Minha cantiga brasilo-galaico-portuguesa

J. A. Medeiros da Luz

 

Mudam-se os ventos, se mudam

As nuvens, tôdolos tempos.

E na ermida da montanha

Houve eu vista de vós

Num dia de procissão,

Houve eu vista de vós.

E fremosa mia senhor

Desde lá non ouso a al

Haver-lhe meu bem querer.

E se, pois, non me queredes

Em grã coita me meti,

Em grã coita me meti.

 

Mas nestas plagas, amiga,

Onde quedo a trobar,

Non hay nibellungos cá

Na floresta, mia senhor.

Ai, só hay mil caiporas et sacys.

 

Em tão longínqua quadra eu procurei

O lirismo entre espinhos — e vos encontrei.

Assim, ó doce Emerenciana,

Farei a nossa esteira das fibras de tucum,

Forjaremos lá o acalanto de pequena

Chama inextinguível, ao pé de nosso leito.

No mais ermo casinhoto,

Tendo por endereço explícito:

“Linha de talvegue, sem número; Ilha do Luar”,

Seremos serenos ao sereno, dona mia.

 

Mas nestas plagas, amiga,

Onde quedo a trobar,

Non hay nibellungos cá

Na floresta, mia senhor.

Ai, só hay mil caiporas et sacys.

 

Cruélcia, vejo-vos antanho

Pondo-vos a rir, inconsequente...

A mordiscar o lábio inferior com graça

Na esquivança falsa das conquistas.

Vós que — no romancear de Bernadim Ribeiro —

Fazíeis vastos estragos,

Novos fazeis ora nest’outro coração?

Pois, Cruélcia, por que perpetrais tal?

E com jeito de quem não quer nada

Atirastes-me pela janela, de passagem,

Dois daqueles coquetéis Molotov

Bem dentro dum extenuado coração.

 

Mas nestas plagas, amiga,

Onde quedo a trobar,

Non hay nibellungos cá

Na floresta, mia senhor.

Ai, só hay mil caiporas et sacys.

 

 

Em remota, abstrusa, escuridão do dia

Duas estrelas fagulhavam sem cessar:

Eram seus dois olhos a me mirar,

Derramando galões de perfume em minh’alma.

Pois, no brilho de carvão-de-pedra

Desses seus acesos olhos

Empoeirei-me todo; com o que

Meu sorriso transmudou-se então

Um tanto mais branco para voss’mercê.

Porém hoje no baile da vida verterei, à sorrelfa,

A taça, às ocultas, sem tragá-la, só porque

Na superfície deste vinho não há mais

— Em meio às tremulações dos candelabros —

Não há um pingo do reflexo de você.

 

Mas nestas plagas, amiga,

Onde quedo a trobar,

Non hay nibellungos cá

Na floresta, mia senhor.

Ai, só hay mil caiporas et sacys.

 

Terna Moema, langorosa,

Seu nome, morena, lembra-me o daquela

(Tal como você, bela) Iracema.

A qual, em doidíssima paixão,

Desertou de sua tribo, sua gente,

Para além do azular de serra no horizonte.

Mas hoje na memória só retenho

Um beijo com o inefável ressaibo de você,

Que seus lábios sabem mais que o mel do Himeto

— Não esqueço.

 

Mas nestas plagas, amiga,

Onde quedo a trobar,

Non hay nibellungos cá

Na floresta, mia senhor.

Ai, só hay mil caiporas et sacys.

 

Na viagem de ônibus, madrugada,

De súbito, perfurando vidraças, numa curva,

A lua, deusa por demais insana,

Pôs-se a lamber-lhe os cabelos,

Justo dez segundos antes de eu a contemplar.

Foi, pois, assim que Hélida, entre penumbras,

Adentrou-me a existência chã,

No dobrar de uma esquina do passado.

 

Mas nestas plagas, amiga,

Onde quedo a trobar,

Non hay nibellungos cá

Na floresta, mia senhor.

Ai, só hay mil caiporas et sacys.

 

Noutra cena tocante, na galáxia,

Em perdida órbita pelo cosmo,

Já tu voas, menina, eis que tu voas

Dentro de nave púrpura metálica,

Por sobre picos, desertos e planícies,

Demandando vórtices de antimatéria,

Jorros de energia multidimensional,

Dessabendo tua exata destinação.

E Lin perder-te-á por fim, te perderá,

Em mais um sonho natimorto no quadrante,

Resultando, simplesmente, que

Uns sorrisos jamais resplenderão,

E não se entremesclarão com os gorjeios

De aves migratórias aos montões,

Em demanda de outros chapadões.

 

Mas nestas plagas, amiga,

Onde quedo a trobar,

Non hay nibellungos cá

Na floresta, mia senhor.

Ai, só hay mil caiporas et sacys.

 

Conquanto em suma soledade,

Escreverei naquelas noites

— Frígidas noites uivadas de ventos,

Nigérrimas 

E babujadas de neblinas —

Mais de mil páginas encorpadas

De um elucidário da paixão.

E as auroras sempre virão a aquarelar

As vidraças de nossa morada.

E na urdidura de nossas vidas

Agendaremos o encanto simples

De simples permuta de olhares.

E na órbita de seus olhos, desde então,

Passarei a orbitar como satélite

(Danem-se Menelau, Páris, Agamênon),

Minha agridoce Helena De...stróier!

 

Mas nestas plagas, amiga,

Onde quedo a trobar,

Non hay nibellungos cá

Na floresta, mia senhor.

Ai, só hay mil caiporas et sacys.

 

Bem sei que, nesse tempo mítico d’agora,

Não irás, Betina, ao distante fontanário,

Com bilha de cerâmica mourisca,

Buscar a fresca água da montanha,

Que as folhas rijas do freixo, da embaúba,

Capturam das névoas da manhã

E depositam sobre os seixos da ravina;

Não; irás ao shopping center torrar grana.

Betina, tu bem sabes o que queres...

E em grã coita eu

Resido, acanhado, em um desses

Mil arrabaldes que gravitam

À volta de ti, nesta gigantesca aldeia,

Ficando-me a lição que lhes repasso:

— Humanos, passai ao largo,

Quando de Amor a sombra avistardes,

Como aqueles bois da ribeira, ao ver sucuri!

 

Mas nestas plagas, amiga,

Onde quedo a trobar,

Non hay nibellungos cá

Na floresta, mia senhor.

Ai, só hay mil caiporas et sacys.

 

Mas nada está de todo embananado,

Pois que, na estratigrafia sentimental,

Sequências ritmadas da desilusão

Alternam-se com fitilhos de esperança.

Eis vem assim Adélia, a perfumosa!

Com seus olhos de ébano a mirar o mundo.

Por ela, na Fontana dei Trevi, arremessarei:

Meus bens, meu fone celular de marca boa,

Alguns níqueis, minh’alma e meu coraçon.

 

Mas nestas plagas, amiga,

Onde quedo a trobar,

Non hay nibellungos cá

Na floresta, mia senhor.

Ai, só hay mil caiporas et sacys.

 

Qual sua melodia, tonto coração?

Será por decassílabo qualquer

Ou redondilha maior?

Revelar-se-á ele, numa mascarada

A que, por ventura, for intimado,

Transfeito no mais galante mosqueteiro,

Evadido (sabe Deus de que maneira)

Dumas amarelentas, carcomidas cenas,

Suscitadas da pena de Dumas, ou de quejando,

Entre trezentas páginas mui trepidantes 

De algum capa-e-espada bolorento?

E em tal longínqua tarde do futuro

Por que diabo, Mary Agnes, sorrindo,

Tu irás — certeza tenho —, entre piscadelas,

Flertar com ele, feito dois estranhos,

Ao cruzarem-se no 47º andar, no elevador?

 

Mas nestas plagas, amiga,

Onde quedo a trobar,

Non hay nibellungos cá

Na floresta, mia senhor.

Ai, só hay mil caiporas et sacys.

 

Confesso-lhe, Adélia cara minha,

Que, usando borzeguins de quilograma,

Sigo cá em marcha infrene,

Nesta busca não assim tão promissora,

Perseguindo umas mui buscadas pérolas

— Dentro das areias dum deserto! —,

A escavoucar à caça

De meus muiraquitãs da sorte,

Em pleno vale do Anhangabaú,

Em que pese o venerável cavalheiro

De nome Venceslau Pietro Pietra

(Peruano de estirpe, como Dante,

Florentina, ou coisa assim).

 

Mas nestas plagas, amiga,

Onde quedo a trobar,

Non hay nibellungos cá

Na floresta, mia senhor.

Ai, só hay mil caiporas et sacys.

 

Ó Heliodora, rainha da esquivança;
E meus apelos a caírem em saco roto,
A ficarem pela margem da estrada.
A assim persistir, Heliodora, temo me flagrar
Jungido ao destino infrutuoso
De tão somente me exceler
Na arte de perseguir sonhos, loucamente,
Com uma daquelas antigas redes
Empregadas, com astúcia e artimanha,
Para capturar borboletas...

Mas nestas plagas, amiga,
Onde quedo a trobar,
Non hay nibellungos cá
Na floresta, mia senhor.
Ai, só hay mil caiporas et sacys.

Pois com vosso bem semelhar só cuido

— Havendo vós tantos nomes e um só —

Em vos render preito e o mais,

Pois que, no mais,

Mudam-se os ventos, se mudam

As nuvens, tôdolos tempos.

Des’ que na ermida perdida

Lá no cimo da montanha

Houve eu vista de vós

Num dia de procissão,

Houve eu vista de vós.

E fremosa mia senhor

Desde lá non ouso a al

Haver-lhe meu bem querer.

E se, pois, non me queredes

Em grã coita me meti,

Em grã coita me meti.

  

                              

Ouro Preto, fevereiro de 2018.

Do livro: Martelo de cristal, a sair pela Jornada Lúcida Editora.

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Comentário de José Aurélio Medeiros da Luz em 3 março 2018 às 13:47

Obrigado pela gentileza do seu incentivo, meu caro Críspulo. Ainda mais, quando o poema aborda parcialmente um falar quando o português e o castelhano eram ainda mais (que hoje) "romances irmãos", e mal saídos das barrancas do Lácio.

Abraço. j. a.

Comentário de Críspulo Cortés Cortés em 3 março 2018 às 13:19

Comentário de José Aurélio Medeiros da Luz em 2 março 2018 às 11:00

Obrigado, caro Elisiário: bom ver que a nossa "última flor do Lácio", desde os suas primeiras pétalas até a sua atual configuração, com as mil acresções de África, América e Ásia, ainda consegue fertilizar-nos a imaginação. Abraço do j. a. (esse velho vaqueiro do cerrado, com a bruaca cheia duns riscados, ao invés de patacos amarelos...)

Comentário de Elisiário Luiz em 2 março 2018 às 0:33

 Quão bom ter-te lido caro amigo...me enriquecendo neste monte com misturados dialetos parabéns  Fique bem!

Comentário de MARGARIDA MARIA MADRUGA em 1 março 2018 às 22:12

Bons tempos que tínhamos literatura farta. Obrigada mais uma vez.

Comentário de José Aurélio Medeiros da Luz em 1 março 2018 às 21:55

Eu é que agradeço o "dedo de prosa", cara poeta Margarida Madruga:

Este poema "fora dos mancais" me deu a oportunidade de fazer uma desajeitada homenagem a alguns dos grandes da escrita: Bernardim Ribeiro (1482? — 1552, com seu livro de cavalaria "Menina e Moça"), os nossos José de Alencar (ah, aquela de lábios de mel!) e Mário de Andrade, com a busca do muiraquitã de Macunaíma, furtado pelo Dr. Venceslau Pietro Pietra ("súbdito do Vice-Reinado de Peru, e de origem francamente florentina, como os Cavalcantis de Pernambuco", segundo o impagável capítulo: Carta pras Icamiabas). Sem contar a homenagem ao mítico Homero, com sua guerra por uma tal de Helena de Tróia, e ao velho Dante.

Abraço.

Comentário de MARGARIDA MARIA MADRUGA em 1 março 2018 às 19:40

Nunca fui boa aluna em latim.

Agradeço imensamente o carinhoso retorno à minha dúvida e o engrandecoimento do meu saber.

Abraços.

Comentário de José Aurélio Medeiros da Luz em 1 março 2018 às 19:27

Olá, caras Neuza e Margarida:

Obrigado pela visita e comentários. As palavras arcaicas que usei foram do galaico-português, nossa língua ainda mal saída dos mosteiros da Galiza e da Lusitânia...A ortografia, entretanto, na esmagadora maioria dos casos, atualizei, para ficarmos mais dentro das normas atuais. Usei também um ou outro fragmento dos cancioneiros disponíveis, para manter a verossimilhança, apesar do anacronismo (que é usualmente citado, nos manuais de estilo, como defeito grave).

Para mim, uns dos vocábulos  mais estranhos no português arcaico são: al (outra pessoa, outra coisa, latim puro), ren (coisa, alguma coisa, nada; também latim puro) e sendos (de cada um),  e aquende (aquém).

Abraços do j. a.

Comentário de Neuza de Brito Carneiro em 1 março 2018 às 16:15

Você fez cantiga com o português arcaico ou usou e espanhol nos coros? Ficou bem criativa.

Comentário de MARGARIDA MARIA MADRUGA em 1 março 2018 às 15:17

Poeta José Aurélio,

Diverti-me com o seu comentário.

Em relação a sua cantiga eu queria entender o idioma de alguns versos. Fui ao Google. Ele me envergonha.

Sabe menos do que eu. Não me esclareceu que era um idioma medieval. Será? É português arcaico?

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