Sístole

 

J. A. Medeiros da Luz

 

 

Observando agora, para além das janelas

Que iluminam o meu gabinete,

Tão longe das ágoras da vida afora,

Plantado universitariamente neste campus,

Antessinto a retomada dos ciclos do planeta:

 

Esta dança da brisa de final de inverno

Beija em pendular calmo os cachos fulvos

Do capim ressequido, em primeiro plano,

Contra a silhueta mais distante

De altas paredes de rocha, hoje nuas

Pela violência de labaredas da queimada

Que por lá ardeu, infrene, faz dez dias,

A despeito do esforço de cinco aeroplanos

E brigadas anti-incêndio, sobrepujados

Pela magnitude dos eventos de natura.

 

Súbito, ocorre aquela transumância mágica

Dos pensamentos, corcéis inquietos,

Atirando-me no vórtice da memória.

E, através do capim seco da campina,

Espraiada por meus chapadões agrestes,

Bancando um mar fulvo e acastanhado,

Navega minha infância policrômica,

Que por lá ficou, em demanda de grilos e besouros,

Imersa em algum seco agosto que não volta.

 

Eis que, das touceiras de cajuzinho-do-campo,

Invade-me o verde empoeirado da ramagem,

Aquela cor carmesim de pedúnculos,

Simulando carpos, por capricho,

E a ácida doçura de seu sumo.

 

Mas, que é de meus pais, onde estão, a reclamarem

Caultelas com serpentes e espinhos?

Que vento dissipa, neste imaginário momento,

Suas admoestações contra a demasia de sol,

Contra o emporcalhar com máculas

Das roupas limpas, com o pó do terreiro?

 

E as irmãs minhas, com seus vestidos apareados,

(Asas duas de borboleta em simetria)

Como sói ocorrer com par de gêmeas?

Que é feito, afinal, daquilo,

Que – na sua ausência física – colorimos

Com a paleta etérea da memória

E lhe damos o enigmático nome de passado?

 

 

Mistérios de que é tecida a vida!

E, de retorno ao instante que ora se escoa,

Não me espantará nada se uma amiga,

Ao ver desbotada foto de um daqueles dias,

Mantida, com suas nódoas de tempo,

Como talismã sobre a escrivaninha,

Vier a interrogar-me, meditativa,

Em disfarçada, mas solidária, afirmação:

“Isso deve dar um aperto no coração – não, Jota?”

 

 

 

 

Ouro Preto, setembro de 2017.

Do livro: Martelo de cristal, a sair pela Jornada Lúcida Editora.

Exibições: 57

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