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  Coração Cigano, Sara

 

Olhava a fogueira chamejante. As fagulhas subiam para o infinito, confundidas com as estrelas... O coração batia acelerado ao som de violinos e violões. Os primeiros casais começaram a dançar sensualmente, elevando a libido seu corpo. Todas as suas células convidavam a bailar.

Não tinha um namorado nem prometido. Fora achada pelos ciganos caminhando por uma estrada e eles a acolheram. Procuraram pelos pais da menina nas redondezas, mas ninguém sabia de nada.  Apenas souberam que um homem havia sido morto por bandidos que o assaltaram e ficou apenas o corpo. Os ciganos levaram a menina e a criaram. Ela os amava, eles eram a família que conhecia.

Ela era linda, com os olhos negros, cabelos encaracolados. Parecia uma verdadeira cigana. Sonhava à noite com acampamentos e festas. Às vezes acordada tinha lembranças de um casal que a abraçava, e lembrava-se de um homem a levando ao colo com carinho.

Não se lembrava de seu nome, e a tribo a chamava de Sara. Pediram a proteção da padroeira, para que cuidasse dela e que encontrasse a família. Ficava olhando suas amigas aprenderem outra língua e o mistério das plantas.

Ela guardava as lições em seu coração com os mais velhos segredos e palavras. Sabia ver o destino nas mãos de suas amigas, mas não dizia nada. Sabia das tradições e que não era cigana. Em seu coração sofria, porque queria ser cigana. Vendo a fogueira, desejou ter um prometido, ter sua família e dançar para ele.

Afastou-se de todos e abraçou uma árvore pedindo a força da natureza e começou a bailar. Seu coração pedia alguém para amar e ser amada. Abriu os olhos e viu um belo cigano a olhando com ternura e desejo. Atraídos, se aproximaram e dançaram, tendo a lua por testemunha e as estrelas.

Sara sai de seu transe e, envergonhada, corre para o acampamento. Vai para sua tenda e adormece chorando. Sua protetora, a velha cigana Dalila, olha preocupada. Teme pela menina que tanto ama. Lembra-se do dia que a encontraram e ela lhe estendeu os braços e adormeceu. Cuidou dela.

Tinha um segredo que guardava. Em sua veste costurada encontrou uma moeda antiga. Sabia que revelaria sua origem quando o destino revelasse a hora. Pedira ao marido Iago que fizesse um medalhão para que Sare usasse na festa de Santa Sara Kalli, no dia da padroeira, quando estivesse indo a uma igreja com a imagem da Santa.

Ela lembrou que estava perto da festa, e perto havia uma igreja, e pediu as mulheres para irem lá fazer uma homenagem à santa. E assim aconteceu. Mas não sabiam se lá tinha uma imagem. A cigana Dolores disse “não importa, levamos a nossa!”.

Todas compraram um lenço para levar à santa. Dalila chamou Sara e disse “coloque seu vestido mais bonito, tem um presente para você levar e algo que é seu para usar.” E contou sobre a moeda que agora transformou em medalhão adornada por ouro, e uma bela corrente. Emocionada, lembra-se do cigano que dançara ao luar. Pensou em sua família e desejou saber sobre ela. Segura o medalhão e agradece Dalila por seu carinho e amor que sente e diz que em seu coração é a mãe que não conheceu e que a amara para sempre.

 O dia amanheceu ensolarado e os ciganos foram para a pequena cidade. Pelo caminho encontraram outros ciganos e disseram que lá tinha uma pequena imagem e que eram bem-vindos.  

Entraram na igreja felizes e depositaram os lenços e agradeceram. Sara pedia em seu coração para descobrir sua origem, pensava no cigano desconhecido e sentia dor por não ser cigana. Seu coração lamentava.

Mas, na despedida, o padre abençoa as ciganas e olha para Sara de maneira estranha. Seus olhos fixam-se no medalhão. Aproxima dela, a abençoa e pergunta  seu nome.

Dirige-se ao mais velho e os convida para ficarem para as comemorações da noite, com danças e canções pela comemoração de Santa Sara.

A noite brilha de tantas estrelas. É lua cheia. Novamente violino e canções. Sara junto a sua protetora olha os casais e sente novamente a dor da solidão. Vê novamente o belo cigano dançando com uma bela cigana. Suspira e seu olhar torna-se triste. Sente vontade de voltar ao acampamento, mas sabe que voltarão juntos.

Perdida em seus pensamentos, vê uma mão estendida convidando-a para dançar. Olha para Dalila e ela acena com a cabeça para ir se divertir. Seu coração acelera e a magia toma conta do par. Nunca uma noite passou tão rápido.

Na manhã seguinte, chega um senhor idoso e pede para falar com o chefe do acampamento.

Dalila é chamada para ir à tenda. Os mais velhos estavam reunidos e o estranho. Fala sobre Sara, como foi achada, o dia e onde estavam. O homem, emocionado, mostra a foto de um retrato muito parecido com Sara. Era de sua esposa e Sara seria sua neta desaparecida. Sua mãe era sua filha, e quando o pai de Sara viajava com a menina, fora assaltado, e a menina não fora encontrada. O padre da pequena cidade dissera ver uma cigana extremamente parecida com sua esposa e que usava um medalhão de uma antiga moeda. Pedia para ver a moça.

Dalila, feliz e triste, vai à tenda contar a Sara sobre o possível avô. A menina abraça sua mãe adotiva e fica sem saber se ria ou chorava. Parte dela queria conhecer seus parentes, mas seu coração era cigano, e chorava sabendo que iria embora, deixando para sempre o acampamento e os que amava e conhecia.

Assim ela vê seu possível avô. Olham-se. Ela está com o medalhão e ele tira do bolso uma moeda igual. O velho chora. Após tantos anos, encontra a neta. Mesmo se não tivesse o medalhão, sua fisionomia era a mesma de sua falecida esposa. Tinha os olhos da mãe, e algo lembrava o pai.

Pede à neta para ir com ele para casa. Agradece a todos por cuidarem de Sara, e assim aconteceu.

Diogo, avô de Sara, convida o acampamento todo para serem seus hóspedes pelo tempo que quiserem, e para Sara se acostumar à nova vida.

Dalila foi com Sara para a fazenda de seu avô. Quanto à sua mãe, tinha falecido de desgosto pela perda do marido e filha. Ela tinha primos, uma tia e tios.

Quanto ao seu nome, Mirtes, ficou apenas para documentos. Continuaria Sara.

Seu avô marcou uma grande festa para todos conhecerem a neta e convidou o povo que acolheu Sara. Convites foram enviados, e, na véspera, chegavam primos e tios ciganos. Uma grande fogueira, músicos e cantores ciganos convidados.

Sara estranhou alguns ciganos que não falavam a língua de sua tribo. Eram muitos.

Agradeceu ao avô, por quem já tinha afeto. Dalila conversava longamente com o avô, contando sobre Sara. À noite, chegaram serenamente com ruídos de acampamentos, crianças correndo, belas ciganas. Todos se vestiam como ciganos e confraternizavam.

Sara queria que fosse sempre assim e pensava no belo cigano. Os violinos tocavam e todos dançavam. Sara, perto do avô, sorria e era apresentada a todos. Olha surpresa para o belo cigano que abraça seu avô com intimidade e pede para dançar com ela.

Surpresa e feliz pela sua presença, dançam. Par perfeito e corpos em magia. A paixão exalava no ar. Galeno era seu nome. Ele diz que ama Sara e ela responde que também o ama.

Ele pega suas mãos e vai em direção ao pai, que também está na festa, e apresenta Sara, dizendo que quer se casar em breve com ela. Sara congela. Sabe que muitas tribos não aceitam casamentos com não ciganos. Mas o pai apenas sorri, e diz “vamos falar com o avô”. Sara, com medo, diz “o senhor deve saber que não sou cigana, mas amo o povo que me acolheu e respeito sua decisão”. Mas o pai de Galeno sorri e dirige a Diogo.

Sara pede a Dalila que vá com ela ao quarto e conta a Dalila. Pede que a ajude. Ela diz “o destino é estranho e cheio de pontas soltas. Não tema, será amada e feliz.”.

Vão para a sala e lá estão seu avô e o pai de Galeno. Pedem para irem lá fora com eles e Galeno se junta a eles.

Surpresa, vê o avô convidar a todos para se aproximarem e fala com os ciganos que falavam uma língua desconhecida em seu próprio idioma e depois diz a ela: “Minha querida você deseja casar com este jovem?” Encabulada, ela responde: “Se for de gosto do senhor meu avô e do pai de Galeno, sim. Sei que não sou cigana e sei das leis.”

Uma risada geral no acampamento. O pai de Galego diz: “Sim, tens razão, só concedo a mão de meu filho a uma cigana que foi prometida a meu filho quando criança. Filha de meu primo amado.” Sara empalidece, mas continua firme. Galeno segura suas mãos.

“Mas o nome de sua prometida não é Sara e sim Mirtes, uma bela cigana como sua avó e sua mãe, e ela está na minha frente. Abençoei esta união há muitos anos, e também seu avô. E agora, vamos dançar”. Risos e festas. O avô e o sogro abraçam o casal. Sara abraça o avô feliz. As explicações ficam para depois. Feliz, o casal dança, a libido e a magia se espalham no ar.

Seu coração de cigana geme de alegria, bailando nas fagulhas da fogueira subindo aos céus.

Dione Fonseca

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Respostas a este tópico

Bonito relato Dione. Surpresa no final.

Obrigada amiga

 jus e bom descanso neste final de semana.

Flor que eu plantei e tirei foto

Belo resultado. Bom Fim de Semana.

OI POETAS E CONTISTAS SEI QUE TERMINOU O TEMPO MAS QUIS POSTAR MEU CONTO

BJUS JANETE E A TODOS

Belíssimo conto querida amiga Dione Fonseca.

Maravilhoso do começo ao fim.

Mil aplausos para este encanto.

Obrigada por compartilhar no Vida Cigana.

Pena que o certame já finalizou 

Agradeço por nos presentear com tão primorosas linhas...

Muito criativo, gostoso de ler

Beijos

Beijos 

Obrigada meu amigo poeta. Bom final de semana e dias lindos

Uma bela história contada com magia verdadeira ou imaginada dedicada ao povo cigano que ainda se não sabe concretamente sua origem verdadeira .o encanto das festas de brilho e alegria tão próprias deste povo que canta e toca invocando sua Santa . Uma surpresa final que no decorrer da história já se previa . parabéns Dione 

Obrigada amiga. ,

 existem  versões sobre  a origem dos ciganos e sonos um povo misturado por diversas culturas e  nossa genética tem informações. Quem sabe o que escrevemos está em premido. Muito do que sonhamos e queremos pode ser  nossos  antepassados dentro  de nós. E quem sabe se aconteceu ou não. dentro de nós.

Quem sabe se baila em minhas células  chamados ciganos . Gosto de abraçar árvores e me sinto bem e tenho bisavó que tinha sangue celta. Ciganos me atraem . Talvez seja a liberdade de serem livres em seu caminhar ou dormires no campo e andarem sobe o luar. Talvez es eu seja também cigana. Conheci um cigano chamado Galeno  em minha infância e era lindo em sua montaria e quando eu o via gritava Galeno e ele me dava tchau. Eu era menina mas o achava lindo e nunca esqueci seu tchau em cima do cavalo. Minha cidade recebia bem os ciganos 

Bjus

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