LEITURA, SILÊNCIO E MEMÓRIA. 
Leituras Urbanas e práticas de Exclusão
Mônica G. Zoppi-Fontana (Unicamp)


A proposta de trabalho é pensar a prática das leituras a partir da sedução de um texto traiçoeiro, de leitores, escritas, silêncios e exclusões.


TEXTO

A FERIDA
PAINEL RODOVIÁRIO RECOMENDA:
Sr. Usuário, colabore com a segurança. Não dê esmolas, faça suas doações a instituições de caridade.
IMPORTANTE!
Cuidado com estranhos quanto a danos físicos, financeiros e morais.
Se abordado, peça ajuda a seguranças.
SR. PASSAGEIRO
Utilize táxis credenciados, evite serviços estranhos ao terminal.
PAINEL DA RODOVIÁRIA
Em contato direto com o consumidor.
ATENÇÃO!
Colabore com a segurança, não comercialize com ambulantes.
Colabore com a limpeza do terminal.
(Terminal rodoviário de São Paulo, Tietê. Painel eletrônico situado no hall central de espera, abril de 1997-mensagens na seqüência.
Nos espaçamentos, textos publicitários)


A autora desenvolve o trabalho refletindo sobre a prática de leitura a partir do texto acima, ao qual ela se refere como sedutor pela maestria de como foi articulado: seqüência, turgescência (aumento de volume) linearidade.
Analisa o texto impondo uma reflexão sobre a leitura como uma prática discursiva o que induz, naturalmente, a seu processo de produção.
Analisa a produção de sentidos, relacionando as condições sócio-históricas de produção(memória discursiva)
Ao longo do trabalho ela vai se reportando aos pressupostos teóricos da análise do discurso citando conceitos de autores como Pêcheux, Foucault,Orlandi,Authier-Revuz e outros.
Analisa a materialidade do texto e do acontecimento de ler:
-sobre o acontecimento de ler, ressalta:
-Painel eletrônico
-Terminal rodoviário
-Textos publicitários intercalados com textos considerados de utilidade pública.
Resultado disto:
A leitura perde o caráter de permanência;
É fugidia;
A produção de leitura é on line,seqüencial,não permite recuos ou retorno.
Enfatiza que o texto escrito e o processo de leitura são afetados.
Reporta-se a Pêcheux que define gestos como atos no nível do simbólico que intervêm no mundo produzindo efeitos de (des)(re) organização.
Sobre o funcionamento do painel, destaca
- rolar do texto em seqüências que se sucedem,substituindo umas às outras na tela do painel, impõe uma segmentação do texto escrito que funciona no processo de leitura como categorização/ hierarquização dos sentidos produzidos. – Leitura volátil(linear,unidirecional e perecível) Leitura descartável, distraída, descontraída, sem retorno.


Nesta parte cita Orlandi,Gallo, e Foucault.
Foucault refletindo sobre a dispersão dos enunciados no discurso, sobre a aparição e circulação, descreve o funcionamento de diversos mecanismos institucionais e disciplinares que controlam a produção dos enunciados, limitando suas possibilidades de significação.


Na página 54 a autora descreve a situação painel/leitura/leitor de forma muito clara:
O leitor sendo atravessado pela sucessão de mensagens escritas em luzes que piscam, que crescem nas maiúsculas, permanecem nas imagens , se opõem nas cores, e finalmente se apagam, para começar uma nova seqüência, sempre nova para o passageiro que passa,que como o texto, não pára,não permanece, para ver a seqüência se repetir circularmente a intervalos de meia hora, uma hora, uma eternidade para o tempo agitado do terminal ( leitura terminal?)
Reflexão da autora: relação circunstancial: leitor capturado por uma escrita fugaz?
Escrita volátil, esvaecente leitura descartável? Leitor descartável?
Texto perde o suporte físico e permanece como interpretação.
Pêcheux:Todo enunciado é, pois, lingüisticamente descritível como uma série de pontos de deriva possíveis, oferecendo lugar à interpretação.

A seguir tece considerações sobre que tipo de leitor o texto supõe. 

Recortes do texto:
Sr. Usuário, Sr, passageiro, seu consumidor (do painel da rodoviária)
Estranhos ( quem são os estranhos ?)
Ver página 55
Estranhos são todos aqueles que não acompanham o leitor. Baseado nas significações de estranhos buscadas no dicionário estariam fora os seguranças, pessoal de limpeza, taxistas, vendedores de lojas, dos guichês, de empresas de transporte, de carrinhos de alimentos, carregadores, mendigos, ambulantes, mas o texto opõe estranhos a seguranças .O recorte (usuário, passageiro, consumidor atinge o leitor)
Outras oposições:
Táxis credenciados x outros serviços estranhos ao terminal; Se estabelece uma organização jurídico administrativa : -usuário, passageiro, consumidor,segurança, credenciados = usuários legítimos. Conseqüentemente um não reconhecimento daqueles outros que não se enquadrem como destinatários.
O texto se apresenta claro, sem modalizações nem marcas de heterogeneidade enunciativa(marcas formais da presença do discurso OUTRO no enunciado)
Seguindo a análise da autora :
Dar esmolas/ fazer doações poderiam ser usados como sinônimo.
É encontrado aí um ponto de deriva,, assim como no caso dos estranhos,onde o enunciado se abre para interpretação.
Então, dar esmolas é errado, fazer doações é certo. Fica subentendida ameaça por parte dos destinatários das esmolas. Coloca então o passageiro, usuário, consumidor como responsável pela segurança do terminal.
O que é silenciado fornece o crivo ideológico para identificação:
Sujeitos credenciados= comportamentos corretos
Leitores ideais= usuários legítimos versus estranhos ao terminal- comportamento de risco, leitores excluídos.
Processos de identificação, práticas de exclusão: sentidos todos condensados na materialidade significante de uma vírgula, de um ponto, de uma justaposição.
Após discorrer sobre pressupostos básicos em análise de discurso a autora explica que através da análise que procedeu no texto do painel rodoviário desejou descrever a maneira como as condições de produção da leitura se inscrevem imaginariamente na memória discursiva, estabelecendo diferentes posições do sujeito com as quais o leitor se identifica e a partir das quais ele interpreta. O sentido e o sujeito se constituem simultaneamente em relação às diferentes formações discursivas que se relacionam com as formações ideológicas que definem uma formação social numa conjuntura histórica dada. O sujeito se constitui enquanto sujeito- leitor pela sua inscrição-identificação com as posições de sujeito definidas nas formações discursivas em jogo no processo de produção de leitura.

O gesto de leitura do painel rodoviário pode ser descrito como processo de silenciamento das interpretações outras que contestariam as evidências sobre as quais o texto recorta o espaço público urbano, construindo a identidade do sujeito (urbano/leitor) a partir das oposições dicotômicas de ordem jurídico administrativa.

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