NOITE... (FOI ONTEM,  BEATRIZ…)

 

                                                                 I

 

TUDO naquela noite tornava impossível o trabalho que ela prometera ao editor. Era uma realidade!

O calor tornara a sua pele húmida e os cabelos colados. De nada valeram os duches, o chá gelado e o chá morno! Mas bem! Trabalho era trabalho!

Olhando para a sua velha portátil Underwood 37 – tinha que ser velha como mandam os ditames escriturários! – Sorriu para a folha, imaculada e virgem! Isto é, quase virgem, pois nela já se erguia românamente majestático, o importante e clássico I, pontuando e prometendo algo que não queria sair…

Mas o certo é que nada … Nada saía das meninges, ferventes de calor e gélidas de ideias!

Encolheu os ombros. Virá por certo a meio da noite ou lá para o alvorecer, quando as aves despertam e as flores respiram de outra forma, em  Aenon, a Hora dos Deuses!

E aquele I continuava fitando-a com demasiada arrogância interrogativa!

O calor era sufocante. Estava uma noite sensual, de banhos nocturnos e refrescantes, no mar, cujo rumor se misturava aos outros sons. Não estava longe. Era só atravessar a aldeia, que se tinha espraiado ao longo do areal. Aldeia de pescadores e baía serena, eis o que ela tinha por perto. Dunas perfumadas, areais e pinheiros retorcidos, por ventos fortes enquanto jovens.

Tudo naquela noite convidava ao romance!

Da Praça Velha, trazidos pelas ondas de calor, vinham os sons lânguidos e chorosos dum acordeão e dum Bandoneon, tocando aquilo que, duma tal noite, se poderia esperar: Tangos! Tangos, plangentes, langorosos, sensuais de silêncios e longos acordes… Dignos duma tórrida noite de verão, em que os corpos pedem outros corpos e longas carícias, abraços abrasadores e águas de mar, envolventes como braços…

Sacudiu-se! … I … I … I … I … olhava para ela……

Majestático, aquele número mantinha-se interrogador! Não era sobre romance e sensualidade que o editor pedira!!! Era sobre Intervenção Social…… nada tinha a ver com nada! Intervenção Social!!!

Bolas! Só faltava agora a voz xaroposa do cantor! Santo Deus a perdoasse, de invocar o Seu Santo Nome em vão! Era  mesmo, o grande Carlos Gardel! Aquela voz de timbre único e nasalado, cantava “Volver”, quase chorando e arrancando as sílabas do seu mais profundo íntimo, dando-as à luz, com dor e pranto…

 

Tudo concorria para a inspiração e escrita do que o editor não pedira!

Que bem lhe sabiam os sons da rua! Foi à varanda! Aspirou longamente o ar intensamente perfumado! Gerânios e Jasmins davam as mãos às esmorecidas Hortênsias, para perfumar a noite, onde se misturava a intensa e apelante nota marítima! E deixou-se levar pelos sons e perfumes.

Ligeira, rodopiou em passos longos enquanto pensava no que fariam os seus heróis em tal momento!

- Sairiam! - Exclamou ela bem alto, jovialmente aliviada com a sua decisão!  

Calçou as leves sandálias, que melhor lhe realçavam o andar balouçante! Olhou-se ao espelho e pareceu satisfeita com o que viu! A saia, cor de lápis-lazúli, balançava ao seu ritmo, ondulando à sua volta e o salto da sandália dava o toque! Faltava algo ao cabelo ondulado, castanho profundo! Olhou para a varanda e disse para o gerânio cor de fogo: ”Tu! Tu vens comigo!”. Prendeu a flor redonda no cabelo! Olhando novamente, achou que o seu leve bronzeado não precisava de mais nada, para além de salientar os cílios com o rimmel e acentuar os lábios carnudos, duma boca sorridente, com o bâton!

Olhando a sua velha máquina, sorriu com ternura e, piscando-lhe o olho, disse-lhe: “Vou dançar e romancear! Até logo!”. Lançando-lhe um beijo com as pontas dos dedos, saiu para a noite.

 

II

O velho portão forjado chiou, no seu canto dolente e agudo e, no escuro da noite, deslizou pela rua em direcção a Praça Velha. Hesitou ainda, se não iria primeiro junto ao mar, mas a voz e a música levaram-na até à praça.

Numerosas pessoas acotovelavam-se, dançando ao ritmo inebriante dos tangos, que os altifalantes lançavam para a noite.

A vibração da música ganhava a amplitude dos sentidos. Sentia o sangue correr agitado pelas pernas, depois de terem feito vibrar seus pés que queriam dançar! Um doce calor invadia-a!

Aproximou-se do círculo que se formara junto de quem dançava.

 

E, do meio da confusão dos pares enlaçados, ela viu-O! Apercebeu-se da sua presença magnética, misteriosa, de olhos profundos e rosto marcado, apesar de juvenil. Carregava consigo uma guitarra enorme, clássica.

De olhos magneticamente presos um no outro, sentiu de súbito que tudo à sua volta se desvanecia em bruma algodoada, como se flutuasse e só os dois existissem, ali, na Praça Velha.

Dedilhando as cordas, um som, primeiro como um rio saltitante, depois, retumbante como um tropel, ecoou pelas paredes antigas da Praça, qual cavalgada. Começou então a ressoar dentro de si, no mais, mais profundo do seu corpo! Pontos, por ela desconhecidos momentos antes, vibravam em uníssono com aqueles dedos, que tangiam com vigor, as cordas mágicas da guitarra!

Todos os pares deslizaram ao som mágico do músico, enquanto ela, sempre alheia a tudo o que a rodeava, de olhos presos no fogo de carvão ardente daquele olhar, do guitarrista se aproximava.

E dançou! Dançou leve, solta, olhos nos olhos, bamboleio da saia e flor presa no cabelo livre; dançou livre, como sua Alma e seu corpo recém-nascido, graças à Guitarra dum desconhecido.

Mas seria assim tão desconhecido…? Ondas de notas soltas. Teclas mágicas, que só alguns conhecem.

Chantal Fournet

(Agosto 2012- 15 Março 2015)

 

III

Amanheceram várias manhãs sobre aquela noite perfumada de Verão!

Ao chegar a casa pisando em nuvens, seu corpo sentia-se volátil tal gaivota ou pardal! Fora rainha, rameira, muito princesa, princesa entre areais e cascos duros de barcos de pesca. Sob estrelas e marulhar de ondas em marés suaves e mais fortes, iguais aos momentos e movimentos de seus corpos. Movimentos intensos dedilhados em seguidilhas e arpejos intensos onde seus corpos desposavam o ritmo do oceano.

Em si ecoavam sons e silêncios. Vibrantes.

Olhou sua velha Underwood e lembrou-se, como em sonho demasiado distante, o que a atormentava antes de sair para a Praça Velha! Reparou no cesto de papéis cheio de folhas amarrotadas!

Acariciou suave e ternamente sua velha máquina sorrindo murmurou-lhe: “ Não! Tu não vais acabar teus dias na Segurança Social!! Não vais acabar tua vida a falar de relatórios!! Vais romancear poemar e fantasiar, para que muitos sonhem com as palavras que vêm de tuas teclas redondas e meio-gastas!!”

Seu riso gorjeado soltou-se em notas cristalinas enquanto em rodopio pegava no telefone e correctamente rescindia seu pseudo-contrato com o Editor!

Feliz, sentou-se frente ao velho teclado. Inseriu uma folha entre os rolos, cujas bordas eram revestidas duma leve escovinha, metodicamente ajustou a fita da máquina, verificou os braços das letras, accionou o manípulo lateral para subir a folha e fez deslizar o tambor, só para ter o prazer de ouvir a campainha suave, que em cada fim de linha, tocava!

Preparada, abriu suas mãos como se fossem as asas dum pássaro ou uma borboleta, esticando seus dedos cruzados. Pronta começou rápido a teclar nos botões pretos e desgastados, cercados de níquel brilhante.

Um sorriso iluminava-lhe o rosto, impregnado de doçura apaixonada e Mulher realizada!

 

IV

Foi Ontem, Beatriz...

Passaram os anos, mas não parece. Continuamos parados na linha do tempo, infinita, imprecisa, sem sombras talvez. Contudo existem as sombras. Os dias escoam-se. Só.

Na rua em que habito, nela habita também um eterno domingo. O silêncio entrecortado por um esporádico latido, piar de pássaros ou os mochos à noite.

Quase se é feliz, quando chegam os grandes ventos, as nortadas e os secantes ventos de leste, que furiosos sopram, mobilando a noite com seus sons.

Mergulho na minha guitarra e nela passeio meus dedos nas cordas, que desejo agrestes, dialogo e, não raras vezes, discuto longamente com ela.

E vivo o Silêncio.

Onde, diz-me? Onde o vibrante tanger das cordas, das guitarras ou o choro rasgado e arrastado dos bandoneóns de antanho, nas nossas praças? Antanho? Mas, se praticamente foi ontem…

Ah! Beatriz! Vi-te chegar à Praça Velha, leve, dançante na tua saia que contigo dançava, teus cabelos cheios, teu olhar apaixonado, sedento do indefinido, mordiscavas leve teu lábio, duma boca cheia, carnuda e firme! Defini-te pelo seu traçado: trazias nela a marca de quem morde a Vida, como uma maça sumarenta e não lhe perde qualquer gota de seu suco!

Tua boca era cheia, do que, para mim, seriam premissas e promessas de palavras, sons, canto, beijos e caricias. Imaginei tua voz meio gutural, risonha, e teu riso gorjeado, como de ave, rolando seu canto!

Para mim, foi Ontem amada.

Nesse ontem quente, duma noite de Verão. Toquei para ti e tu dançaste só para mim. Tantalizante dança, de obscuros desígnios e sortilégios. Feitiços, duma lua obscurecida por ser nova, na sua eterna sabedoria, eternidade velha.

Sábia, ocultou nosso enlace no fresco areal, abrasados, frementes e enlaçados nas sombras dos barcos de pesca, rompemos fronteiras em seguidilhas, escalas dedilhadas ao infinito, sem limite, nua, maré enchente abafando nossos audíveis fragores roucos, na nossa nudez vestida.

O Verão seguiu entre nós, fugazmente ocultado nessas sombras frescas, que acolhiam nossos fragores.

Nunca questionámos nossos dias. Quem eramos, o que fazíamos, o que era nossa historia. Não nos preocupava. Nem disso precisávamos…as estrelas e o mar diziam-nos quem nós eramos.  

O mundo começava e acabava dentro dos nossos olhos, habitava o nosso coração. Tudo o resto era inexistente. Perdia-se camuflado, numa poalha diáfana.
Era desejo. Era liberdade e individualismo… Jovens e boémios, o fogo da vida circulava em nós, vibrante e musical, precioso vinho dos deuses!

Como me recordas? Por onde andarás… Minha fada-cigana do sol-posto!

Hoje, mais que ontem, gostava tanto de ter sabido mais sobre ti. Contudo, enquadrar-te num cenário seria matar-nos.

Somos do Tempo, como o Vento e a Lua…sem molde nem moldura.

https://youtu.be/9dqzGgMnypw

FIM

Maria-José Chantal F. Dias

Portugal

(I Novembro 2016 – IV Abril 2017/ III Julho 2017)

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Comentário de Lais Maria Muller Moreira em 28 agosto 2017 às 21:47

Adentro no cenário narrado de forma lírica, onde a poesia conspira a ir ...e ir sempre mais..ler mais ...outra linha voltar...e ir além...

Odores que me penetram, imagens que se formam...e o tempo estagna por um instante...

Somos do Tempo, como o Vento e a Lua…sem molde nem moldura.

Precioso desfecho!

O efêmero se torna perpétuo!

Deslumbrante obra !!!!!!!

Minha profunda admiração!!!!

beijos

 

Comentário de Mônica do S Nunes Pamplona em 27 agosto 2017 às 23:52

A magia da paixão, envolvendo os corações.

Nada melhor, do que poder sentir o que se escreve.

Estando a protagonista no enlevo de uma paixão, caberia somente escrever o que sentia.

Teu conto arremessa o leitor, a uma viagem em deleite.

Parabéns, querida Chantal.

Bjsss.

Comentário de Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sílvia Mota Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ em 27 agosto 2017 às 6:23

  Um largo espaço de tempo entre a primeira e última parte do texto. Difícil, isso!

Poesia pura nas linhas e nas entrelinhas.

"Tua boca era cheia, do que, para mim, seriam premissas e promessas de palavras, sons, canto, beijos e caricias. Imaginei tua voz meio gutural, risonha, e teu riso gorjeado, como de ave, rolando seu canto!

Para mim, foi Ontem amada."

Ainda que destaque esse trecho, tudo é muito belo!

Parabéns, querida Chantal!

Beijossssssssss

 

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