Guiando pela alameda

J. A. Medeiros da Luz


E folhas despregadas do inverno
– Com cara de outono, todavia –
Colidem de maneira repentina
Contra o para-brisa do automóvel,
A rodar por estradas e trilheiros.


Já quantas folhas amarelecidas,
Em rodopios pelos ares frios,
Desprendendo-se, sem estardalhaço,
Dos ramos já nodosos desta sebe?


E esse quê de poesia imprevista,
Sobressaltando a branda passeada,
Dá-nos a sensação, assaz estranha,
De, por vezes, nas curvas da estrada,
Conduzirmos melhor que certos deuses
O volante e mesmo a vida, a vida!


Mas note você só que milagroso
Evento me sucede justo agora,
Parco minuto após a minha fala:
Doze flores de ipê, campanuladas,
De cor tirante a malva, já rosadas,
Deslizam sobre o mesmo para-brisa,
À moda de afago complacente
Desses deuses há pouco ultrajados.


E, portanto, de novo harmonizado
Com todos os mil elos da existência,
Rodando na alameda, ensombrecida
Pela densa espessura vegetal,
Invade-nos a alma um otimismo,
Ignorado do pobre Schopenhauer...


Já me aventuro a mais pedir ao mundo,
Num juvenil arroubo de alegria.

Ademais há você sempre ao meu lado.

Daí, ato contínuo, solicito-lhe
O máximo dos júbilos que atino:
“Assim, pois, Teodoreta, queira dar-me
A dadivosa prenda de um sorriso.”


Com ou sem o amparo de mil deuses,
Acontece o milagre dos milagres,
Neste hemisfério sul (tão secundário):
Em pleno agosto faz-se a primavera!

Ouro Preto, agosto de 2017.
Do livro: Martelo de cristal, a sair pela Jornada Lúcida Editora.

Exibições: 32

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