Costuma-se falar na síndrome do ninho vazio como um dos fatores causadores da depressão. Geralmente, acomete mulheres que estão entrando em um período, não necessariamente da terceira idade, mas de fechamento de ciclos, como aposentadoria, desligamento do mercado de trabalho, casamento dos filhos ou sua saída de casa, para estudar fora ou por ter conquistado independência financeira. É possível ocorrer por um destes fatores ou por vários deles acumulados. Quase sempre, quando nos referimos a esta síndrome o fazemos relacionando às mulheres, conhecidas por demonstrarem mais sensibilidade, serem muito apegadas aos filhos, principalmente no caso daquelas que não tiveram uma carreira profissional e, de repente, ficam viúvas coincidente à saída do(s) filho(s) de casa. Uma sensação de inutilidade e vazio se instaura. Pois bem, outro dia li um depoimento, no jornal, de um homem que se encontrava nesta mesma situação. Criou quatro filhos e ao ver as camas vazias sentiu esse sentimento que mistura melancolia, tristeza mesmo sabendo que os filhos estão bem, que ele cumpriu exemplarmente sua tarefa de educar. E, educar, implica em criar para o mundo. Chega a hora que os filhos exercitam o voo da liberdade e por mais medo que isso possa representar para os pais não podemos tolhê-los. Identifiquei-me com ele no sentimento, na quantidade de camas que ele contava (eram quatro) e revi minha vida. Só dormia descansada após contar as quatro camas onde eles repousavam tranquilamente. Quando comprava presentes eram quatro, quando ia para férias era um incessante contar para ver se alguém não havia ficado perdido em algum lugar. Na praia então, contava sempre as quatro cabecinhas na água, para meu desespero e aborrecimento de meu marido que recebia de mim a incumbência de contar quando eu não estava olhando.

        Passei em revista um longo período de minha vida. Há quem pense que essa preocupação cessa quando eles crescem, mas depois que nascem os filhos esse cuidado é para toda a vida.

        Hoje, os homens demostram essa mesma preocupação, esse mesmo carinho diferente de outrora, época que aos homens não era permitido chorar. Estes passaram a ser companheiros e não chefes, a dividir tarefas, cuidar dos filhos desde que nascem. Trocam fraldas, dão mamadeira, cuidam na madrugada, levam ao médico, à escola, enfim, tem uma jornada dupla, igual às mulheres que tem filhos e tem atividade profissional.

        Ambos, homens e mulheres são capazes do maior amor, carinho e dedicação. E assim fazendo nos iludimos acreditando que fazendo tudo direitinho, os estamos livrando de todo mal. Antigamente, eu pensava e me preocupava, imaginando como agiria quando eles crescessem. Ainda lembro, incrédula quando nossa segunda filha casou; depois ajudamos na mudança de nossa filha mais velha quando foi morar sozinha em seu apartamento. Sem traumas maiores. Estavam a algumas quadras distantes e ao alcance de qualquer telefone. Continuaram vindo almoçar, convivíamos sempre.

        O pior é quando tragédias acontecem. Sem previsão, cruéis, inimagináveis porque fizemos tudo que podíamos e eles também. Eram ótimos filhos, amorosos, dedicados, estudiosos, todos formados em curso superior, trabalhando.

        Éramos felizes.

        No meu caso, com três meninas e o caçula, amado por todos, o preferido como elas costumavam brincar, Bacharel em Ciência da Computação, professor de uma Instituição Federal se acidenta na saída do trabalho em um inexplicável acidente quando seu carro capota. A dor é indescritível.

        Quando vejo uma mãe ou pai a lamentar a saída dos filhos da casa paterna ou materna, digo-lhes para não chorarem, pois eles poderão entrar a qualquer momento, abraçá-los, beijá-los, ou estão ao alcance dos celulares, do computador onde se enxergam e falam ao vivo.

        Trocaria tudo que tenho para viver por um momento como este, mas não tenho nenhuma escolha. A morte é inexorável. Sigo minha vida com aceitação e, com mais uma ausência contundente. A dor da perda foi fatal para meu marido, que trancou a dor em seu coração para me ajudar a viver e foi tomado, inesperadamente, por uma enfermidade que o levou de nós para junto de nosso menino e de Deus.

        O ninho ficou vazio, hoje vivo só, mas isso não é um lamento. É uma constatação.

        Tive um filho maravilhoso que partiu antes, três filhas que tenho por perto, sempre, e cinco maravilhosos netos que me dão muita alegria. Apesar das dores, sou uma pessoa feliz e agradecida ao que a vida e Deus me proporcionou.

                                                         ISABEL C S VARGAS

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Comentário de Isabel Cristina Silva Vargas em 20 outubro 2016 às 22:12

AGRADECIDA MARIA DAS GRACAS.

Comentário de Maria das Graças Araújo Campos em 20 outubro 2016 às 17:36

Belíssimo depoimento, que causaemoção, querida Isabel! Parabéns! Bjsssss

Comentário de Isabel Cristina Silva Vargas em 20 outubro 2016 às 14:08

Agradeço tua atenção e carinho Silvia.

Obrigado ao Poeta Críspulo Cortes, Antônio Ferreira e Maria Iraci.

Meu abraço agradecido;

Comentário de Sílvia Mota em 20 outubro 2016 às 11:37

Emoção... tão somente emoção, após a leitura das linhas aqui apresentadas.

Constituem-se em sabedoria, amealhada através da experiência - ora, alegria; ora, dor incalculável.

Ser feliz e exemplar, em meio às dificuldades, é qualidade própria dos seres iluminados.

Parabéns, minha amiga!

Beijossssssssssssss

Comentário de Críspulo Cortés Cortés em 20 outubro 2016 às 5:38

Comentário de Antonio Domingos Ferreira Filho em 20 outubro 2016 às 1:10
Texto narrativo limpo e claro.Retratando experiências vividas e observações do cotidiano, o leitor vai encontrar semelhanças quando o tema é família.Estas de dores, alegrias e superação, além de mostrar determinação e compreensões acerca de viver.Logico que me deparei com minhas experiências de familia.Tenho uma publicação em Poema Livre " Série AD Vida Episodio 1000" no qual eu relato uma experiência que vivo hoje e de dor.Não peço para ler o que publico,mas neste caso eu pediria sua leitura com forma de uma gentileza.
Adorei sua publicação por razões já explicitadas.
Grato por compartilhar.Nestes dias eu publiquei de improviso uns versos em que retrato, em que alerto que minha disposição de contar minha vida, sempre fui bem sucedido, pois muitos poroblemas ou situações delicadas apareceu um anjo de fora e me ajudou Obrigado.
Comentário de Maria Iraci Leal em 19 outubro 2016 às 23:19

Isabel Cristina Silva Vargas

Um texto para ser lido e relido,

para reflexão e quiçá sublimar  as perdas

 muito sensibilizada com a tua história,

te abraço carinhosamente, beijos MIL.

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