Meu cubo esferoidal

 J. A. Medeiros da Luz

 

Eis que, meditabundo à varanda

De nossa morada cá nas Alterosas,

Rumino minha adultez de décadas,

No lembramento de queridos entes.

E, como os filamentos da memória se entrelaçam,

Vem à baila uma dúvida de antanho:

 

Em que praia esquecida abandonei

Minha amada bola quadrada,

— Multicolorido cubo

Estufado de ar e com válvula de assoprar,

Estampando fatias de cores e com cheiro

De maresia em mistura com o odor

Típico de plástico novo sobrecarregado

(Hoje sabemos) de execráveis

Isoforonas, ftalatos e polibenzóis?

 

Naquelas férias escolares, me pergunto,

Registrou-lhe o rodopio aéreo sobre as ondas

(Marolas a dificultar o jogo

De barata-voa em roda de família)

Alguma câmara lenta do passado?

 

Esfera armilar, colorida de infância,

Antes na sua quadradice estranha,

Lá terá ficado na areia, varrida da maré,

Já então um tanto murcha,

Como acontece com ovos gorados

De arraias e de tubarões.

 

Provavelmente (mas certo não estou)

Com algum furo em seu lombo de polímero.

 

Façanha de suposto

Ouriço-do-mar, ou marisco ou vieira,

Com suas bordas cortantes — juntamente

Com as alegrias dum passado,

Que, feito água-viva hialina,

Perdeu-se na bruma feérica do oceano,

Confundido afinal

Com os fitilhos mucilaginosos,

Verdolengos,

Das algas bailarinas,

Lá no fundo do distante Atlântico

Daquela fria província de meus pais.

 

 

                              

Ouro Preto, fevereiro de 2018.

Do livro: Martelo de cristal, a sair pela Jornada Lúcida Editora.

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Comentário de José Aurélio Medeiros da Luz em 24 fevereiro 2018 às 13:37

Obrigado pelas palavras amigas, minha cara Margarida:

De fato, as colorações das lembranças remotas podem ter cores pesadas ou exibir a alegria rutilante de uma manhã primaveril. Muito da escolha depende de nós outros, e das cores que pretendemos dar ao dia de amanhã.

Abraço do j. a.

Comentário de MARGARIDA MARIA MADRUGA em 22 fevereiro 2018 às 21:32

Bonitas recordações. Belos versos.

Comentário de José Aurélio Medeiros da Luz em 20 fevereiro 2018 às 10:38

Obrigado, caro Almada, pela congratulação.

Este poema fazia parte das pendências antigas, pois tinha planos de comentar afetivamente sobre minha "bola quadrada" da infância. Quisesse eu pôr em perigo a poesia, diria que nem era cubo, nem era esfera, mas um hiper-elipsoide de Lamé com expoente valendo qualquer coisa entre  4 e 6...Mas deixando a dissecação matemática de lado, suas listras coloridas, em rodopio no ar, contra o azul do céu, exerciam um fascínio que me ficou na memória e que só agora transplantei para o papel (é claro que metaforicamente falando, já que se trata da tela ou ecrã)...Abraço fraterno do j. a. 

Comentário de Elías Antonio Almada em 19 fevereiro 2018 às 20:44

Comentário de José Aurélio Medeiros da Luz em 19 fevereiro 2018 às 8:23

Pois é, meu caro Elisiário:

Das suaves lembranças da infância, sempre me ficou o fascínio daquela "bola quadrada" de praia, que ganhei em uma de minhas férias em Santa Catarina, terra dos meus antecessores, em tendo eu já nascido nas belamente rústicas paragens do Planalto Central do Brasil. E essas vivências da infância sempre nos ficam (a todos nós rotulados de "maduros") naquele limbo mágico, o qual as agruras da vida e a  parcela de sordidez encontradiça em nosso mundo adulto não conseguem obnubilar.  Fraternal abraço do j. a.

Comentário de Elisiário Luiz em 19 fevereiro 2018 às 1:54

 Um belo e especial contexto...

Só pelo fato de ser um cubo esferoidal, hexagonal mente de brilhantes meus parabéns  Caro amigo Fique Bem!

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