Mergulho: um poema carcomido por cracas, ostras e nereidas.

Mergulho

J. A. Medeiros da Luz

Segredos há que pairam submersos

Lá dentro do pelúcido mar Egeu,

Com seu verde esmeraldino salpicado

De fagulhas momentâneas suscitadas

Da união do bafejar forte de Éolo,

Com setas de cristal do mesmíssimo sol

Que liquefez de Ícaro

(Aquele afoito, alado doidivanas)

A mais preciosa das aspirações:

Ganhar a liberdade pelos ares!

 

E neste nosso século, em que até

Súcubos e íncubos, em despudor,

Passam por castos infantes de candura

Pondo-os em cotejo: a uns dirigentes,

Majestades na sua delinquência;

A uns nada judiciosos ditos-cujos

– Dada a desnecessária vênia –,

Bandoleiros de togas negras, doutorais;

A certos plutocratas de bancas virtuais,

Que metem medo até em Belzebu.

 

Neste século assaz estranho (repito)

Quem mergulhar, por lazer ou por ofício,

Em busca de fatos meritórios

Nas águas do Egeu, em certo ponto,

Em se aproximando, cautelosamente,

Pode ser-lhe dado contemplar,

Entre emaranhado de algas balouçantes,

Uma plêiade de crustáceos a marchar

Assim, de banda, de fasto e de frente,

Sobre ombros oblíquos, carcomidos,

Sobre a cabeça de um colosso pétreo,

Resíduo que é (como outros tantos)

De antiga e arrogante civilização.

 

Pois que é feito, afinal,

Do augusto César que foi o modelo

Desse colossal herói, que era,

Antes desta nossa atribulada era,

Um auriga de pedra, piloto inconteste,

Como o deus Hélio a açoitar corcéis alados,

Hoje ruínas de granito sem caudas, sem cabeças?

 

Quer seja ontem ou hoje só nos sobra

Impermanência enterrada na vasa, na areia.

Ruína do orgulho e da vaidade humanos

Que lá se deliquescem na penumbra,

Na fumaça das horas, dias e milênios...

 

                               Ouro Preto, fevereiro de 2018.

Do livro: Martelo de cristal, a sair pela Jornada Lúcida Editora.

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Comentário de Neuza de Brito Carneiro em 11 fevereiro 2018 às 21:12

Não acho que seja birra, mas os versos soam como nascem, ou seja, do coração, sem preocupação com técnicas. Pura autenticidade.

Comentário de José Aurélio Medeiros da Luz em 7 fevereiro 2018 às 22:32

Cara Neuza Carneiro: Obrigado pela visita e apoio.

A boca parece que realmente se entorta com o uso do cachimbo (metaforicamente falando, já que muito entusiasticamente sou avesso ao tabagismo): mesmo em poemas sem metro fixo (como este em tela) a gente deixa escapar uns decassílabos heroicos e alexandrinos. Embora goste desse último metro, uso pouco. Agora, o que uso menos ainda é rima, especialmente ao fim do verso. Por vezes gosto de usar a mais discreta rima soante, ou rimas permeadas no interior dos versos. Pura birra essa com rimas, que planejo abrandar...Embora seja um tanto desafiante burro velho pegar trote.

Comentário de Neuza de Brito Carneiro em 7 fevereiro 2018 às 17:31

Já vi que você é fã da mitologia e de versos alexandrinos. Poesia profunda. Parabéns.

Comentário de José Aurélio Medeiros da Luz em 6 fevereiro 2018 às 7:03

Meus caros Elisiário, Elias e José Carlos:

grato pelas gentis palavras. Talvez este "estágio helênico" seja efeito colateral da uma leitura atual, pois estou a ler, finalmente, nos momentos vagos, a velha [Divina] Comédia do Signore Dante (na edição bilíngue da Landmark, com a primorosa versão de Vasco Graça Moura). A tônica deste meu poemeto carcomido de cracas e maresia virtuais é que, por maior que seja a empáfia de indivíduos ou de povos, ao fim e ao cabo seremos apenas "ruínas de granito sem caudas, sem cabeças", quando muito. Abraço do j. a.

Comentário de JOSÉ CARLOS RIBEIRO em 6 fevereiro 2018 às 6:37

Uma verdadeira magia, lindo texto

Comentário de Elías Antonio Almada em 6 fevereiro 2018 às 2:15

Comentário de Elisiário Luiz em 5 fevereiro 2018 às 23:49

 Muito bom a este seu estágio helênico poeticamente me reportar, quem sabe eu com suas aplicações possa breve me inteirar, parabéns! ...Fique Bem!

Comentário de José Aurélio Medeiros da Luz em 5 fevereiro 2018 às 21:48

Pois é, cara Margarida:  por vezes me defino (com pequena dose de autocomiseração) como um caipira helenizado!  Não podemos (e nem queremos, !) negar nossas raízes pessoais, mas também não é sensato negarmos aquelas nossas raízes culturais que transcendem ao indivíduo.  E, se tal é, a gente aproveita para dar recados encapsulados na roupagem tacanha do passado; recados do presente, mirando, contudo, o futuro... Abraço e obrigado pelo incentivo.

Comentário de MARGARIDA MARIA MADRUGA em 5 fevereiro 2018 às 20:10

Poeta José Aurélio mergulhou fundo. Requintados versos carcomidos.

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