Estilicídio

J. A. Medeiros da Luz

 

Outrora, em pequenino, o lento gotejar

Da chuva dos beirais de todos os telhados

Levava sortilégios, mistérios da vida

Pra dentro do aconchego morno de meu quarto.

Mil gotinhas cadentes como diminutos

Meteoritos feitos de cristais e linfa

Ferindo a transparência das vidraças nossas.

Minha almazita, porém, laborava em erro,

Tendo por certo que a vida em toda casa

Compartia o encanto, a meiga fantasia

Igual minha família enfim compartilhava.

 

Que era das vis agruras que a pobreza imprime

Nos coitados daquele bairro beira-rio?

Que era dos temores, vendo a enxurrada

Carrear, na noite, coisas, vultos e embalagens.

Tal quem assopra plumas como brincadeira.

E os trapos no arame a se contorcerem,

Quais flâmulas molhadas em meio à tempestade?

Foi só muito depois que a esquiva borboleta

Chamada de empatia veio enfim lamber

O néctar matinal do simples coração.

E desde essa passagem o mundo coloriu-se

De cores, tanto leves como carregadas.

Suscita-nos, porém, a solidariedade

As botas da esperança para a caminhada.

É como abrir as mãos para a ave, antes ferida,

Librar-se no infinito de azul celeste,

Na mágica demanda do futuro rútilo

Sob domínio daquela deusa — Liberdade!

 

                              

Ouro Preto, fevereiro de 2018.

Derradeiro poema do livro: Martelo de cristal, a sair pela Jornada Lúcida Editora.

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Comentário de José Aurélio Medeiros da Luz em 2 março 2018 às 21:42

Fico  deveras feliz pela empatia demonstrada, cara Maria Cristina, de um modo pictórico tão gentil. Quando falamos de infância sempre estaremos falando com o coração. Abraço.

Comentário de María Cristina em 2 março 2018 às 21:35

Comentário de José Aurélio Medeiros da Luz em 2 março 2018 às 10:01

Obrigado cara Sílvia, pelo generoso comentário. Vi (e baixei) seu texto sobre os encantos do soneto e de sua boa lavra. Realmente elucidativo e nos instiga a que usemos essa ferramenta poética mais vezes.

Geralmente, quando uso controladamente o metro, dou importância — por viés pessoal — para as cesuras e para a sílaba poética final, deixando ao talante do ritmo natural da língua as subtônicas do verso. Dei uma revisada nos versos do poemazinho em tela, e não achei propriamente fuga da cesura na sexta sílaba e na décima segunda, que caracterizam o alexandrino. É que em meu estilo pelejadinho tem que lançar mão daquelas diabruras de versificação para fechar o ritmo. Então, no estruturar os versos considerei o seguinte para mantermos a cesura na sexta e tônica final na décima segunda sílaba poética:

— 6o. verso da primeira estrofe: temos que manter o hiato (diérese) em "meteoritos";
— 8o. verso da primeira estrofe: temos que fazer a elisão em "Minha_almazita", mas manter a separação em "em erro";
— 9o. verso da primeira estrofe: forçar a tônica em "que" (que, a rigor, seria sílaba átona);
— 1o. verso da segunda estrofe: temos que fazer a elisão em "Que_era";
— 3o. verso da segunda estrofe: temos que manter a separação em "Que era", a elisão em "vendo_a enxurrada";
— 4o. verso da segunda estrofe: devemos "comer o hiato" (cinérese, igual ao sapo caruru da beira do brejo do Sr. Bandeira) em "Carrear" e fazer a elisão em "e embalagens.";
— 5o. verso da segunda estrofe: manter o hiato interverbal em "quem assopra";
— 6o. verso da segunda estrofe: temos que fazer a elisão em "E_os trapos" e dois hiatos em "no arame a se";
— 7o. verso da segunda estrofe: temos que fazer a elisão em "em meio_à tempestade?"
— 10o. verso da segunda estrofe: naturalmente o c de "O néctar" não se conta como sílaba (como seria a tendência natural do português falado no Brasil);
— 11o. verso da segunda estrofe: temos que fazer a elisão em "desde_essa passagem ";
— 14o. verso da segunda estrofe: temos que fazer a elisão em "para_a caminhada";
— 15o. verso da segunda estrofe: temos que fazer a elisão em "É como_abrir " e em também em "para_a_ave_antes";
— 16o. verso da segunda estrofe: temos que fazer a elisão em "no_infinito";
— 18o. verso da segunda estrofe: naturalmente o b de "Sob domínio" não se conta como sílaba (como seria a tendência natural do português falado no Brasil);


Acho que é somente isso, pelo menos no que reparei. Será que me esqueci de algum outra ocorrência dessas peculiaridades versificatórias? Homem geralmente é mais míope nos detalhes, com o que comemos mosca volta e meia.

Abraço,
j. a.

Comentário de Sílvia Mota em 2 março 2018 às 3:58

Entre as vívidas gotas de chuva de um passado distante, gotas poéticas respiram vida e liberdade. Belíssima inspiração! Parabéns! Beijosssssssssss

P.S. Para que todos os versos sejam alexandrinos, necessário observar alguns pequenos detalhes e, como se constituem na minha paixão literária, há tempos, escrevi uma singela matéria a respeito. Convido-te à leitura: https://peapaz.ning.com/group/teorialiteraria/forum/topics/encanto-...

Comentário de José Aurélio Medeiros da Luz em 1 março 2018 às 22:41

Caros Elías, Margarida e Neuza: obrigado pelas felicitações. 

De fato, Margarida, a chuva tem o condão de nos transportar para o mundo da fantasia; também me cativa muito.

E, cara Neuza, agradeço-lhe o trocadilho lisonjeiro; só espero que meu estapafúrdio  modus operandi não aleije ou assassine a arte das letras...

Abraço fraternos aos amigos. j. a.

Comentário de Neuza de Brito Carneiro em 1 março 2018 às 16:08

Você, com certeza não é um estilicida. Muito pelo contrário., Parabéns.

Comentário de MARGARIDA MARIA MADRUGA em 1 março 2018 às 15:36

Falou de chuva, agradou-me. É um fenômeno natural belíssimo.

Não podia ficar diferente seu poema. Parabéns.

Comentário de Elías Antonio Almada em 1 março 2018 às 15:28
Excelente, felicitaciones
Comentário de José Aurélio Medeiros da Luz em 1 março 2018 às 8:20

Obrigado, caro amigo Elisiário, pelas palavras incentivadoras. Queria eu desenvolver um pouco mais o poema, aumentando-o, mas uma questão técnica mo impediu, qual seja: o livro teria número ímpar de páginas, o que acarretaria em uma página extra em branco, já que cada folha tem frente e verso...Ficou com 84 páginas mesmo. Agora é por a mão no bolso, inda este ano, e emitir uma tiragenzinha de cinco centos. Enquanto isso, continuemos no hipnótico ofício de arpoar nuvens, para termos suficiente espermacete que nos faculte o fabrico das velas e candeias do sonho. Abraço do j. a.

Comentário de Elisiário Luiz em 28 fevereiro 2018 às 22:03

...parabéns caro amigo muito mais que bem elaborados versos aqui se desramar Fique bem!

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