RESENHA CRÍTICA 



Sobre a natureza fonológica da ortografia portuguesa
Maria Helena Mira Mateus


O artigo é escrito por Maria Helena Mira Mateus, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa FLUL e Instituto de Lingüística Teórica e Computacional ILTEC e tem como objetivo argumentar sobre a natureza fonológica da ortografia portuguesa e a partir da afirmação acima daí discutir a vantagem e eficácia da simplificação da ortografia.
Analisou ao longo do texto de 19 páginas, primeiramente o acordo de maio de 86 que levantou entre Portugal e Brasil uma polêmica sobre a ortografia Portuguesa. O Objetivo era eliminar diferenças na escrita dos dois países, porém foram além destas diferenças e pretenderam simplificar a ortografia retirando consoantes (mudas),acentos (de esdrúxulas), hífens (de compostos).
Faz uma análise histórica discorrendo desde as primeiras gramáticas portuguesas, onde já começa a aparecer o termo ortografia, como a de 1536(Gramática da Lingoagem Portugueza) de Fernão de Oliveira, que classifica a Ortografia a par de Acento, Etimologia e Analogia; a de 1540 de João de Barros (Gramática da Língua Portuguesa) onde a Ortografia é apresentada como uma das quatro partes nas quais os latinos dividem a gramática e define Ortografia como a “ciência de escrever dereitamente”.
A ortografia procurava, na medida do possível, transmitir graficamente a pronúncia da língua recém nascida cheia de formas latinas.
A partir do renascimento é percebida a influência das formas etimológicas, embora em ocasiões interpretadas de forma errônea o que acarretou a introdução, na escrita do português, de letras existentes nos vocábulos latinos e gregos como o c em fecto e de factun, o emprego das consoantes duplas (fallar) e dígrafos ph, ch, th, rh (mantidos por muitos anos em pharmacia, lythografia, Matheus).
Guilherme Ribeiro diz que foram introduzidas letras que não eram pronunciadas como esculptura, astma, character.
O y apareceu em muitas palavras tais como lythigrafia, typoia e lyrio.
A autora ressalta obras de 1666, 1734,1822 onde aparecem opiniões conservadoras e propostas inovadoras.
Durante o século XIX e XX é discutido sobre uma maior aproximação da ortografia à oralidade em títulos publicados em 1853,1861 e 1875.
Em 1920 Piero Gato publicou no Brasil a “Ortografia fonética da língua Luzo-brasileira”
Em 1911 ocorreu a reforma pretendendo uniformizar a escrita e criar uma ortografia que visava à simplificação de muitas formas gráficas que mantinham uma relação mais próxima com a etimologia. Foi a primeira reforma oficial em Portugal e modificou o aspecto da língua escrita aproximando-a da atual. Esta reforma é que estabeleceu a ortografia que a autora do artigo classifica de natureza fonológica (grifo da autora) o que não significa que seja um reflexo direto e biunívoco do sistema fonológico da língua. Considera que nenhum sistema ortográfico é exclusivamente de um único tipo (etimológico, filológico, fonético ou fonológico).
A autora procurou ao longo do artigo “identificar e discutir em bases fonológicas os numerosos exemplos do sistema ortográfico português em que um único símbolo gráfico cobre diferentes realizações fonéticas e de outro lado, dois símbolos são representações de oposições fonológicas”.
Analisou a variação dialectal, a representação de um som por letras diferentes, a ortografia e a variação contextual de forma detalhada para explicar didaticamente ou cientificamente um dos problemas que dificulta a aprendizagem da ortografia, que é justamente a impossibilidade da ortografia representar de forma exaustiva a variação contextual dos elementos fonológicos.
O objetivo do artigo foi em toda sua extensão fundamentar a afirmação inicial de que a ortografia portuguesa é de natureza fonológica e discutir a vantagem e eficácia da sua simplificação.




CONSIDERAÇÕES PESSOAIS

A escolha do texto sobre a natureza fonológica da ortografia portuguesa de Maria Helena Mira Mateus foi em virtude de dois fatores primordiais, quais sejam, tratar a respeito da ortografia cujo conteúdo é por demais interessante levando-se em conta a importância da boa escrita, ou escrita correta por qualquer pessoa, independente da profissão escolhida como forma de tornar a comunicação escrita mais clara e eficiente, e pela questão fonológica não ser por demais minuciosa, ou complexa o que para mim se configuraria em dificuldade visto não ser originária da área de letras. Creio que associado à isto tive a felicidade de escolher tal texto bem na época da aprovação por Portugal das alterações da língua portuguesa, cujas negociações começaram em 1980, alterações estas que nos remetem àquelas citadas pela autora nos anos de 1911 e 1986. O acordo de 1986 nos induz à questão sociológica e política referente ao binômio COLONIZADORXCOLONIZADO que permanece até hoje, quando um dos impasses para esta reformulação era, justamente, a idéia de que Portugal não poderia ceder em mais aspectos que o Brasil para tal uniformização, imbuídos da idéia “Pátria Mãe” que pressupõe autoridade maior de sua parte e, por conseguinte, a submissão ou subserviência do Brasil a tais ditames.
O acordo ortográfico atual que deverá vigorar em 2009 e os livros didáticos deverão circular até dezembro de 2011, dependendo do conteúdo do decreto presidencial.
Segundo o professor Luis Amaral, professor de Lingüística da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Pelotas, publicado no Diário Popular de 22 de Junho, em matéria de Michele Ferreira, “o acordo não lida com a questão cultural nem com o ensino da gramática, avança muito pouco”. Remete ainda a reforma de 1971 quando surgiram as regras de acentuação das oxítonas e caíram os circunflexos de palavras como fôr e enfêrmo [grifo nosso]
As alterações contempladas no acordo atual seriam originárias da Academia Brasileira de Letras e de Academia Portuguesa, portanto da elite e não lideradas pela comunidade diz ainda a matéria. A mudança atingirá cerca de 0,42% das palavras no Brasil e 1,42% do vocalurário em Portugal.
Vale ressaltar que o Português é a terceira língua mais falada ficando atrás só do Inglês e espanhol (considerando o ocidente). Dos falantes 190 milhões são brasileiros e o restante dividido entre sete nações e três continentes: São Tomé e Príncipe, Guiné Bissau, Angola, Moçambique e Cabo Verde na África, Portugal (Europa) e Timor Leste (Sudoeste da Ásia) que só se independizou e aderiu ao acordo mais recentemente.
As novas alterações conforme publicado no Diário da Manhã de 01.06.2008 são as seguintes:
_ O alfabeto passará a ter 26 letras, ao incorporar “K”,”W” e “Y”;O trema deixará de existir só permanecendo em nomes próprios como Hübner, Muller;
_o acento agudo desaparecera nos ditongos abertos “ei” e “oi” em palavras como “idéia” e “jibóia” e nas palavras paroxítonas com “i” e “u” tônicos, quando precedidos de ditongo em palavras como feiúra;
_o acento circunflexo desaparecerá em palavras com duplo “o”, como em “vôo” e “enjôo” e na conjugação verbal com duplo “e”, como “vêem” e “lêem”;
_ o acento diferencial não será mais usado para diferenciar “pára” (verbo) de “para” (preposição) ou “pêlo” (substantivo) de pélo (verbo) e pelo (preposição mais artigo);
_desaparecerá o hífen em palavras em que o segundo elemento comece com “r” e “s”, como em anti-rábico e “anti-semita”, que passará a “antirrábica” e “antissemita”. Permanecerá quando o prefixo terminar em “r” como em “inter-racial”.
As alterações envolvem além das questões lingüísticas, questões políticas e o assunto não se esgota aí. A Professora do Centro de Educação e Comunicação da Universidade Católica de Pelotas, Ana Viana, conforme Diário Popular, edição já citada defende a idéia de revisão de normas e a criação de uma gramática do Português Brasileiro que incorpore, com fundamento nas investigações científicas “adequações feitas pela oralidade ao longo da história, pois a língua é algo vivo, que faz parte da identidade de um povo”.
Vivemos em uma época de globalização, de internet, de rapidez, simultaneidade, do poder da mídia que “uniformiza” , mas que ao mesmo tempo permite a visualização do “diferente”. É justamente o respeito pela diversidade que me leva a entender que muitas leis não vigorem, muitos acordos não sejam eficazes por não atenderem aos anseios da sociedade além de não conseguirem contemplar toda a diversidade contida nos signatários. Este pode não ser diferente, visto que são oito países signatários sendo o Brasil um país continente no qual temos uma rica diversidade de culturas, etnias e dialetos.Não podemos ignorar que não é possível considera tal acordo como algo definitivo, como não foram os anteriores mencionados pela autora do artigo, posto que a sociedade se modifica, se transforma, evolui e , não raro, até retrocede para posteriormente empreender maiores avanços.
Temos que entender como uma tentativa para gerar melhor comunicação entre os falantes de uma mesma língua,através de uma ortografia mais uniforme, de modo a gera mais equilíbrio, mais entendimento e, por conseguinte relações que podem ser mais harmoniosos na medida em que todos os signatários aprendem o exercício da mediação, da tolerância, aprendem a ceder em prol do bem de todos o que sem dúvida é gerador de relações mais pacíficas.


O artigo objeto do trabalho foi extraído do site:http://www.iltec.pt

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