Xeque!

 

J. A. Medeiros da Luz

 

 

Que conspirata essa do destino:

Dizia eu que eram

Meus alicerces de vivências

Perenes mais que o bronze monumento.

 

Entanto, não levei em conta

As mil rasteiras traidoras

Dessa ameba gigantesca que atende

Pelo nome dulcíssimo de vida,

A estirar seus pseudópodes sobre

A sombra das coisas, dos seres,

Com aqueles – lá deles! –

Bioluminescentes sentimentos.

 

Dizia eu, estúpido a valer, que era

Indelével a aquarela que pintamos,

Deslembrado das procelas dissolventes,

Da lixívia amarga das décadas,

Desmemoriado das escaramuças

Do oblívio,

Esse belzebu fantasiado

Da inocência de querubim volante.

 

Afinal, queira explicar-me,

Adorada e mimosa Bellatrix:

Por que as tão fogosas mil paixões

Por tudo quanto era

Relicário dos sonhos como que

Se finaram por hipotermia?

 

Mas, o xeque-mate que daremos

(Já a perdermos bispo e torre, não importa),

Não se escreve nas órbitas incomensuráveis

De nebulosas e estrelas.

 

Reside no telúrico sussurro dos ventos,

No marulhar de cursos d´água que percorrem,

Entre saltitos gelados sobre pedras,

E escondendo girinos e alevinos,

Os nossos dias de infância.

 

Habita a alquimia dos pósitrons nascidos

De raios indomesticados do espectro

Que borbulham de luz cósmica

Aquela álacre quadra de nossa juventude.

 

Ele mora no branquejar de seu sorriso,

Que ilumina ainda manhãs perdidas,

Matizadoras de horizontes.

 

Pois, enfim, reside

– Digo-lhe inda à socapa, Bellatrix –

Nessas letras que enfileiro, tenazmente,

Em busca da fresta libertadora

Para aqueles mui longínquos – mais

Que galáxias, sussurros, marulhos e infâncias –

Mui longínquos

Difusos tempos da posteridade.

 

 

Goiânia, junho de 2017.

Do livro: Martelo de cristal, a sair pela Jornada Lúcida Editora.

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Comentário de Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sílvia Mota Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ em 19 junho 2017 às 20:18

  Perfeito!

Comentário de José Aurélio Medeiros da Luz em 19 junho 2017 às 18:28

Cara Sílvia:

Respeitante à responsabilidade frente a nossos atos, sempre me vêm à mente as felicíssimas palavras da escritora Genaura Tormin: "devemos estar alerta sempre, pois somos herdeiros dos nossos atos e senhores das nossas colheitas."

Abraço.

Comentário de Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sílvia Mota Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ em 19 junho 2017 às 11:41

 As vicissitudes que nos oferecem a Vida - boas ou más - são simplesmente efeitos/consequências da Lei Universal de Causa e Efeito. Portanto, seremos sempre os responsáveis, porque possuímos o dom de pensar e agir - único modificador da essência histórica individual e coletiva, entre as forças que permeiam a Natureza.

Beijosssssssssssss

Comentário de José Aurélio Medeiros da Luz em 19 junho 2017 às 9:49

Cara Sílvia:

Obrigado pelo comento. É que, nessa troca de rasteiras, o golpe que nos levará à lona, acaba sendo sempre o da vida...Mas sejamos praticantes do fair play, e façamos desses desafios o treino diuturno que revigora a têmpera e mostra, afinal, que a mesma vida tem escamas douradas e, no fundo, é uma hidra com ternuras.

Abraço.

Comentário de Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Sílvia Mota Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ em 19 junho 2017 às 2:01

Ao contrário dos teus primeiros versos, penso que somos nós quem "damos rasteiras" na Vida.

Belo poema, para a reflexão do leitor.

Beijossssssssssss

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