O sono do sol sombreava a cidade
antecipando a noite, alegrando a noiva,
arrumando a puta, açambarcando a claridade.

Orei aos mortos, aos marinheiros dos portos,
a fúria dos defuntos doces e azedos, juntos,
ao sangue nas armas, a liberdade atravancada.

Ela se move como deusa sobre saltos, destreza.
Seios empinados, olhos de ébano arregalados,
sinuosos glúteos malemolentes, dentes contentes...

Na penumbra da rua imunda,
o ar sem vida outrora tida.
Azulfundo, rasoprofundo, malgradomundo.

Sentei no primeiro degrau acima do nada.
Golfei palavras amarfalhadas, arrotadas,
enlameadas, em frases vomitadas.

O lazer felino das panteras,
o cheiro azedo das feras,
sem novidades. Velhas quimeras.

A face coral do andar de cima
e os deuses ao meu lado. Parece sina.
- Velha rica ! Sovina !

Não quero vinho. Quero cana.
Estou em Copacabana - lar dos sacanas,
das putas e dos sacripantas.

Eu e meus leopardos
carnalmente saciados,
pela sorte abandonados.

Sorte é o azar vestido de gala,
ou simples refluxo d'água:
- Vem e vai, mais nada.

Nos baixios se aguarda a madrugada -
hora zero da viúva excitada
e do proxeneta dividir migalhas.

Nelson Rodrigues romanceou a verdade,
a calamidade, a autêntica marginalidade
- com doçura, extravagância e beldades...

Arrependa-se na noite. É tiro e queda.
Estimule a madrugada vadia, espia.
Extraia dos olhos as picardias...

Pixadores, grafiteiros e outros atores,
arrancando aplausos, arrecadando valores.
Inês é morta ! - Onde estão os andores ?

Espelhos sugam energias,
congelam imagens. Sabias ?
Derivativos, sugestões, antropofagias...

Oswald de Andrade arrancou a cueca de São Paulo.
Coloriu seu cinzento lúdico, meio ralo
e nos burgueses bunda, botou no rabo.

- "Conheceis e temeis" ! - Diz o pastor
sobre um Deus que mete medo,
castiga, põe no fogo. Um horror.

Subo mais um degrau do nada. Sinto calor.
Conjeturar sobre Deus dá briga.
Espinosa que o diga. Ele ? - Deus nem liga !

O afeto afeta e dá idéias.
É da vida a melopéia
e dos poemas a logopeia...

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Comentário de Paolo Lim em 4 novembro 2017 às 20:56

Eita Poeta Malume do Brasil. Seu aval me garante, alegra, emociona e deixa feliz. Muito obrigado ! Abraços do amigo Paolo.

Comentário de Paolo Lim em 4 novembro 2017 às 20:54

Maria-José Chantal F. Dias: Seu original carinho para comigo não só me enternece como orgulha. Bjs do seu fã, Paolo.

Comentário de Poeta Malume do Brasil. em 4 novembro 2017 às 20:16

Parabéns poeta pelo belo poema! Poeta Malume do Brasil.

Comentário de Maria-José Chantal F. Dias em 4 novembro 2017 às 13:04

já li e reli pois a cada leitura seu relevo surge !

AMO DEMAIS LER-TE POETA PAOLO LIM.......

Grata por esta MADRUGADA

cheia de palavras fortes inesperadas grandiosas na mistura que com elas fazes!

Sou como a Monica Pamplona: Furo o sistema para te ler!

Beijos de poesiaaaa

Chantal Fournet

Comentário de Paolo Lim em 30 outubro 2017 às 9:13

Mônica do S Nunes Pamplona: Você sabe o quanto me é importante a sua presença... Estou aliviado e arretadamente satisfeito com sua aprovação. Beijos neste coração de poeta maior. Sou seu fã. Paolo.

Comentário de Mônica do S Nunes Pamplona em 30 outubro 2017 às 1:46

Não estava conseguindo acessar nesta página. Mas, tanto que insisti que consegui.

Sabia que se tratava de mais uma grande obra tua. Não queria perder.

Agora, de repente, penso que o que quer que eu diga... não direi o cabível.

Pois diante desse escandaloso e belíssimo cântico para a madrugada, cabem apenas efusivos aplausos, para a tua poesia.

Parabéns, por mais essa nobre obra, meu querido.

Bjsss.

Comentário de Paolo Lim em 5 outubro 2017 às 21:46

Antonio Cabral Filho: Obrigado pela presença e comentário. Abraços do Paolo.

Comentário de Paolo Lim em 5 outubro 2017 às 21:45

MARGARIDA MARIA MADRUGA: O seu entusiasmo me orgulha. Muito, muito obrigado, mesmo ! Bjs do Paolo.

Comentário de Paolo Lim em 5 outubro 2017 às 21:40

Waulena d'Oliveira Silva: Fico feliz pela sua leitura. Um beijo do amigo Paolo.

Comentário de Antonio Cabral Filho em 5 outubro 2017 às 21:19

Bravo Paolo!!

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