Já morei por um longo tempo n’uma rua
Tão escura, tão assombrada de solidão e terror
que eu quase nunca conseguia distinguir:

Se os gritos que feriam-me os tipanos, eram os meus
ou d’alguma ave desabrigada do ninho perdido,

Nunca tinha certeza se era dia ou noite
Ou de que lado do horizonte movia meus pés.

Sim...

Lembro-me bem o gás matador
As armadilhas subtis
A sarjeta sem decoro
As esquinas sem honra alguma
Lembro-me bem da fome

...Do frio, do medo atroz, dos tremores
 que arrepiavam-me a voz esquecida até
mesmo do próprio nome.

Lembro-me claramente
Pois ela ainda existe bem aqui ao lado
 a um passo de mim.

Num vacilo
Num descanso lá estou!

...E sabes o que mais apavora-me ?

É a intuição de que no dia que lá
acaso um dia voltar a cair o retorno
será vetado-me.

Confesso que se tivesse o poder de mudar
tal arquitectura, de bandear ao menos um
 bocadinho o mapa da construção.

Eu traria sementes de margaridas e girassóis,
traria um filhotinho d’agua e uma mão de estrelas
 e em cada ponta um ramo de melodias...


Quem sabe, talvez aconteça de poder
chamá-la de Rua da Piedade, ou ao menos
a Rua da quietude ou da espera.

Não sei...

Mas antes bem melhor
Morar na Rua da esperança sem endereço,
do que no fim da desgraça.

Se acaso as margaridas e girassóis brotarem
ai na tua rua
Se o fiozinho d’agua vingar e tornar-se um lindo chafariz
Se acaso as estrelas acenderem nas notas das melodias
que delas pingam, faz-me um favor?

Avisas-me a vir espreitar, quem sabe podemos vez
enquanto escapar do factal destino e bebericar
sonhadores irmãos...


Um chá de bem mais do que faz-de-conta...

Para lembrarmos na constância dos dias que:

Nascemos com honra e cabe-nos

Em cada acto alicerça-la com a firmeza

Do que e quem somos, onde e com quem

Estamos.

 

Loubah Sofia – Alma Feita De Ti
WAF-2011


Fotografias: Domino Pow

Exibições: 127

Respostas a este tópico

Uma parábola muito interessante, lembrando a necessidade de dedicar amizade e carinho aos que nos são próximos, o que indubitavelmente trará beneficio para nossa alma...

Lindo demais o sentido de teu texto, querida poetamiga,

Marcial

Quem de nós bela Sofia um dia, já não transitou por essa rua em gritos de agonia e dor;procurando uma saída, esgueirando-se  entre sombras, fugindo do fardo do tempo......

Meu carinho...

Querida Loubah,

Esse estranhamento ou esquizofrenia é comum a todo ser humano, não sendo privilégio

de uns poucos, mas da sua grande maioria. É verdade que em poetas e artistas ele se

manifesta com mais frequência, também às pessoas mais sensíveis e criativas. O que me 

pareceu interessante foi a forma com que abordaste o assunto, emprestando a ele conotações

espiritualistas e de profundo bom gosto como alternativa de tratamento. Dou-lhe o meu aplauso

efusivo pelo requinte e bom gosto na abordagem a tema denso e que muitos fogem de admiti-lo,

talvez, temendo o preconceito que sempre foram tratadas essas pessoas mas que aqui ganha

conotações humanistas de terapia sadia.

Ainda... Permita apor a teu magnífico texto um poema que rabisquei

para tentar ajudar a discutir a questão. É óbvio que trata-se apenas

de abordagem laica porque o assunto é complexo e mais afeito aos

profissionais do que as opiniões de um leigo qualquer que é o meu caso.

Síndrome do Pânico...

Quando as forças se esvaírem
E sentires a tua alma vazia
Vires que sumiu de ti a alegria

A tristeza instalou-se e fez morada
E agora vives  só de nostalgias
É hora de retomar a estrada

Reescrever a tua própria história
Não se entregue ao abandono...
Nada de medo, pânico ou desengano

Refaça de imediato os teus planos
Quem foi que disse que era fácil?
A vida é feita de perdas e ganhos

Mostre ao mundo tuas entranhas
De luta! De garra! De caráter!
Que és nobre e guerreiro

Só a ti e Deus como companheiros
E aloje tuas dores no estaleiro
Iça a vela e singra os mares

Navegue e rompa horizontes
Porque não és um qualquer
Tens na tempêra a linhagem

E não serão quaisquer bobagens
A impedi-lo que siga em frente
Que vencerás com a tua coragem...

Creia! É possível... Seguir viagem
E aportar seguro após a tempestade
A paz, o amor e a felicidade...

Esperam por ti ali na esquina.

Hildebrando Menezes
Nota: Minha homenagem comovida aos portadores...

Veja o poema em vídeo:

http://www.youtube.com/watch?v=c7gJr2lA4Ls

Homenagem emocionada e emocionante, querido Hilde. Realmente, por mais cruéis os obstáculos, é possível retomar a jornada... Grata, por tão sensível e belo poema. Beijosssssssssssssss

Sofia escreve com a alma em flor.

"Eu traria sementes de margaridas e girassóis, 
traria um filhotinho d’agua e uma mão de estrelas
 e em cada ponta um ramo de melodias..."

Belíssimos versos!

Beijossssssssss

Tristes são essas esquinas. Que chegam a desfalecer até a própria honra! Se faz necessário agarra-se à esperança e a fé, para que se possa acreditar, que um dia, ao dobrar no final dessa esquina, se trafegará por avenidas bem iluminadas e arborizadas. Onde seguindo por esse caminho, esquecerá de toda tristeza pretérita e conseguirá voltar a sorrir diante do futuro esperado.

Querida Sofia. Quanta sensibilidade há em tuas linhas. A dor que manifesta, chega a ser delicada diante de tão bela e eloquente leitura!

Aceite meus sinceros aplausos e parabéns.

Bjssss   em seu coração.

Releio...

Beijossssssssssss

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