em variados tons e cores, como uma espécie de música liquida.

- Como o som das lágrimas mãe?

A mãe surpresa olhou o filho enternecida, calada o abraçou longamente, esquecida do conto e consciente que tinha o privilégio de ver crescer perto de si um fazedor de magias. Sim o seu Lorenzo  tinha  uma alma mágica, até seu respirar era pura poesia.

O menino sentindo a ternura da mãe se manteve quieto... Como que absorvendo o perfume de um som que só era audível para corações na mesma sintonia.

...

Passando um tempo indeterminado Lorenzo já de volta a calçada e a presença do cachorro estabanado, ouviu uma voz insistente, sentindo uma leve mão o tocando.

Piscando os olhos, focou a visão e quando a viu... Foi apanhado de espanto! Mais que a velocidade da luz, ele sentiu uma estrela implodir dentro de si.

Em questão de segundos compreendeu que aquela moça desconhecida... Seria para sempre o  amor da sua vida.

Esquecido da lenda e da mãe, sorriu tolamente, embevecido. Nem reparou quem em algum lugar do tempo o paralelo das horas congelou.

Mas nem precisava afinal:

  A eternidade é o melhor lugar para se estacionar quando traz dentro de si a felicidade.

Ronilda David

 

Créditos das imagens captadas: Buscador Google

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Respostas a este tópico

Que delícia, de leitura!

O toque delicado de tuas palavras envolvem e aguçam, a curiosidade do leitor.

De uma fantástica criatividade, habilitas um enredo repleto de magia e beleza.

Muitos BRAVOSSSSSS.

Parabéns, minha querida.

Bjssss.

Agradeço suas palavras incentivadoras Moniquinha, me senti surpresa, já tinha me esquecido desse texto, rs!

Um abraço, tenha uma noite bem bonita.

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