Meu poema metido a filosófico: "Nada mais Além" das colunas de Héracles...

Nec plus ultra

J. A. Medeiros da Luz

Assevera-nos o filósofo ser pura verdade

Que tudo flui, que tudo se escoa,

E que a nave de Teseu ainda é a mesma,

Após mil peças sobressalentes

Haverem reparado todo o casco,

A quilha, o convés, as escotilhas,

E já as ripas da estiva forem fruto

Do cedro derrubado a motosserra

Nesse último verão.

Para além de Heráclito e Plutarco, o que nos sobra?

E se assim é,

Neste rio – sempre o mesmo de águas novas –

Chamado espaço-tempo,

Por que, depois

De tantas perdas desconsoladoras,

Vemo-nos outro primata, ao espelho?

Por que já não há o mesmo reluzir

Na nossa prataria,

Nem é a mesma a orla da vereda,

Antes tão coalhada de cores e aromas,

Tão plena do esvoaçar de miúdos seres,

Versão hipercolorida dos borrões,

Das mais aladas manchas de Rorschach?

Ouro Preto, janeiro de 2018.

Do livro: Martelo de Cristal,

a sair pela Jornada Lúcida Editora.

Comentos podem também ser dirigidos a:

jaurelio@demin.ufop.br

© J. A. M. Luz

Exibições: 78

Comentar

Você precisa ser um membro de Poetas e Escritores do Amor e da Paz para adicionar comentários!

Entrar em Poetas e Escritores do Amor e da Paz

Comentário de MARGARIDA MARIA MADRUGA em 1 fevereiro 2018 às 13:03

Poeta José Aurélio,

Não há nenhum de nós que não passa por esses "sacolejos". Aliás, eles iniciam com uma preparação e essa preparação é sofrida e muitas vezes demorada. Para outros é instantânea.

Eu não sei qual é a pior, a mais difícil.

Como eu acredito na continuidade e já tive provas dela, é uma questão de esperar apenas.

Abraços.

Comentário de José Aurélio Medeiros da Luz em 1 fevereiro 2018 às 7:29

Pois é, cara Neuza, essa carência de tempo de nossa era! Acaba que só nos resta  tentar - como se diz - a um só tempo assoviar e chupar cana...Abraço e obrigado pelo dedinho de prosa.

Comentário de Neuza de Brito Carneiro em 31 janeiro 2018 às 22:51

Dedinhos de prosa são filosoficamente milagrosos. Pena que não tenhamos tempo para os compartilhamentos vitais!

Comentário de José Aurélio Medeiros da Luz em 30 janeiro 2018 às 9:40

Obrigado pela visita e pelo incentivo, cara Neuza. 

O sotãozinho do J. está sempre de alçapão aberto à espera de um dedinho de prosa com os amigos...E isso é que importa mais, pois a peça literária em si, é somente um artefato, enquanto que a interação entre seres sencientes é o compartilhamento daquele quase milagre (biológica e filosoficamente falando) a que chamamos vida.

Comentário de Neuza de Brito Carneiro em 29 janeiro 2018 às 23:36

Foi fundo, poeta!

Comentário de José Aurélio Medeiros da Luz em 27 janeiro 2018 às 14:18

Caros amigos e poetas Etelvina, Sílvia, Margarida, Elias e Elisiário:

   Sinto-me muito obrigado pelas suas palavras acolhedoras. Na verdade, o leitmotiv do poema é o velho drama humano de mantermos nossa essência, a despeito dos sacolejos do percurso (e metamos sacolejos nisso!).

   O poema, no que tange a mim, acabou sendo (um pouco espontaneamente) uma tentativa de purgação, de catarse do luto, por uma sequência de perdas nos últimos anos (há três anos, uma irmã mais nova [que eu]; há dois, minha mãe e nesta próxima semana haverá um ano desde o falecimento de meu pai).

   É claro que o óbito se inclui inconteste como atividade ligada ao processo vital; mas o continuum da existência de quem – por ora – remanesce, começa ficar ocado, com vacúolos insanáveis no seu protoplasma espiritual. Mas, para nossa felicidade, há a cicatrização...E o fruir de memórias; além daquela amorável convicção de que, já nesta ou em futuras estações, novas pétalas e borboletas virão, buliçosas, a margear nossos trilheiros.

   Abraço carinhoso a todos.

Comentário de Elisiário Luiz em 27 janeiro 2018 às 6:39

Também rios me perguntando:

Por que já não há o mesmo reluzir

Na nossa prataria,

Nem é a mesma a orla da vereda,

Antes tão coalhada de cores e aromas,...se perderam?

Grato pela partilha caro Fique Bem!

Comentário de Elías Antonio Almada em 27 janeiro 2018 às 3:47

Comentário de MARGARIDA MARIA MADRUGA em 26 janeiro 2018 às 22:18

Muito especial Poeta José Aurélio.

Um belo poema para ser estudado relembrando os antigos tempos de estudante.

Comentário de Sílvia Mota em 26 janeiro 2018 às 20:17

"E se assim é,

Neste rio – sempre o mesmo de águas novas –

Chamado espaço-tempo,

Por que, depois

De tantas perdas desconsoladoras,

Vemo-nos outro primata, ao espelho?"

Simplesmente, excelente, nas suas conjecturas...

Parabéns!

Beijosssssss

Membros

Designers PEAPAZ

*Sílvia Mota*

*Margarida*

*Nara Pamplona

*Livita*

*Imelda*

*Toninho*

Poema ao acaso...

Visitantes

Badge

Carregando...

© 2018   Criado por Sílvia Mota.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço