O QUE É O CONHECIMENTO?
- Professora Sílvia Mota -

Conhecer é saber consciente e o desejo de saber é inata vocação do espírito, tão antiga quanto o é a humanidade. Veja-se na Grécia, os primeiros filósofos, os pré-socráticos, quando se questionavam: o que é o mundo? Por que as coisas existem? Qual a origem da Natureza? O que é o Ser?

Durante o século VI a.C., à procura de respostas às inquirições humanas, em certas regiões do mundo grego as religiões de mistérios prosperaram destacando-se, dentre estas, o culto de Dionísio, originário da Trácia, e que passou a constituir o núcleo da religiosidade órfica. O orfismo – cantado em forma de poemas musicais por Orfeu, que primeiro teria recebido a revelação mística de certos saberes - era uma religião essencialmente esotérica que difundia a imortalidade da alma e a metempsicose, que significa a transmigração da alma através de vários corpos, a fim de concretizar sua purificação. Para os órficos a alma ansiava, por sua própria natureza, retornar à pátria celeste, às estrelas; mas, para se libertar do ciclo das reencarnações, o homem necessitava da ajuda de Dionísio, deus libertador que completava a libertação preparada pelas práticas catárticas.

No século V a.C., Sócrates (470 ou 469 a.C.) afirmava, que de nada sabia. Seu processo pedagógico - ao qual denominou maiêutica (em memória da profissão materna, parteira), conhecida também como a arte da parturição das ideias - desvendava ao interlocutor, através da refutação, a consciência da sua ignorância, revelando-o como discípulo e não mestre. Seus questionamentos produziam uma dúvida metódica, estimulando-os a realizar reflexão reconstrutiva, direcionada à procura do verdadeiro conhecimento, levando-os a extrair de si mesmos as procuradas respostas.

A reflexão de Platão (428-347 a.C.), mais brilhante e conhecido discípulo de Sócrates[1], se faz nesse balouço, pois ao filósofo conhecer é, na realidade, um reconhecimento de verdades pré-existentes, é despertar a razão a fim de que ela se exerça por si mesma, o que se atesta quando nos deixamos guiar pela voz do inconsciente. Através das suas obras Fredon e Mênon, especula que o conhecimento da alma provém de existências anteriores. No diálogo Fredon, Platão narra atitudes dos amigos e discípulos de Sócrates no último dia de sua vida. Fredon sentia uma mistura de prazer e dor, pois enquanto se deleitava com a discussão filosófica, não conseguia deixar de lembrar a morte iminente do mestre. Apolodoro não se conformava com a condenação de Sócrates: "O que acho mais difícil de suportar, Sócrates, é que te condenaram à morte injustamente!" Mas, Sócrates, abanando a cabeça, replicava: "Meu caro Apolodoro, você preferiria que me houvessem condenado justamente?” Sócrates calmamente responde às perguntas de seus discípulos sobre a alma, sua separação do corpo depois da morte, e sua imortalidade, descrevendo as experiências da alma depois de sua libertação do corpo. E finaliza, como sempre, prescrevendo o uso da razão: "Pretender que as coisas sejam exatamente como as descrevi não é o que se espera de um homem de bom senso. Mas, parece-me uma coisa boa e digna de confiança acreditar que é algo semelhante o que acontece com a alma, uma vez que ela é evidentemente imortal." Em Mênon, Sócrates comprova a Teoria da Reminiscência. Ao dialogar com um jovem escravo analfabeto, põe-se a lhe fazer complexas perguntas sobre geometria. Os questionamentos precisos extraem respostas claras do jovem, que consegue espontaneamente resolver um cálculo de área difícil para um ignorante; as verdades matemáticas surgem-lhe na mente. Se ao nascer fôssemos desprovidos de razão e não conhecêssemos a verdade, indaga Platão, como seria isto possível? Se o escravo não soubesse a diferença entre o verdadeiro e o falso, se não tivesse nascido com a razão e com os princípios da racionalidade, como poderia demonstrar o teorema com fulcro na experiência, se jamais ouvira falar em geometria?

Nessa sequência, em A República, ao expor sua ideia sobre a Teoria da Reminiscência, Platão transmuta os ensinamentos mais difíceis em simples deleite para a alma e narra o mito de Er, pastor oriundo da região da Panfília, que após sua morte foi levado para o Reino dos Mortos e, lá chegando, encontrou almas a vagar. Entre essas, vislumbrou as almas dos seus antepassados e amigos, dos heróis gregos e reis, dos governantes e artistas, todas à procura da verdade, em estado de contemplação. Desvenda o pastor, nesse recanto, a transmigração das almas, através do renascimento constante, sob a esperança da purificação dos erros cometidos em vidas passadas. Seu renascimento ocorre até que, dulcificadas, as vidas acomodam-se eternamente. Mas, antes de retornarem à vida, podem as almas escolher o papel a ser representado na vida terrena. Sendo assim, algumas optam por ser reis, guerreiros ou ricos comerciantes; outras escolhem ser sábios ou artistas. No caminho de volta à Terra, as almas atravessam uma extensa planície por onde corre o rio Lethé, que em grego significa esquecimento, e bebem das suas águas. Ao saciarem a sede, esquecem-se de toda a verdade contemplada no Reino dos Mortos aquelas almas que bebem muito; ao passo que não se esquecem quase nada do que conheceram aquelas almas que pouco bebem das águas de Lethé. As almas desejosas de poder, riqueza e fama são aquelas que mais bebem das águas do esquecimento; as que escolhem a sabedoria são as que menos bebem. Em consequência, as primeiras, dificilmente ou talvez nunca se recordarão, na próxima vida, da verdade que conheceram; enquanto as outras, fazendo uso da consciência, serão capazes de lembrar e ter sabedoria.

No embalo evolutivo do pensamento humano, o pensamento grego, através de Aristóteles (1979, p. 11), expressa que todo homem é, naturalmente, desejoso de saber. Para o filósofo estagirita, o desejo de saber é inato, e prova disso é o prazer das sensações, que além da sua utilidade agradam por si mesmas. Aristóteles afirma que a espécie humana vive da arte e de raciocínios, e que a memória é o canal que concede aos homens a experiência. Em suas especulações refere-se às palavras de Polos, aluno do sofista Górgias: a experiência criou a arte, e a inexperiência, o acaso.

Como se vê, desde tempos antigos, seja em Sócrates, Platão ou Aristóteles, o conhecimento é essencialmente humano e se aperfeiçoa através da experiência. Por consequência, o processo do conhecimento alia-se ao entendimento, inteligência, razão natural e se perfaz através da relação estabelecida entre um sujeito que conhece e um objeto conhecido. Depreende-se desse enfoque, que o ser humano observa, detecta, apreende, processa, memoriza a informação proveniente de determinado objeto e desenvolve a capacidade de expressar juízo de valor a seu respeito.

Através do conhecimento o homem se coloca no mundo, consciente de ser protagonista de uma eterna procura que lhe permitirá um renascer eterno. Aberto à compreensão das novas vicissitudes reelabora a máxima do pensamento socrático: quanto mais eu sei mais sei que nada sei, contextualizando-se à época vivenciada, pois o conhecimento transmuda ao sabor da abordagem que se faz do mundo em que se vive.

Conhecer é, pois, possibilidade da pessoa humana relacionar-se com o exterior. Sob esse aspecto, significa poder.

Nota:
[1] É de sabença que Sócrates nada deixou escrito. As notícias que se tem de sua vida e de seu pensamento, devem-se especialmente aos seus dois discípulos Xenofonte e Platão. Xenofonte, autor de Anábase, em seus Ditos Memoráveis, expressa o aspecto prático e moral da doutrina de Sócrates. Não obstante sua devoção para com o mestre e as corretas afirmações, seu estilo simples e harmonioso, proveniente mais de um homem de ação do que de um pensador, não logrou entender o pensamento filosófico de Sócrates. Platão, em contrapartida, foi filósofo grande demais para delinear um preciso retrato histórico de Sócrates; pois nem sempre é fácil discernir o fundo socrático das suas próprias especulações. Cabe-lhe, entretanto, o mérito de ter sido o grande historiador do pensamento de Sócrates e de sua biografia. Embora Platão tenha conhecido Sócrates com mais de sessenta anos de idade, este é o protagonista de todas as obras platônicas.

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Respostas a este tópico

Comentário de Lais Maria Muller Moreira em: 21 março 2012 at 17:09

Tema complexo desenvolvido com maestria. Aproveitei cada palavra. Obrigada Sílvia pela partilha.

beijo

Comentário de Lúcia Cláudia Gama Oliveira em: 27 março 2012 at 22:43

"quanto mais eu sei mais sei que nada sei"

Adoro este pensamento... texto maravilhoso Sílvia!

Beijosssssssss

Comentário de Loubah Sofia em: 3 junho 2012 at 0:38

O Conhecimento sem a sabedoria de como exercer o poder é nulo, mas dado o momento que harmonizam-se numa perfeita sincronia, o conhecimento transpoe-se d'uma maldição para bênção, assim seja uma escolha consciente e disciplinada do espírito que o busca e o partilha com prudência, ponderação,e sobretudo a generosidade da paciência.

Tua obra amada Mestre, vejo como uma tese valiossima a qual é por demais merecedora de uma mais profunda discussão, uma troca d'alma perfilhadas na simplicidade de querer ser mais humano para com os conhecimentos de si mesmo e para com os dos semelhantes, acontecendo isso...

Há!

Digo-te Aconteceria uma ressurgimento do despertar, pois sim, um despertar dos marasmos que de tantas informações intituladas de comunicação do saber, que o cérebro para suportar tal demanda entra n'uma espécie paralisante de torpor e isso é um acontecimento extremamente perigoso, nocivo, pois é como uma espada de dois gumes ou o exagero do que faz bem, converte-se por falta de disciplina e moderação por vezes num mal irreversível.

Oxalá que o mundo aqui venha sorver dos teus sábios conhecimentos e desse saber que muito de bom pode, encontrar um novo portal que de tão antigo, promete com honestidade levar o ser humano a reencontrar-se milagrosamente, o que difere de instantaneamente.

Se permite-me aqui deixo uma lista d’alguns filósofos iluministas que cujos feitos, os fazem merecedores de um atento estudo:

- John Locke (1632-1704), ele acreditava que o homem adquiria conhecimento com o passar do tempo através do empirismo;

- Voltaire (1694-1778), ele defendia a liberdade de pensamento e não poupava crítica a intolerância religiosa;

- Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), ele defendia a idéia de um estado democrático que garanta igualdade para todos;

- Montesquieu (1689-1755), ele defendeu a divisão do poder político em Legislativo, Executivo e Judiciário;

- Denis Diderot (1713-1784) e Jean Le Rond d´Alembert (1717-1783), juntos organizaram uma enciclopédia que reunia conhecimentos e pensamentos filosóficos da época.

- Bento de Espinosa (1632–1672) - defendeu principalmente a ética e o pensamento lógico;

- David Hume (1711-1776) - foi um importante historiador e filósofo iluminista escocês. Refutou o princípio da casualidade e defendeu o livre-arbítrio e o ceticismo radical.

- Adam Smith (1723-1790) - economista e filósofo inglês. Grande defensor do liberalismo econômico.

- Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781) - filósofo e dramaturgo alemão. Defendeu a liberdade de pensamento entre os cristão.

- Immanuel Kant (1724-1804) - importante filósofo alemão, desenvolveu seus pensamentos nas áreas da epistemologia, ética e Metafísica.

- Benjamin Constant (1767-1830) - escritor, filósofo e político francês de origem suíça. Defendeu, principalmente, ideais de liberdade individual.

Copilação:A sua pesquisa

Bisous com imenso carinho e admiração cada vez mais e gratissima pelo convite, por honrar-me em participar da excelência desse brilhante grupo.

Comentário de LUCIA GUEDES (Lufague) em: 8 novembro 2014 at 23:12

Penso que o conhecimento se faz necessário a partir de nossa relação com o mundo, são tantos os questionamentos, as dúvidas,e para mim, o conhecimento filosófico é o maior de todos os conhecimentos, porque faz o homem investigar a partir de de suas reflexões, da interação dos pensamentos,na busca das experiências, e assim gradativamente nos transformando através da sabedoria, do legado, na ponte conhecimento/conhecimento.

Excelente texto sobre a essência do conhecimento filosófico, o fio da meada dos conhecimentos. Obrigada pela partilha.

Comentário de Maria Iraci Leal em: 9 novembro 2014 at 15:44

Realmente o "Conhecimento" é algo tão complexo, desde uma capacidade consciente que nos torna reflexivos á uma capacidade inconsciente, ainda nem de todo aceita e bem desenvolvida, que quando praticada (treinada de alguma forma) revela outros conhecimentos que não os apreendidos da época de vida atual... Mistério para a razão, para o consciente, mas que sabe deste segredo, guardado a 7 chaves ainda, mas que lhe dá passagem quando se revela nas capacidades de pessoas paranormais ou sensitivas, sendo a consciência um trampolim para o universo que habita em nós mesmos ou buscar outros conhecimentos em algum lugar que não a Terra... Um magnifico texto, muito grata querida Sílvia, grande beijo, MIL.

Comentário de Dione Fonseca de Barros em: 15 janeiro 2016 at 22:15

Só sei que nada sei porque quanto mais sabemos vemos o quanto temos de aprender que se torna infinito a infinito. Não temos tempo para saber tudo sendo o nosso saber quase nada. Realidade de todos mesmo os mais sábios. Cada ser tem algo a ensinar aprendemos mais rápido ouvindo ou hoje lendo quando muitos estão ligados ao mesmo tema , várias mentes pensamentos diversos. A satisfação de saber tudo leva me a pensar que o homem quer a sabedoria divina para se colocar no mesmo plano. Acham que se torna a luz

Comentário de Dione Fonseca de Barros em: 24 janeiro 2016 at 22:13

Li e reli. Acho que vou ler mais vezes.

Obrigada. Abraços

Sêde de ........

GRATIDÃO ...

Afundar-me aqui, é benção que me faltava.....

beijosssssss

Que felicidade teu comentário, querida Chantal!

Estou por aqui, atarefada, pois os problemas de conexão pela NET, ofereceram-me uma trégua... a primeira, nos últimos cinco dias... rsrsrs... Assim, consegui transferir algum material das minhas outras redes Ning para cá. Em decorrência do novo preço, ficaremos somente com o Portal PEAPAZ. Mas, acho que estou realizando um layout favorável. Talvez seja bom, porque dessa forma o PEAPAZ ficará mais rico de conteúdo, com mais possibilidades de publicações por nossos autores. E, tudo, disponível para o público.

Agradeço tua visita e deliciosas palavras.

Beijossssssssssss

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