O MEU PRIMEIRO “MEIO-DIA” DE ESCOLA 

 

Meu primeiro dia de aula? Tenho pouco para dizer de bom. Já falei da pequena cidade e repetir seria, desculpa o pleonasmo, ser repetitivo.  Foi naquela cidade de Sto. António de Príncipe. A escola era numa antiga igreja com uma torre onde havia um enorme relógio, espero que ainda lá esteja, que de meia a meia hora despertava a cidade com o seu toque característico, bastava contar para saber que horas eram… Bem meio-dia e meia, uma hora e uma hora e meia eram apenas “um DOMMMM”.  

Eram sete horas e meia quando encaminhei pela primeira vez até a escola. Fui sozinho, tinha sete anos e cresci na cidade. Não senti alegria nem tive tristeza. Apenas fui à escola.

Os professores chamaram os alunos, cada um os seus. Não havia lugar para todos na antiga igreja. Os Novatos foram para uma sala pertencente ao paço do concelho. Era o maior edifício da cidade e era onde toda a autoridade da Ilha se instalava. Desde o chefe máximo, o Senhor administrador até nós, simples alunos da primeira classe e no primeiro dia de aula.

Recordo do meu pequeno livro de onde só entendia os desenhos, do meu lápis, que pequei com a mão esquerda e fiz algum rabisco… Entretanto o que não esqueço é do intervalo.

No meu primeiro intervalo, eu totalmente desadaptado com o meio, eu antes sempre brinquei sozinho no rio ou no campo, depois de algumas correrias, cansado e aborrecido encostei-me na parede do edifício para recuperar o ar. Ao lado estava uma mesa, provavelmente foi colocado ai provisoriamente. Tive a infeliz ideia de subir sobre a mesa e descansar.

Cinco minutos depois, eu estava no chão e com o braço direito imobilizado. Nunca tive a certeza do que teria acontecido.  Tenho uma vaga imagem de ter sido puxado por uma colega, a Leonor (Nónó), mas como ninguém disse ou confirmou nada… Restou-me ser levado pela minha mãe à Sã Maía.

O Professor Pascoal teve o bom senso de mandar chamar a minha mãe por um dos alunos. Éramos todos conhecidos na cidade.

A Sã Maía entendia do assunto. Juntou folhas diversas que triturou num pilão e adicionou vinagre. Com a mistela, duas ripas feitas de cartão de papelão grosso e uma liga feita com a parte inferior da saia enorme da minha mãe, a Sã Maía imobilizou-me o braço direito.

Não fui ao hospital, não obstante a dor sentida, havia garantia que não seria melhor no hospital. Afinal foi o meu primeiro “meio-dia” de escola.  
   

João Pereira Correia Furtado
Praia, 06 de Fevereiro de 2015
http://joaopcfurtado.blogspot.com

 Paço- do Concelho - A minha sala da primeira classe era do lado lateral. (foto da internet)


ANTIGA IGREJA - O relógio, muitas vezes era o único perturbador da calma reinante! (foto da internet)

 

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Respostas a este tópico

Meu Santo António!!!

mas que historia mais danada de tristinha no teu 1º dia

tadinho do pequenito... e valente que foi!

Apesar de triste de teres ficado maxucado

e de teres ido à Escola até por ir, "porque-tinha-que-ser"

sente-se uma ternura imensa por esse periodo e

gostei tanto de saber de Sã Maía... e ficaste melhor?!

pudeste ainda pescar no rio???!!!

aiiiii...apetecia saber mais e mais... dela e de mais memórias!!

Maria-José, bom dia!

Com a escola fiquei com menos tempo. E... Com a pancada e um braço ligado... Mas continuei a ir a escola e como eu sou canhoto, quase não senti a falta da mão direito, até que fui obrigado a escrever com a direita... Mas isto aconteceu mais tarde!

Quanto Sã Maia, ela era a única alternativa ao hospital pequeno e de poucos recursos, ela via e se era caso de osso partido, mandava para hospital. Se fosse casos de desvios, ela dava conta do recado!

Beijos   

Foi azar logo no primeiro dia de aulas...mas gostei de ler meu irmão...eu é que estava longe, senão a mana tinha ajudado..

Obrigado amiga

Passei uns dias com dores e foi passando aos poucos!

Um abraço

Que peninha...Minha imaginação voou solta ao teu primeiro meio-dia de aulas...

Ao meu olhar, o trecho mais marcante da tua narrativa é: "Fui sozinho, tinha sete anos e cresci na cidade. Não senti alegria nem tive tristeza. Apenas fui à escola."

Valente, o menino João...

Beijossssss

Amiga e poetisa Sílvia Mota

Foi precisamente o que aconteceu... Conhecia a escola e era para ir. Apenas fui.

Muito obrigado por ter lido e gostado.

Beijosss

parabens por teu prémio

querido Poeta-Escritor João Pereira Furtado!!

São as doces memórias que não devemos deixar fugir ao vento......

Muito obrigado e mais uma vez PARABÉNS, poetisa Maria-José.

Muito obrigado PEAPAZ e parabéns aos todos os premiados!

Caro João Furtado: 

Parabéns pelo seu texto deveras tocante, consubstanciando-se em bela pintura. Isso se deve ao substrato das tintas empregadas: a vida, isto é a vida vivida. Abraço do j. a.

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