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Discurso e relações de gênero: romper com o senso comum e instituir sentidos plurais. Possibilidades de análise de um corpus.
Vera Lúcia Pires[1]


A sociedade vive em constante mutação, em decorrência da rapidez da informação, da eficácia das tecnologias e das múltiplas relações que se estabelecem.
As tecnologias evoluem muito rapidamente sem que o homem tenha tempo e condições de assimilar todos estes aspectos inovadores e transporta-los para o seu cotidiano colocando-os à sua disposição de modo a melhorar suas relações, tanto no âmbito pessoal quanto familiar e profissional.
Existem dados culturais muito fortes que não se modificam apesar destas transformações que ocorrem na sociedade como um todo, por isto a pertinência do artigo acima citado que aborda as relações de gênero no discurso que Maingueneau (2006: 43) diz que “não pode ser o objeto de uma abordagem puramente lingüística”.
O objetivo da autora é analisar o discurso de gênero (grifo da autora) marcado culturalmente em todas as sociedades, que constrói a representação das diferenças sociais de forma hierárquica entre os sexos com base nas diferenças biológicas.
As diferenças biológicas existem, evidentemente, mas não justificam a hierarquização, o desrespeito e a discriminação que perduram de forma escancarada-apesar das conquistas sociais das mulheres-em determinadas regiões, por cultura, ou religião e em outras de forma velada, subliminar nos textos, nas revistas, nos jornais ao reproduzirem notícias do cotidiano, nas propagandas veiculadas em qualquer tipo de mídia, de maneira tão inteligente que passa despercebida por aqueles que não tem maior discernimento para captar tais mensagens. Deste modo, justifica-se a autora fazer a análise como um “objeto lingüístico–semântico, social e histórico”. Utiliza como marca lingüística os operadores modais, cuja análise será integradora com destaque para os elementos intradiscursivos e interdiscursivos.
O arquivo discursivo constitui-se de peças publicitárias cujo enfoque temático são as mulheres, isto é, a representação do sujeito feminino na mídia publicitária impressa. Busca amparo, justificativa ou fundamentação teórica em Bakhtin, Orlandi e Pêcheux entre outros com os quais enriquece seu trabalho.
Os conceitos por ela enunciados ao longo do texto são de fácil entendimento para quem já tem algum conhecimento dentro da área em questão. Quem não transita por este contexto da análise do discurso, não teria condições de saber definir ou compreender o que é intradiscurso, interdiscurso, memória discursiva, processo parafrástico, processo polissêmico. Como o artigo é para publicação científica, se supõe que é perfeitamente compreensível para a coletividade acadêmica específica que com ele se defrontar.
A análise se processa na mídia impressa e dentro desta foi escolhido o espaço publicitário, que embora a pretensão de neutralidade propagada pela mídia, inexiste segundo a autora, pois se encontra sempre a manifestação do sujeito em qualquer elemento verbal.
Os textos analisados são aqueles onde são empregados operadores discursivos modais, que são aqueles elementos lingüísticos ligados ao momento da produção dos enunciados e que indicam o engajamento e os sentimentos do sujeito quanto ao seu discurso. (Koch, 1987 e 1992).
Com base em Thompson (1990) a autora analisa três aspectos que devem ser considerados para uma análise das formas representativas dos meios de comunicação; o primeiro diz respeito às circunstâncias socio-históricas específicas, o segundo relaciona-se com a construção do discurso e o terceiro tem a ver com os efeitos da recepção no interlocutor.
A preocupação da autora é de mostrar como a estrutura significante e os sentidos circulam no meio social, cruzando-se com as relações de poder - com as de gênero – e como são veiculadas pelas instituições da mídia.
Foram selecionados 10 textos de anúncios publicitários de jornais locais (considerando o domicílio da autora) e de revistas de circulação nacional. Destes, 07 foram veiculados tendo como referência o Dia Internacional da Mulher e o Dia das Mães.
Os textos foram devidamente analisados pela autora mostrando que através deles é possível perceber eficiência ao associar o elemento visual aos recursos lingüísticos como nos casos a seguir citados:
- comparação: mulher- flor- delicadeza (Visão Tradicional) = Mulher ser frágil e delicado
- Todas (modal) com a repetição de nomes-indica universalização da afirmação
-anunciante (loja de eletrodomésticos) lugar privilegiado ocupado pela mulher dentro da visão do anunciante, extensão da casa = lugar da mulher em casa.
Sucessivamente a autora vai analisando os textos em cuja maioria se percebe uma visão retrógrada, sectária, discriminatória, mantendo a mulher como rainha do lar, frágil, infantilizada, ignorando emancipação econômica, mantendo estereótipos evidenciando uma posição sócio-histórico-cultural conservadora por parte do sujeito do discurso, ocorrendo julgamento de valor ideológico que conduz ao tradicionalismo cultural. Dos 07 textos destacados, em 05 preponderam a concepção acima referida.
Em outros textos há inovação e a cadeia do enunciado rompe a linearidade discursiva do seu sentido tradicional permitindo que outros sentidos sejam possíveis, pois eles não se esgotam no dito, [grifo nosso] mostrando através da escolha dos textos e da correta e embasada análise a possibilidade de romper com o senso comum e instituir sentidos plurais.

Isabel Cristina Silva Vargas
Aluna do Curso de Pós Graduação em Linguagens Verbais e Visuais e suas Tecnologias – CEFET





[1] .Laboratório Corpus: Fontes de Estudos da Linguagem. GRPESQ/CNPq Discurso, História, Gênero e Identidade. Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Exibições: 15

Respostas a este tópico

Gostei muito da análise do documento anunciado, mas senti falta das referências completas das obras que utilizaste para formular o texto:

Maingueneau (2006: 43)

(Koch, 1987 e 1992)

Thompson (1990)

Parabéns e Felicidades!

Beijossssssssssssss

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