Voz do mar. Da cachoeira em fúria.
O comerciante de água benta na cúria.
Dedos esguios dos bambus clamam
no solar ruído que os ventos cantam,
moldando a terra sob chuva que despenca
jorros d'água sobre a pobre e tenra avenca.

Desdenhar o mundo não é nada fácil -
É como um cego em seu mundo tátil. -,
em tudo a natureza enxerida se mete
e faz a parte que lhe compete :
- O bem e o mal que se repetem
no vagar eterno das ruínas.
Tudo é viagem, cumprimento de sinas,
imbecis gargalhadas da multidão de iguais
em meio putas que a satisfaz.

E a vida é tão pouca. Choca em meus dentes
arranhando, salivando repentes,
roendo noites, autorizando açoites
num feroz combate. Fecha a porta e bate,
encara o vento, fura o agora,
modifica humores, rumina, joga fora.

Alheio ao mundo, vivendo ao léu,
na beira da estrada, exposto ao céu,
segue o cão sem roupas ou malas,
sem sonhos de atravessa-la.

Será exemplo ? Tem história ?
Será que sofre pela vida simplória ?

Ah... Essas questões !

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Comentário de María Cristina em 19 fevereiro 2017 às 19:50

Son siempre admirables tus poemas poeta Paolo!!!! Es deleite leerte!!!

Comentário de Mauro Martins Santos em 17 fevereiro 2017 às 23:11

Prezado amigo e grande escritor-poeta-pensador

Jogas as palavras como fácil embaralhas as cartas, e sempre como iluminado prestidigitador terminas brincando a dizer as coisas mais sérias.

Nesse clima deixo-te trechinhos do grande poeta concretista paranaense Paulo Leminski :

TRANSPENUMBRA

(...)

página ó página casa materna

onde encontro sempre espanto

o mesmo sempre manso branco

quando penetro numa caverna

ESTRELAS FIXAS

(...) 

Rimas mil girem vertigens,

sinto medos de existir.

Estes versos existirem,

já não preciso sentir.

[In Toda Poesia - Paulo Leminski - Companhia das letras, páginas 264 e 268]

Comentário de Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sílvia Mota Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ em 17 fevereiro 2017 às 15:38

Comentário de Lúcia Cláudia Gama Oliveira em 17 fevereiro 2017 às 11:04

 Sempre interessante ler-te, querido mestre!

 " Ah... Essas questões"!

 Aplausos.

 Bjs

Comentário de Mônica do S Nunes Pamplona em 17 fevereiro 2017 às 3:41

Tais questões que permitem, grande reflexão.

Mas a questão é... Como chegar à uma conclusão? Se a cada resposta sempre virá acompanhada de outra pergunta?

Eis o mistério do poeta. A encantar com suas grandes obras em veemência! 

Efusivos aplausos, por mais esse.

Bjssss

Comentário de Janete Francisco Sales Yoshinaga em 16 fevereiro 2017 às 11:46

Para ler, refletir...

Só bons poetas conseguem em um só texto abrir vários horizontes.

Foi o que li aqui, em cada linha uma reflexão profunda...

Aplausos

Beijos

Comentário de Lais Maria Muller Moreira em 15 fevereiro 2017 às 22:12

Este Paolo foi mesmo de queimar as pestanas...

Forte, enfático, verdadeiro...artístico sem dúvida...

mas jorram as palavras com tanta naturalidade (que se pode sentir)

que até parece uma conversa franca ...de amigo maduro ... analisando uma complexa situação!!!!

Saí enriquecida!!!!

Bravo!

beijos

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