POEMA ESCRITO APÓS OS ATENTADOS EM NOVA IORQUE, LONDRES E MADRID

Explode o século vinte e um,
explode o terceiro milênio.
E as explosões dos fogos
que os anunciam,
perduram no correr de seus dias.


A vida vale menos agora,
do que algum dia valeu.
Chama de vela, bruxuleio frágil
que se apaga com sopro.

Percorremos espaços
cada vez menores,
restritos às paredes do medo.
Conquistamos espaço virtual
à medida que perdemos espaço real.

Nova Iorque chora, Madri chora,
Londres, Paris também...
Cidades choram
e se contraem no medo.
Este é um tempo feérico
de luzes apocalípticas,
que iluminam a dor e sua cor:
em rubro se refletem
e se perdem.

A memória de um tempo recente
nos traz terrível conforto,
éramos sim, “mais civilizados”
nesse ainda tão próximo
século passado.

Em campo de batalha nos batíamos
e mesmo sem ver
do inimigo os olhos,
sem saber de sua bravura,
podíamos matar
e morrer com honra
(essa morte consentida).

Hoje, não temos campo,
não temos batalha.
A morte nos espreita a cada canto,
em cada esquina de cada cidade.
De explosão em explosão
nos tolhemos mais ainda.
Recuamos até o limite indefinível
no qual, não mais
nos reconhecemos.

Mas mesmo assim insistimos.
São as pequeninas chamas
que hoje se acendem
que nos fazem acreditar:
ainda voltaremos a nos olhar,
olhos nos olhos.
E nossas diferenças
não mais serão
um oceano intransponível.

Petrificados pela dor,
carentes de força e coragem,
às futuras gerações
deixaremos o desafio:
ver refletida no outro olhar,
a sua própria e nítida imagem.

GONÇALVES, N. C. PEAPAZ, 16/02/2017

IMAGEM: GOOGLE

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Comentário de Miriam Inés Bocchio em 21 fevereiro 2017 às 20:12

Comentário de Marcia Portella em 19 fevereiro 2017 às 16:43
O poeta poetizou bem momento atual.As  pessoas temem seu semelhante e estão cada dia mais distante, envolvidas pela tecnologia.A  comunicação afetiva foi engolida em um mundo sombrio e solitário.Nesse momento, travamos a pior das guerras que é falta de amor, respeito ao próximo e fanatismo.Estamos derramando sangue invisível e dolorido em  luta, para que a próxima geração tenha consciência no viver.
Te abraço   

-- 

Comentário de Mauro Martins Santos em 19 fevereiro 2017 às 16:01

Caríssimo Nilson Gonçalves

Grandioso pensamento, lógico, extremamente racional el letras perfeitas.

Me atenho como centro de minha prosa contigo, nisto que disseste:  

Hoje, não temos campo,
não temos batalha.
A morte nos espreita a cada canto,
em cada esquina de cada cidade.
De explosão em explosão
nos tolhemos mais ainda.
Recuamos até o limite indefinível
no qual, não mais
nos reconhecemos.

O que era antes, afeto a quem de direito a dar suas vidas ao povo, por juramento constitucional, militares e policiais, hoje todos são vítimas das mesmas chacinas, das mesmas explosões esquartejantes, por um nada. Não se consegue mais saber o que é radicalismo, religião, fanatismo, loucura, sadismo, psicopatia, partidarismo, sectarismo, idealismo, terrorismo, ou tudo misturado em uma cabeça disseminante a milhares de outras. Como oficial capitão da reserva, pude junto à linha de frente nos embates diretos, e coletas nas secções de estatística e Copom dos quarteis de por índice e incidência e gênero de ocorrências nas cidades o ponto mais inicial e captável de pronto à repassar às TVs e jornais, vir notando ao longo de 32 anos, o crescendo espantoso da criminalidade: aumentada com a "alimentação" de cada vez mais inclusão dos menores de idade (17 anos e 11 meses) só por exemplo são menores e os advogados os retiram da apreensão. Acrescido de que muitos não tem certidão de nascimento e dizem sempre que "Tenho 16 anos senhor" e é certo que têm 21, mas não há como provar - "In dubio pro reu" - Outra questão, o aparato armamentista dos marginais subiram geométrica mente enquanto as tropas regulares cresceram e se armaram aritmeticamente. Enquanto marginais possuem fuzis automáticos de altíssima repetição e força destrutiva e perfurante de origem russa, israelense etc. com capacidade fantástica de tiros por minuto, as armas regulares eram Cl. 38 cap. 6 tiros de ação mecânica ou uma metralhadora italiana Bereta 1956, com intervalo da ação dos gases no recuo da caixa da culatra,(mecanismo ultrapassado) com pente para 16 cartuchos. Os coletes a prova de bala são recentes no interior. Passei a usá-los pouco antes de entrar para a reserva. Apenas um resumo para dizer que na Idade Média usavam lanças, espadas, machados e maças de guerra - defesa armadura e escudo. Hoje, nenhuma blindagem - ainda que se usassem - não seria capaz de deter um míssil lançado pelos traficantes contra as forças policiais ou viaturas ou aeronaves (helicópteros e aviões da PM e FFAA)

mesmo as viaturas encouraçadas. Eis aí um paralelo evolucionista entre as fases da História, cobrindo de razão teu poema. Um forte abraço.

Comentário de Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sílvia Mota Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ em 18 fevereiro 2017 às 22:03

Estimado amigo, poeta e escritor Nilson da Cunha Gonçalves,

A situação alcança patamar insuportável! Mas, a violência e as maldades humanas ultrapassam os milênios.

Escrevi na minha Tese de Doutorado, em 2005: "[...] parece ser que a história [...] entra numa época revolucionária, que transforma não somente a ordem cultural da civilização, mas também a Ordem Universal, derrubando os altares dos dogmas criados pela filosofia e as ciências através dos tempos. Além disso, chega-se ao arremate de que a História se repete sempre, particularmente quando diz respeito aos danos que o ser humano é capaz de provocar no seu semelhante." Em verdade, querido escritor, a História funciona como um espelho, no qual se refletem as imagens dos homens e das mulheres, sem que haja qualquer alteração na face polida do cristal.

A esse respeito, também expressa o hino de Cazuza:

"Eu vejo o futuro repetir o passado

Eu vejo um museu de grandes novidades

O tempo não para

Não para, não, não para."

Belíssimo poema!

Beijosssssssssss

Comentário de Lúcia Cláudia Gama Oliveira em 17 fevereiro 2017 às 10:38

Comentário de Mônica do S Nunes Pamplona em 17 fevereiro 2017 às 2:57

Independente de guerras virtuais ou reais, a verdade é que guerra sempre foi guerra!

Desde o começo dos tempos, homens já se digladiavam. Além dessas explosões, muito bem citadas em teus versos, penso que a maior violência que enfrentamos, em pleno século XXI, é a urbana. Que não deixa de ser uma guerra medíocre, provocada por motivos que poderiam ser solucionados, para que pudesse evitar esse grande número de vítimas, todos os dias!

Uma excelente composição de porte social relevante. Deixando claro, apesar dos grandes avanços do século, que a mente do ser em nada mudou,  e talvez por gerações não mude, pois quando se trata de destruir uma nação utiliza das armas que tem. 

Parabéns, poeta.

Comentário de Maria Iraci Leal em 16 fevereiro 2017 às 19:53

Nilson da Cunha Gonçalves

Nestes magistrais versos,

história e dor no século 21,

oxalá possamos viver tempos melhores,

parabéns pela obra, bjs MIL.

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