A MULHER DA FOGUEIRA



A eletricidade era um luxo de ricos na ilha. Os pobres contentavam com grandes tochas embebidas em óleo de palma que iluminava por alguns minutos a casa, mas eram rapidamente apagadas por medo do incêndio. As casas eram e muitas continuam a ser de madeira, material consumível e sempre que houvesse um descuido a consequência era fatal...

As noites de calor, que não eram poucas, quando o sono demora a vir com os seus sonhos ou pesadelos, passavam-se a boa parte na rua e por baixo de uma enorme árvore de nome “óca” a verem o “Tchiloli” ou a ouvirem os anciãos a contarem histórias ou a dançarem o “Danço Congo”. Geralmente as histórias eram fabulas e os heróis eram quase sempre “o tartaruga” e a sua mulher. No centro havia uma fogueira acesa, embora aumentasse o calor já quase insuportável dava a luz que precisavam e que não podiam dispensar.  

Ele não era negro como os outros da minúscula aldeia perto de vila de São João do Angolares. Uma aldeia que vivia praticamente autônoma, rotulados de angolares, comunicavam entre eles através de um dialeto de origens do continente africano e só recorriam ao português quando iam a cidade, coisa rara e o português que falavam sentia esta distância.   Da terra vinham a fruta-pão, o óleo e o vinho de palma e do mar o peixe e... Ele. Sim sabia que foi encontrado pelo pescador Zola numa pequena embarcação ao lado de uma mulher que já estava morta. O Zola levou-o e tratou dele e fez dele um pescador, como todos os da aldeia. Ele chamava-se Tarim, alias era o nome que estava escrito na pulseira e que o Zola fez questão de pedir que fosse lido.  

As poucas vezes que o Tarim passava a noite na aldeia era quando o mar, cansado, rejeitava dar de comer aos pescadores. Ele sentava-se muito perto da fogueira e fixava nela seus olhos e sempre via uma linda mulher, morena, de cabelos lisos e escuros toda adornada de flores, sorridente. De uma beleza impar e que parecia falar com ele. O Tarim julgava ouvi-la dizer:

-Amo-te! Espera-me, vou te encontrar...

Ele sorria de felicidade e hipnotizado ao poder do fogo, ficava toda a noite, prostrado a ouvir a sua própria história que não tinha nada a ver com a do seu povo adotivo.

O Tarim preparou a palha para a pesca do voador e outros materiais de pesca, aproximava-se a noite e foi a casa do Zola para irem pescar. Encontrou o Zola na cama e estava a tremer de febre, soube logo que ele estava com paludismo, podia viver ou não, é sempre incerto o destino e na ilha, todos sabiam, o paludismo regulava e regula a vida de todos. Não queria deixa-lo, mas o Zola foi peremptório:

- Vai, meu filho, teu destino te espera.

O Tarim partiu para a pesca e tão triste ia e tão sozinho e sem bússola depressa se viu a deriva.  Com os braços como único motor não demorou a sentir-se impotente e deixou a canoa ao sabor das ondas e dormiu...

Não soube quanto tempo esteve  a deriva só soube que acordou e estava a bordo de um enorme barco, pelo menos para ele era um enorme barco, e também para todos que o compara-se com a sua frágil canoa.

Soube mais tarde que o barco ia para Lisboa, onde o desembarcaram no cais de Sodré e deixado a sua sorte.

O chefe mandou parar e que se montassem a tenda. Era um grupo pequeno e nômada. O grupo esteve em Coimbra nos últimos dois anos. Depois chegou outro grupo e o chefe sentiu que se não afastasse iria se fundiria com o outro grupo e perderia a sua influência sobre os seus e resolveu sair a procura de outros ares. Sabia que em Algarve poderia ter dias melhores. Ali existia muitos turistas e ele era bom em dar espetáculos e as mulheres do seu grupo eram boas em cartomancia. Quer não gostaria de saber o seu futuro?

A Sara, de 15 anos de idade, era a filha do chefe e era solteira. Tinha um noivo, mas este desapareceu numa noite de luar com uma cigana tão bela como ela, filha de um chefe de outro grupo e segundo ouviu mais tarde foram para a França. Não importou muito por ter sido abandonada, nunca gostou verdadeiramente do noivo. Apenas aceitava-o, pois era o costume e tinha que respeitar. Mal acabou de se instalar e em Lisboa, resolveu sair e ir ver se conseguia algum troco, lendo sina. Acamparam perto do Cais de Sodré, que ela conhecia muito bem, das outras vezes que passaram, tanto de Sul para o Norte, como em sentido contrário.

Ela caminhou alguns metros e viu aquele rapaz sentado a dormir. Seu coração pôs-se a bater com força e por impulso aproximou-se e sacudiu-o.  

Tarim saiu para rua e estava literalmente perdido e sentou-se no chão. Não soube quanto tempo esteve sentado, pois adormeceu e sonhou. Sonhou com a mulher da fogueira. Acordou, melhor, foi acordado. Abriu os olhos e não pode acreditar no que via... Era ela a mulher dos seus sonhos...

A Sara observou o Tarim e o Tarim observou a Sara durante longos minutos e foi a Sara quem perguntou:

-Que fazes aqui?

-Não sei para onde ir, desembarcaram-me aqui, não sei onde estou, nem como regressar ao meu povo.

-Vem comigo, mostrar-te-ei o meu povo. Meu povo cigano.

Foram, a noite já viera e cobrira com o seu manto os últimos raios do sol, quando chegaram ao acampamento. O Tarim ficou deslumbrado com as tendas montadas em forma circular e no centro uma fogueira. A sua memoria levou-o a sua ilha e a sua aldeia. A música enchia o ar e tudo era encantador e ele entranhava.

A Sara pegou-lhe na mão e levou-lhe até o grupo que a volta da fogueira cantava e dançava. Apresentou-lhe ao seu pai e mandou-lhe sentar. Ela aproximou-se da fogueira e como que embriagada pela música começou a dançar bem perto da fogueira. Era tão bela e tão sensual... Até parecia que ela e o fogo se misturavam numa perfeita simbiose e o Tarim viu realizado o seu sonho, o sonho que sempre lhe acompanhou. Como se de uma tela se tratasse estava a sua frente “A MULHER DA FOGUEIRA”.

Tarim contemplava admirado tudo à sua volta, sorridente e nos seus olhos muita esperança, indagava a si próprio... – Serei eu um cigano? Será a Sara o meu amor?

 

Fim

João Pereira Correia Furtado

Praia, 28 de Agosto de 2017

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Tchiloli - Teatro popular da Ilha de S.Tomé. (imagem da internet)

Danço Congo - Manifestação popular da Ilha de S.Tomé. (Imagem da internet)

 

ÓCA ou ÓKA - Árvore de grande porte. Imagem da internet

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Respostas a este tópico

Linda publicação e a árvore é encantadora.

Muito obrigado!

Belíssimo conto querido amigo escritor João Pereira.

Repleto de mistério e reflexões, para ler e reler.

Agradeço muitíssimo por sua maravilhosa participação,

uma honra ter suas belas linhas enfeitando o Vida Cigana

Beijos

Janete minha amiga
Aqui sinto-me bem
Na verdade, como sabes
Este é um belo espaço
Tem tanta coisa para se inspirar...
E quanto ao conto, muito obrigado,

João

Pessoalmente..............

NADA que chegue ao prazer  e mergulho cultural que nos oferece a leitura do Escritor João Furtado em seus fantásticos contos !

Belissimamente ilustrado ofereces-nos novamente uma viagem única! GRATIDÂO!!

beijos de poesiaaaaaaa

Chantal Fournet

Maria José, bom dia e muito obrigado
Ao ler o teu nobre comentário
Refeito do espanto da sua beleza
Importa dizer que valeu a pena
Acreditar e escrever para poder lê-lo.

Jamais esquecerei as tuas dicas
Olha que espero outras e mais
Sempre a espera de poder melhorar
Envio o meu muito OBRIGADO neste abraço

João Furtado

Num misto de realidade e sonhos....pasmo!!!!

numa perfeição, sinto dialetos se mesclarem, as culturas ainda a se fundir...

Ai, que noite impávida, os candeeiros à óleo de palmas, a pesca escassa...representada pelo mar cansado...

Culturas que se difundem, nunca mortas, porém mais e mais vivas...que habitam corações a procurar pelo desconhecido...que estas raízes fortes, senão dizer vívidas,  habitam de sul ao norte,  por todo o meu país....

Belo, misterioso e brejeiro!!!!!

Esplêndido João Furtado é muito escasso para se dizer....

beijos


Lindo e belo comentário da LAIS MULLER
Agradavelmnte me faz sentir recompensado e
Inspirado para continuar a escrever e a imaginar
Sempre grato, quero dizer obrigado neste abraço que mando,

João

Elias muitas Gracias

Abraço,

João

Queridíssimo poeta e escritor João Furtado,

Como sempre, teu grande talento extravasa pelas linhas desse curioso conto: "A mulher da fogueira". Personagens e enredo, em perfeita harmonia. Cativante, a tua inspiração! Mas, o tema do certame é "Fogueira cigana" e, nesse sentido, sinto falta da presença cigana, que se deve atrelar à fogueira, aqui tão bem detalhada.

O fogo exerce um fascínio sem par no ritual cigano. A dança da mulher, ao redor da fogueira, é expressão milenar das heranças ciganas. Nesse evento, reverenciam e evocam os seus ancestrais, pedindo-lhes ditosas energias, para que possam usufruir uma vida longa repleta de esperança, coragem, confiança e prosperidade. Essa, a temática do nosso certame. Sendo assim, creio que possuis criatividade rica e suficiente para adaptar o teu maravilhoso conto ao contexto cigano.

Carinho, respeito e admiração, sempre.

Beijossssssssss

Querida amiga e mestre Silvia Mota

Sem duvida é aliciante o desafio
Importa aceitar e tentar cumprir
Levará algum tempo certamente
Vou tentar... Vou modificar
Imaginar e acrescentar a fogueira
Aquela que fascina o povo cigano.

Muito obrigado,

João

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