O FUNCIONAMENTO DISCURSIVO DA IRONIA
EM GALVEZ, IMPERADOR DO ACRE

Brenda Maris Scur Silva



O capitulo acima é o de número seis do Livro A Leitura e a Escrita como práticas Discursivas organizado por Aracy Ernst-Pereira, Suzana Bornéo Funck. Pelotas:Educat,2001.
O tema do texto é o estudo da Ironia como marca lingüística no livro Galvez, Imperador do Acre de Márcio de Souza.
A autora define a estrutura do livro como estratégia narrativa dividida em 04 capítulos divididos por épocas ou seja:
Capítulo 1 – Novembro de 1987 a Novembro de 1898:
Capítulo 2 -Em pleno Amazonas
Capítulo 3 - Manaus, Março/junho 1899;
Capítulo 4 – O Império do Acre – Julho/Dezembro de 1889.
Cada bloco também está subdividido em capítulos e inúmeros documentos oficiais como atas, decretos, ofícios, ordens de serviço, despachos, portarias, documentos diplomáticos além de outros de outra natureza como diálogos, bilhetes, agendas, máximas, descrições científicas da flora local além de outros.
O livro de Souza foi citado por Beth Brait, em Ironia em Perspectiva Polifônica (1996) junto de outros livros importantes como Memórias de um Sargento de Milícias, Memórias Póstumas de Brás Cubas entre outros como inserido em definitivo numa prosa literária de ruptura, através do humor, concebido como processo de desmascaramento da história oficial e crítica, a partir de um procedimento interdiscursivo irônico exemplar.
O livro constitui-se como um olhar diferenciado sobre o mundo criado pelo Ciclo da Borracha.
Vamos destacar as considerações da autora do capítulo em análise, sobre a ironia:
_ a ironia está a serviço da resistência e da transgressão;
_é um traço de linguagem revelador de uma posição de sujeito determinada;
_ao comentar a epígrafe usada por Márcio de Souza no início de cada capítulo, o autor recorre a elementos elaborados em outra época, em outro contexto social, econômico e cultural, que intervém de forma não escancarada, criando um efeito de transgressão.
A utilização de textos do Barroco espanhol, ao iniciar os capítulos, indica também o caráter transgressor, porque o Barroco é assim entendido em relação à estética clássica.
A citação na epígrafe de autor com o perfil de Cervantes (satírico, mordaz, crítico, implacável) indica os caminhos temáticos-expressão verbal de juízo axiológico-predominantes na obra, ao mesmo tempo que endossa os críticos que a inspiram.
Os autores considerados autoridades como Cervantes, Calderón de la Barca e Lope de Veja, cujo discurso é retomado em Galvez, apresentam a ironia como procedimento discursivo marcante, dirigido a um destinatário.
O autor Márcio Souza reflete no relato de coisas do passado o presente caótico da realidade brasileira e latino-americana, através de uma prosa impregnada de humor e de sutilezas literárias, que se inscrevem num vasto espaço intra e interdiscursivo, no qual falam de diversas vozes cuja dimensão e finalidade é causa e efeitos de sentido, subordinados a um programa eleitoral.
Nos capítulos 1 e 2 a autora conseguiu mostrar a aproximação de Galvez, herói do livro, ao herói de Calderón de La barca citado na epígrafe, com os heróis Cervantinos (homem dividido entre o sonho e a realidade, a luta pelo poder, a caricatura da vida humana e o risível desta aventura).
O sentido não existe em si mesmo (Pêcheux: 1975). Ele sofre um processo de conformação e determinação segundo as posições ideológicas que estão em jogo nas situações sócio-históricas que as palavras são produzidas e interpretadas. (Pêcheux: 1975)
As epígrafes constituem-se na materialidade lingüística que ativam as redes de memória e são uma forma de convocação do já-dito.
Neste trecho relaciona e analisa trechos do império de Sancho Pança, Segismundo e Galvez (anti-heróis) justificando plenamente a ironia contida nas entrelinhas. Mostra, ainda, a ironia na coincidência de datas, como a queda do Império de “Puerto Alonso” coincidindo com a Queda da Bastilha, na França. Coincidem o fato histórico sério com o fato gerado da ficção considerado uma aventura, no que a autora observa marcas relacionadas impossíveis de serem negligenciadas.
Considerando que o texto de Galvez foi escrito em tempos de ditadura militar, analisar o jogo das formas de identidade através do que é dito, o não dito surge e a relação se estabelece claramente, mostrando-se, então, o texto em questão, como um espaço de resistência e transgressão ao regime ditatorial através da crítica irônica.
Nessa atribuição de sentidos estabelece outro vínculo, como do Império de Galvez com o carnaval, que remete ao humor, a franqueza cínica, o desmascaramento profanador do sagrado e a veemente violação das regras do discurso dito sério.
Estabelecendo ligações entre a obra de Márcio Souza com Lope de Vega a Professora Brenda aponta as marcas da ironia, da transgressão, da inovação, pois o segundo embora acatasse as leis e teorias até então vigentes no século XVII, proclamava o direito de inovar, a mesclar o cômico e o dramático, antecipando-se ao romantismo.
Ao se reportar a Lope de Veja, que defendia o Barroco em cuja literatura o homem aparecia em sua dimensão trágica e cômica o autor traz ao seu texto o duplo sentido, instaura a incerteza, remete para o indefinido das interpretações, e ao fato de que todo enunciado pode se destacar discursivamente de seu sentido para derivar para outro.
Como o processo de produção de sentidos é subjetivo, a intertextualidade, o diálogo interdiscursivo com o século XVII se dá através de estratégias dialógicas calcadas na ironia que desestabilizam os costumes, os elementos literários, social e historicamente sedimentados, que se valem do humor como forma de subversão e desmascaramento, configurando a ironia como um jogo de luz e sombra a serviço da resistência e transgressão.
Ao longo de todo o trabalho de análise a professora segue mostrando através das epígrafes, as correlações existentes, embasada em Orlandi, Pêcheux. Ao dialogar com o passado, com o contexto social, econômico, cultural, político e ideológico o autor reinterpreta através da crítica e da ironia a conquista do Acre.
O recurso de evocar os eventos do passado funciona como forma de atualização desses eventos históricos, recuperados esteticamente, e, de forma indireta, como crítica do momento vivido pelo autor na época da escritura, ou seja, a ditadura instaurada na década de 60 e 70 no Brasil.
GALVEZ segundo a professora Brenda analisa é um texto polissêmico o que importará tantas interpretações quantos analistas estiverem dispostos a participar do espaço lúdico aberto pelo discurso literário; assim como o mesmo analista poderia, em diferentes épocas, interagir diferentemente com um texto “bólido de sentimentos”, como é o caso da obra de Márcio Souza.
A polissemia é caracterizada pela alternância de do narrador (N2), que é um discurso coloquial, com os discursos pertencentes ao mundo das ciências, como por exemplo, o discurso da história.
A autora do artigo conclui que a frase colocada no início de GALVEZ, afirma exatamente o que nega. A obra montada a partir do romance folhetim se confirma como mais irônica impossível.
A literatura cumpre assim seu papel: instrumento de descoberta, avaliação e conscientização de uma dada realidade, de uma dada época, enquanto o homem, defrontado com esse mundo de significados, interpreta.


CONCLUSÕES PESSOAIS

Creio que ao fazer as conclusões deste artigo sobre análise do discurso (não me atrevo a falar em crítica) devo dizer que embora tenha de falar sobre as questões relacionadas aos seus pressupostos não poderia deixar de falar nas questões pessoais que eu creio tenha interferido desde a escolha do texto, até o desejo que foi despertado de ler o livro de Márcio Souza.
Conheci Brenda, fui sua aluna em uma oficina de narrativa no Instituto João Simões Lopes Neto e sem dúvida uma de suas características pessoais que mais me chamou a atenção foi justamente a ironia, a qual se juntavam a perspicácia, o humor, a inteligência, a facilidade de comunicação.
Ensinava, dialogava com os alunos e com as mais variadas correntes literárias de uma forma tão interligada que era necessário muita atenção para acompanhá-la nos inúmeros “links” (assim ela dizia) que fazia para esclarecer, reforçar, aquilo que ela tão bem conhecia.
Não poderia ter discorrido sobre outro assunto senão a ironia e de uma forma leve, irônica, (como ela própria) mostrando que a ironia é uma representação, uma marca através da qual muitas leituras são possíveis.
Bakhtin (1998) em Questões de Literatura e Estética diz que não há um só tipo de discurso direto que não tenha sua contrapartida cômico-irônica.
As epígrafes tão utilizadas e cuja finalidade foi exaustivamente mostrada pela analista, expõem a marca lingüística que a mesma se propôs a mostrar, mas oportunizam várias interpretações de acordo com cada analista.
Bakhtin diz “não se sabe se o autor faz uma citação respeitosa ou, ao contrário, cita com ironia e escárnio”, a propósito da paródia. O mesmo serve para a ironia. A ambigüidade para com o discurso de outrem é freqüentemente proposital.
Como em AD não se trabalha com o texto na íntegra, os recortes feitos pela analista dão conta ou evidenciam a marca que a autora se propôs a mostrar que está presente no texto de Márcio Souza, ou seja, a ironia.

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