Aspiração

J. A. Medeiros da Luz 

Foi quando, bem exausto, o velho prospector

Pousou, na areia sobre frescos pedregulhos,

A sua avelhantada bateia – com que

Sonha há quarenta anos, ou mais, bamburrar –,

Tendo aquela torrente a lhe lamber, tão frígida,

O seu costado cônico, bem calejado,

Com bossas e amassados pelo uso seu.

 

Aprisionada dentro de seu largo bojo

Uma mísera lâmina desse ribeiro,

Mui cansada da vida deslizante e líquida,

Só, paulatinamente, também descansou.

Repouso ondulante dum espelho límpido,

Elipse horizontal a bordo da bateia.

 

E à orla do regato, só tal melodia

Das águas a fluir, do tempo a escoar,

Fazendo desse córrego o leito precioso

Valendo mais que ouro, sim: valendo mais.

 

Súbito o mais dourado jogo de imagens:

Ao invés de cem pepitas no fundo, se via,

À tona, um reflexo liquefeito e raro,

Amarelo, amarelo, com sombra amarela,

De grande borboleta, que, também cansada,

Pousou lá, vacilante, à borda da bateia,

Talvez para sonhar, no entreabrir de asas,

Com mundos fabulosos plenos de dulcíssimo

Néctar de muitos, muitos ipês amarelos.

Ouro Preto, fevereiro de 2018.

Do livro: Martelo de cristal, a sair em 2018 pela Jornada Lúcida Editora.

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Comentário de José Aurélio Medeiros da Luz em 14 fevereiro 2018 às 8:29

Obrigado, cara Margarida.

Talvez em outra era – que não esta nossa – a beleza de umas asas de borboleta venha a ter o mesmo valor que uma pepita de ouro, pois ambas são manifestações fascinadoras de nosso mundo sublunar. E que dizer então – já no mundo humano das metáforas – daquela libélula de asas de vidro etéreo chamada esperança?

Abraço do j. a.

Comentário de MARGARIDA MARIA MADRUGA em 11 fevereiro 2018 às 21:42

Linda descrição poética.

Comentário de José Aurélio Medeiros da Luz em 11 fevereiro 2018 às 5:20

Obrigado, caros camaradas Elisiário Luiz e Elias Almada:

A tônica desse poema é o valor motivacional de nossos desejos e anelos, por improváveis que pareçam. Neste nosso orbe redondinho, muito das realidades mais palpáveis, ao fim e ao cabo, se revelam como sonhos; assim como disse o velho padre Vieira (1608 – 1697), sobre os arco-íris: "são enganos corados e ilusão da vista"... É aquela abordagem da filosofia da Índia, da deusa Maya – a ilusão do mundo físico –, de que o filme Matrix faz uso extremo e distópico. E, pensando bem, quem sabe se os Vedas não estavam com 58,76 % de razão?

Abraço do j.a.

Comentário de Elías Antonio Almada em 11 fevereiro 2018 às 3:54

Comentário de Elisiário Luiz em 10 fevereiro 2018 às 20:54

 Quão intimista valer caro amigo ... pois bem um big e elaborado trabalho! Fique bem!

Comentário de José Aurélio Medeiros da Luz em 10 fevereiro 2018 às 15:29

Eis que, usando o velho processo, aglutino retalhos da memória de cenas vividas nos ribeirões e rápidos do passado, em busca (felizmente apenas recreativa) de pepitas com amigos, com pouco ouro no carumbé e partilhando a areia úmida com borboletas sedentas e buliçosas. Usei como cola o velhusco metro alexandrino, com aquela cesura na sexta...

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