A Chácara fica entre Reboque e Madre-Deus. Tenho na cabeça a estrada. Estou fora a 25 anos. Há mais de 30 anos que não piso a Chácara. Não levei saudades, quando saí da casa do meu cunhado. A única coisa que queria era esquecer aquela parte da minha vida. Quis passar uma borracha sobre tudo e iniciar a vida. Como se era possível esquecer tudo. A Chácara era sempre a subir. Fica na berma da estrada da Trindade, as casas situavam, quase todas, do lado direito de quem sobe. No outro lado praticamente não existia casa. Era naquela berma que eu andava. Ia sempre a pé. Mas também eram apenas um ou dois quilómetros, a distância entre a Preparatória e a casa. Diariamente subia e descia para ir a escola e regressar à casa.

 

Diariamente passava por um homem, o Tomás. O Tomás estava sempre de tronco nu e vestia apenas um calção. Não tinhas mais nenhuma roupa. As vezes usava gravata, sem camisa, sem mais roupa alguma que não fosse aquele calção. Estava com uma trotineta, duas rodas de madeira atadas a uma tábua e um guiador, uma bicicleta de madeira, o diâmetro das rodas erapequeno.Aquele instrumento é muito conhecido e usado pelos miúdos e Tomás era um adulto.

 

Dois anos antes, quando estudava a segunda classe, no Santo António do Príncipe. A minha professora Maria Vaz, que estava grávida, tinha que tomar licença pré e pós-parto, por isso seriasubstituída. A licença era de pelo menos doismeses e não podíamos ficar sem aulas durante todo aquele tempo.

 

Foram buscar, para substituí-la, o Tomás. Ele era militare gostava de dar aulas. Aqueles dois meses foram muito bons. Guardo na memória, dois meses de aulas ao ar livre. De uma espécie de acampamentos diários, de redacções verbais,de exercícios físicos prolongados, de desportos sem fim. Estávamos encantados com o professor. Tão encantados que nem a preferência doentia dele pelas raparigas nos afectou. Ele havia transformado os deveres em divertimentos.

 

Dois meses passaram rápido e o nosso professor provisório teve que dar lugar a nossa Maria Vaz, custou um pouco entrar no novo ritmo, mas lá conseguimos. E ele, o Tomás, pouco tempo depois voltaria para São Tomé e eu nunca mais ouvi falar dele até o ver na Chácara.  

 

O meu cunhado me contou um pouco da história do Tomás, quando lhe disse que o havia visto e que ele estava maluco. O Tomás era o orgulho da família. Era único que havia estudado, a mãe dele o via melhor e diferente de todos. Mas precisamente melhor de todas. É que não há bela sem senão e o senão do Tomás era conformar-se e seguir as riscas os conselhos da mãe.

 

Amãe do Tomás o havia proibido de namorar, de arranjar amigos, de tudo. Não o deixou seguir carreira militar. Assim que o tempo obrigatório terminou, disse-o para sair. Quanto a namorada, devia ser ela a escolher uma para ele. Porque podia, ele o Tomás, rapaz de vinte e tal anos, ser facilmente enganado.

 

Não tendo alternativa, senão seguir os doutos conselhos da mãe, dado o respeito que tinha por ela e a timidez mais do que evidente, foi se tornando cada vez menos social. Em menos de um ano, já estava sem amigos e sem ninguém, com apenas uma mãe idosa…

 

-O homem é um animal sociável e não consegue viver isolado! – O meu cunhado havia sentenciado.             

 

Sempre que via o Tomás e notava a indiferença com que todos por ele passavam, eu me revoltava. O Tomás foi meu professor. Esteve no Príncipe e era professor de segunda classe.Sempre alegre e bem disposto. Ia sempre fardado e engravatado. Era impecável e parecia que vestia assim, tão imaculadamente, para impressionar os colonos e as meninas. Ele estava sempre com sapatos bem polidos e roupas limpas e engomadas. O Cabelo bem cortado e as barbas aparadas. Ninguém conseguia ver nele algo errado. O Tomás era um Narciso, no verdadeiro sentido da palavra.

 

Ninguém conseguia ver no Tomás da Chácara, o Tomás professor e militar. Eram duas pessoas distintas. Das imaculadas fardas restava apenas uma gravata rasgada e suja. O cabelo e a barba mais pareciam os de Bob Marley. O rosto barbeado e limpo estava enlameado. O perfumado cheiro havia dado lugar a um odor nauseabundo.

Da culta conversa que mantinha com os colegas de profissão, tanto na tropa, onde ele era sargento, cargo difícil de chegar, dada a concorrência dos da Europa, como na escola onde ele era professor primário de segunda classe restava o silencio comprometedor. O Tomás, professor e militar, esse ficou apenas na minha memoria.  A mesma memoria que guarda até hoje a imagem daquele homem semi-nu sobre a sua trotineta a comer fruta-pão com os dedos, todo sujo da cabeça aos pés. Nãoresisti! Sem dar por mim, duas lágrimas corriam-me face abaixo.

 

FIM

João Furtado
http://joaopcfurtado.blogspot.com

Exibições: 85

Comentar

Você precisa ser um membro de Poetas e Escritores do Amor e da Paz para adicionar comentários!

Entrar em Poetas e Escritores do Amor e da Paz

Comentário de Sílvia Mota em 21 outubro 2014 às 0:51

Comentário de Maria Iraci Leal em 19 outubro 2014 às 15:29

Querido poeta, emocionei-me com esta história, belamente escrita, é uma homenagem, parabéns bjs MIL.

Comentário de João Pereira Correia Furtado em 16 outubro 2014 às 10:08

Obrigado Lais

Bjs

Comentário de Lais Maria Muller Moreira em 16 outubro 2014 às 9:23

Bonito retrato este João!

Muito bem traçado este teu relato serve como homenagem, mas tamvém como parte do acervo cultural

Parabéns!

beijos

Comentário de João Pereira Correia Furtado em 16 outubro 2014 às 7:21

Muito obrigado Lucia!

Comentário de LUCIA GUEDES (Lufague) em 16 outubro 2014 às 0:36

João, triste história a de Tomás, bela homenagem ao professor, conto interessantíssimo. Parabéns!

Membros

Designers PEAPAZ

*Sílvia Mota*

*Margarida*

*Nara Pamplona

*Livita*

*Imelda*

*Toninho*

Poema ao acaso...

Visitantes

Badge

Carregando...

© 2018   Criado por Sílvia Mota.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço