Acerto de Contas

 
J. A. Medeiros da Luz

Tempo, tempo!

És, a um tempo, travestida cortesã e diva;

A todos insinuas mil fidelidades

E a todos enganas, escancaradamente,

Com teu melífluo deslizar

Pelos átrios e calçadas desta vida.

És, ao cabo, não a alada fada dos desejos,

Mas o teratológico ser que devora tudo,

Incluindo aí seus pobres filhos.

 

Poucos, a tempo,

São os que entendem, no decorrer dos dias,

Aquilo que há de intrínseco

No bimbalhar de sinos dos relógios que,

Desde amplas praças, no ápice de igrejas,

Vistoriam o andar de bípedes formigas.

 

Mas – ah! – tempo; eu me vingarei um dia.

Ei de esmigalhar no esquecimento,

Como quem rasga cartas de amor desfeito,

Todas as mil ilusões a mim

Transfundidas no estradar dos amanhãs,

Todos os sonhos já eclodidos.

E tu (e muito menos eu...) não perdes por esperar.

Sim, por certo me vingarei um dia!

Gravarei sobre teu sepulcro, ao lado do meu,

O desmascaramento de toda a perfídia,

Neste epitáfio, inflado da antiga

Arrogância dos impérios:

Tempus edax rerum.
Ouro Preto, junho de 2017.
Do livro: Martelo de cristal, a sair pela Jornada Lúcida Editora.

Exibições: 31

Comentar

Você precisa ser um membro de Poetas e Escritores do Amor e da Paz para adicionar comentários!

Entrar em Poetas e Escritores do Amor e da Paz

Comentário de José Aurélio Medeiros da Luz em 19 junho 2017 às 9:34

Oi, cara Sílvia:

De fato, a inexorabilidade do gotejar dos instantes acaba por transformar em poeira volante todas as arrogâncias, incluídas aí aquelas dos impérios, que se pensam eternos. Daí o latim empregado para evidenciar o drama barroco do tempus fugit...

Abraço e obrigado pela gentileza das palavras.

Comentário de Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sílvia Mota Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ em 19 junho 2017 às 1:27

Será arrogância dos impérios, ou simplesmente uma constatação irrefutável da força inexorável do tempo? Belo poema! Parabéns e felicidades! Beijossssssssssss

Membros

Poema ao acaso...

Pensamento do dia

Portal para 38 Blogs-Sílvia Mota

Badge

Carregando...