Peça curta em duas cenas para dois atores e um figurante*

 

                              Cena 1 ( Uma sala do gabinete da presidência da república de Zopema do Sul.  O generalíssimo, fardado e cheio de medalhas, sentado à mesa fuma um havana, soltando argolinhas de fumaça, com expressão de satisfação. Debaixo da mesa, na parte da frente, aparecem duas solas de pés femininos...) 

 

                              Narrador (voz soturna, pausada e grave. Música em tom marcial.).

                              “Eleições no Estado de Vento luz. Fechadas as urnas, não sem alguns incidentes, aguarda-se o resultado das apurações. Em surdina, os donos do poder em exercício, velhas elites dominantes, em pesquisas feitas às pressas percebem que um desastre pode acontecer”.

 

                              (Musica incidental. Entra a eminência parda do sistema zopemano, assessor especial para assuntos eleitorais no Estado de Vento Luz, esbaforido, sem bater na porta. Os pés femininos recolhem-se rápido e o generalíssimo faz uma careta de dor.).

 

                              - Generalíssimo!   Acho que perdemos em Vento Luz. Nosso principal candidato não deu nem para a saída! Os candidatos de oposição vêm com tudo. Vão fazer barba, cabelo e bigodes. Já pensou o ministro Bigodinhos sem seu acessório. Já tem uma cara de bunda! Sem os bigodinhos vai parecer bundinha de nenê. E correndo o risco de aparecer cara de negativo de fralda melecada...

 

                              - Calma... Calma. Não precisa essa sangria desatada.  Não é bem assim. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.  Quem vai anunciar o vencedor somos nós. A comissão eleitoral que arranjei é a única no planeta terra e quiçá em toda a galáxia. Inventei uma apuração secreta e anônima. Somente o nome do vencedor será conhecido. Os outros candidatos derrotados jamais saberão contra quem concorreram... Depois, temos vários candidatos em partidos de fachada, disfarçados de oposição. Um dos nossos vai ganhar e eles não vão poder falar nada.

 

                              - Mas Generalíssimo – diz o assessor. - Observadores independentes já emitiram opiniões favoráveis à oposição. E nossos candidatos fizeram feio nas prévias. Não sei, mas teve candidato que nem chegou perto do conteúdo programático que sugerimos. Lembra-se. Fizemos o final do plano de governo para que eles fizessem somente a introdução.

 

                              (Suspirando e abanando as mãos como desanimado) - A maioria estava acostumada com aquela marmelada da campanha de qualquer modo e a gente fazia de conta que não via... A gente até aceitava candidato que errava no plano de governo, pegava planos anteriores que não tinham nada a ver com esta eleição e intrujavam como quem não quer nada...

                              (em tom ainda mais desanimado) - Os observadores já perceberam que alguns dos nossos candidatos não atenderam aos pré-requisitos que nós mesmos sugerimos. Vamos ter que eliminá-los da contenda...

 

                              Em passadas largas pela sala com as mãos cruzadas nas costas, sentando-se em seguida, responde o generalíssimo:

                              - Não vamos eliminar ninguém... Os nossos são os nossos, o resto que se dane. Se eles passaram muito longe do que era solicitado, paciência... Mas que gente... Estava mastigadinho, pronto, não tinha correr errar!

 

                              Faz uma pausa como que se meditando e prossegue um pouco mais entusiasmado:

                              - Ah! Vamos justificar dizendo que são planos acima da media e que percebem nuances que nenhum outro percebeu. São em muito superiores, entendeu? Pode ser que não tenham nada a ver com o final do programa de governo que sugerimos, mas em si só, por si mesmos se avultam devido à qualidade dos escritos, palavras usadas... Essas coisas... Eles erraram feio, tentaram dar uma de João sem braço, mas para nós o programa de governo está corretíssimo...

                              Prossegue agora em tom mais baixo, como se fazendo confidência:

                              - E depois, está se esquecendo de que entre os observadores há gente nossa, que vai comentar o pleito de forma a beneficiar nossos candidatos. Vai parecer que é independente... Mas só vão falar bem dos nossos. Até desses aí que não sabem fazer plano de governo...

 

                              - Mas... Excelência... Quando forem divulgados os resultados, todos vão perceber que houve mutreta...

              

                              - E daí que percebam? Se alguém reclamar, quem vai apreciar os recursos?  Quem vai dizer que tem razão? Esqueceu-se?  Nós julgamos os recursos e a nossa palavra é secreta, sacrossanta, definitiva, inquestionável e por que não dizer, final. Não têm a quem mais recorrer. Vão pregar no deserto, chover no molhado... E se não concordarem, diremos que não leram as regras eleitorais, que não entenderam...

 

                              - Generalíssimo... Vamos acabar perdendo... Vai ficar feio para nossos medalhões se um meteco aparecer e levar. Pense só no vexame. A voz do assessor soava reticente e algo preocupada.

 

                              - Bobagem... Não perdemos nunca. E se não ganharmos, também não perdemos, é só saber levar as coisas. Lembre-se. Eles chegaram depois de nós. Somos autóctones... Gosto dessa palavra... Se eu tivesse um cachorrinho, iria chamá-lo de autóctone... Mas é isso. Já estávamos aqui quando eles chegaram, sem serem convidados e vindos sabe-se lá de onde... Antiguidade é posto. Mesmo que haja entre eles um ou outro meio bom, jamais vamos admitir...

                              E imbuído do espírito da pura retórica própria, prossegue o generalíssimo, de quando em quando se olhando no espelho e corrigindo a postura.

                              - Ouça o meu plano... Primeiro, vamos retardar o resultado. Não se fala mais em eleições neste país. Vamos sumir com todo material de campanha, apagar registros... Sumir com tudo. Daí é só fazer de conta que esquecemos que temos de dar o resultado. Se alguém notar que está demorando, vamos começar a criar debates e discussões para distrair a atenção para outros assuntos.  Nossos formadores de opinião vão movimentar-se para isso. Nossa gente é boa nisso. Com dois beijinhos e meia dúzia de bons dias as coisas se acertam. E podemos ainda cooptar quadros da oposição. 

                              Com olhar triunfante, arremata como que se aguardado aplausos:

 

                              - Não é difícil. Tem gente que se for tratada do modo certo, já acha que pode ser igual a nós e acaba colaborando.

 

                              - Beijinhos, generalíssimo? Que coisa de beijinhos é essa?

 

                              - É assim. Nossos formadores de opinião vão aparecer em todas as mídias fazendo comentários...

 

                              - Mas vão ter que dizer que os nossos programas são ruins!

                              - Nada. Não vão dizer nada.  Eles vão dizer bom dia, elogiar as roupas, dar beijinhos para todos. Não vão falar nada sobre o conteúdo, entendeu? Vai ter um montão de comentários, mas só conversa fiada, para pensarem que apoiam...

 

                              - E vai dar certo generalíssimo? A voz do assessor soa meio desconfiada.

 

                              - Claro que dá certo. Vamos desviar a atenção fazendo com que todos acreditem que a oposição não tem direito de estar neste país. Tudo era uma maravilha antes deles. Agora, nem se pode viver com essa gente nos rodeando. Deixamos que ficassem, mas não foi para botarem as manguinhas de fora. Faça como digo.

                              Continua eloquente o generalíssimo:

 

                              - Acione nossos formadores de opinião para entrarem em ação. Todos eles devem agir em bloco.  Que façam propagando dizendo que este país já não é mais o mesmo... Que o bom era antes...  E não se esqueçam de mandar beijinhos e perguntar sobre as crianças...

 

                              ­ Sem esperar qualquer resposta ou comentário do embasbacado assessor, se posta no meio da sala e com gestos eloquentes prossegue a peroração.

 

                              - Digo mais... Além de demorar a apuração e criar debates inúteis e divergentes, vamos criar um ambiente de modo que faça parecer que os bons zopemanos, principalmente os do Estado de Vento luz, saíram do país devido à oposição. E vamos começar a lembrar de nomes para avivar as memórias...  Forjar reputações e construir heróis... Quero que todos acreditem que este país é uma maravilha e se alguém está no exterior é culpa da oposição. Quem sabe algum deles queira voltar. Vamos ganhar pontos se conseguirmos repatriar alguns... Vamos fazer muita propaganda sobre isso. Hummm...  Estou tendo grandes ideias... Assim sempre funciona. É só não morder...

 

                              - Morder o que? - Foi a pergunta o assessor.

 

                              - Nada. É outro assunto. Responde o generalíssimo olhando para debaixo da mesa e piscando insistentemente. 

 

                              - Generalíssimo... E se a oposição ganhar esta eleição?

                              - Pois que ganhem. Vamos desviar a atenção. Não falamos mais em eleição, quem ganhou quem perdeu... Se eles eram mesmo melhores que nossos candidatos. Essas coisas... Vamos evitar qualquer menção...

 

                              Dando de ombros, como se o caso tratado tivesse pouca importância, continua o generalíssimo:

                              - Cortamos de vez o assunto. Nossos formadores de opinião serão instruídos para tocar o tema de maneira favorável a nós. Assim, se a oposição ganhar, grande coisa! Ninguém vai ficar sabendo e nem vai ter como comparar. E continuamos no poder.

                              Virando-se abruptamente como se para chamar a atenção para algo que esquecera, dispara:

                              - E mais uma coisa... Vamos apagar todos os traços dessa eleição. Não quero nada escrito, falado, televisado, telematicado, entenderam... Vai ter que sumir tudo... Como se nunca tivesse existido. E tudo continuará como dantes no quartel de Abrantes...

                              - Mas podemos confiar em nossos formadores de opinião?

                              - Por enquanto podemos sim. São todos dos antigos tempos que não se conformam em disputar espaços com oposições medíocres e despreparadas. E entre eles temos expoentes medalhões e vacas sagradas.  Tens uns até que só fazem milagre em casa. Se saírem deste país, lá fora ninguém vai prestar atenção neles. Ficam por aí lamentando que está ruim, mas não têm coragem de sair, pois no mundo globalizado ninguém vai dar atenção a eles...

                              (Música marcial. Fecham-se as cortinas. Final da 1ª cena).

***

 

 

                              Cena 2 – Uma sala íntima do gabinete da presidência da republica de Zopema do Sul.  O generalíssimo usa uma túnica com um dos ombros nus, sandálias e uma coroa de louros. Traz na mão uma lira de plástico. Olhar aflito suspira e percorre os aposentos.

 

                              Narrador (voz em off Música em tom triste.).

                              “Atribulações de Zopema do Sul. A oposição ganhou as eleições no Estado de Vento luz. As manobras urdidas pelas elites conservadores detentoras do poder absoluto minimizaram os efeitos da derrota.”

 

                              (Música para a entrada da eminência parda - allegro ma non troppo)

 

                              - Generalíssimo! Hoje bati na porta antes de entrar.

                              (Generalíssimo, suspirando profundo) .

                              - É. Bateu mesmo. Mas não acha que depois de bater tinha que esperar que alguém dissesse: “pode entrar”? (mais suspiros e em tom de lamento) Que adianta bater na porta se não espera o convite?

                              - Generalíssimo... (interrompe fala e fica olhando espantado para o general)

                              - Por que esse olhar de espanto?

                              - Está diferente nessa roupa. É o senhor mesmo general?

                              - Então não está vendo? Sou deus. Alias, sou o deus. Não tive início e nem terei fim e no meio não terei mesmo princípios, se bem que disso ninguém duvida...

 

                              - Mas... Santidade... Sacro... Sacratíssimo... Como devo chamá-lo? (gaguejando e andando em volta do general com as mãos postas)

                              O generalíssimo responde em tom solene:

                              - Eu criei o céu e a terra e entre isso criei todo o universo, no qual coloquei seres humanos por mim criados... sou boníssimo, amantíssimo e outros superlativos. Aliás, tive um peixinho dourado que se chamava superlativo. Ele cometeu suicídio no aquário... nunca me recuperei desse trauma... Pode me chamar de...  pai. Mas, não se empolga muito. Se chamar de papai vai levar p******, Digerinos...

 

                              O assessor olhando para os lados, girando a cabeça acima e abaixo pergunta:

                               - Quem é Digerinos, divindade?

                              - Foi um fiel servo que existiu há muitos anos. Serviu seu imperador com fidelidade e dedicação. Até fazia coisas além da obrigação...

                              - Coisas?

                              - É Digerinos... coisas... coisas assim... mas vamos mudar de assunto. Como anda o ambiente no amado país que eu criei? Está tudo nos conformes?

                              - Belezinha, deidade... perdemos em Vento Luz, mas nossos formadores de opinião agiram rápidos e impediram que os fatos repercutissem negativamente para nós.  Foi milagre, mas agora já sei quem fez esse tal milagre. Estou diante dele...

                              (O generalíssimo e o assessor se olham. O assessor ajoelha-se e ergue os braços numa saudação. O general olha para cima com ar triunfante. Musica aumentando de volume começa a baixar com diminuição das luzes. Final da musica com o palco escuro. Pano encerrando mais uma das eleições em Zopema do Sul).

 

***

* Do livro " O bardo não usa mont blanc", sob heterônimo de Tosco Bardo

Exibições: 45

Respostas a este tópico

Conheço um país assim... bem parecido!

Trabalho de difícil consecução.

Parabéns!

Beijosssssssss

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