BRONZE PEAPAZ

O sorriso do Cigano

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O sorriso do cigano

Segunda Guerra Mundial. Conflitos assolavam o mundo todo, com disputas de poder e território, arrasando civilizações e dizimando povoados inocentes – muitos deles jamais se recuperaram dos estragos da guerra.

A menina olhou a senhora que lhe estendia os braços e a aconchegou carinhosamente. Sentiu-se segura e a abraçou também. O homem a olhou e entregou uma corrente. Ela lembrava vagamente daquele momento, mas o olhar sofrido ficou marcado em seu coração inocente, como algo dolorido para ambos. Lembrou também de seu amigo, apenas um pouco mais velho que ela, e ele sorriu, e disse: “não chore, voltarei para buscá-la.” Quase não se lembrava de nada mais, apenas de rostos, que em seus sonhos se manifestavam.

Anos se passaram. Um dia, sua madrinha a chamou, e disse: “Hoje vou te levar para aprender a dançar. Você está uma mocinha linda e precisa aprender agora alguns costumes.” Ela não entendeu, mas ficou feliz de dançar. Às vezes dançava para o sol e a lua, se sentia bem, e a madrinha sorria vendo-a dançar.

A menina colocou o medalhão e um vestido novo que tinham ido comprar. Acariciou o tecido, e uma emoção de dentro a fez chorar. A madrinha, a olhando, a abraçou demoradamente. Acariciou seus longos cabelos negros e lhe disse: “Te amo muito. Você é a filha que não saiu de meu ventre, mas tem de mim todo amor que uma mãe tem por seus filhos. Sempre me terá ao seu lado, mesmo distante.”. As aulas de dança eram extremamente relaxantes, e seus professores a elogiavam pela postura. Era uma dançarina nata.

Uma noite, sua madrinha a chamou, e deu lhe uma vestimenta cigana linda de seda, e disse: “É para a noite cigana, que iremos à convite de amigos, e quero que o use e faça amigos.” Deu-lhe também brincos e pulseiras, e disse: “São suas”, e abriu um pequeno baú. Completou: “São suas, e pertenceram à sua família. Seu pai confiou-me, e disse que eram suas, e queria que as usasse. É sua herança.” A menina olhou surpresa e pensativa, porque jamais lhe falava do passado. “Sei que nunca falamos, mas está na hora de saber o porquê que seu pai a confiou a mim.” Ela se lembrou do homem que a olhou triste, e soube em seu coração que era o seu pai.

A madrinha a abraçou, disse que eram ciganos, e que foram perseguidos. Sua mãe morreu numa destas perseguições, e seu pai a levou para ficar em segurança com ela. A madrinha era cigana, mas casada com um não-cigano. Seu marido tinha morrido defendendo uma tribo de ciganos na mesma época. Ela estava grávida e perdera o bebê ao se assustar com a notícia. A menina se transformou no bálsamo de sua vida, e mesmo com candidatos, jamais quis novamente se casar.

As duas, abraçadas, choraram. A menina, Mirna como era seu nome, disse que ela era sua família, e que ficariam sempre juntas. No outro dia, foram à apresentação de um salão de danças, para se distraírem. O principal dançarino parecia um deus da mitologia grega, e encantava as mulheres, que demonstravam com seus olhares a sensualidade de seus corpos, que o desejavam.

O dançarino sensualmente se aproximava da plateia, provocando mais as mulheres, e sabia do efeito que causava. Em seus lábios, um sorriso de indiferença, que contrariava a postura de seu corpo, que convidava ao desejo. Por alguns minutos – que pareceram horas –, seus olhares se cruzaram, e Mirna, envergonhada, baixou o olhar, ruborizada.

Quando a apresentação terminou, levantaram-se para sair, e ao chegarem ao ponto de táxi, para a surpresa das duas, o dançarino também aguardava um carro. Mirna abaixou os olhos, e fez que não o reconheceu. O táxi chegou, e era a vez do dançarino, mas ele se dirige à tal madrinha, oferecendo o lugar. O motorista, sorrindo, disse em outra língua que ele seria atacado pelas mulheres ensandecidas pela paixão despertada. A madrinha agradeceu, e, no mesmo idioma do motorista, olhando o dançarino, disse que não poderia aceitar. Algo o como um relâmpago atingiu Mirna, que entendeu o que falaram.

Acordou após alguns minutos, com sua madrinha a chamando, e nos braços do dançarino. Lembrou-se de sua mãe, família, e dos dias passados, e desfaleceu novamente. Voltou a si, e estava no táxi, perto de sua casa. O dançarino a segurava ainda em seus braços, e sua madrinha chorava.

“Madrinha”, Mirna chamou. “Não chore, estou bem” e, envergonhada, pediu desculpas ao dançarino. Ele, a olhando, ajudou a acomodar, e a olhou de maneira estranha.

Convidaram o moço a entrar e tomar algo, mas ele recusou. Entretanto, a madrinha o fez prometer que iria, em outra ocasião, lhes visitar e tomar algo com elas, em agradecimento por sua bondade com elas. Despediram-se, ele esperou elas entrarem, e partiu.

Mirna pensava no dançarino e em seu olhar, mas lembrava das mulheres que o assediavam, de seu toque que a segurava, ao acordar, e seu olhar. Ao mesmo tempo, se lembrava de seu sorriso e seu olhar de indiferença. Mesmo assim, seu coração se acelerava nas lembranças, e pensou mais uma vez nas ensandecidas. “Me tornei uma delas”, e riu de si mesma. Neste momento de sonhos, ela ouviu a campainha e a voz inconfundível do dançarino.

Arrumou-se apressadamente, e colocou suas pulseiras. Tinha tirado o medalhão quando lavou os cabelos, e se esqueceu de recolocá-lo, preocupada que o moço fosse embora. A madrinha tinha posto a mesa, e chamou para o chá. Ele olhou para Mirna, mas desviou o olhar. A madrinha os observou.

Seu nome era Íon, o que ela esboçou um pequeno sorriso, pensando que parecia com ele.

Mirna era tímida e se limitava a sorrir. Terminando o chá, Íon agradeceu, e disse que marcaria algo para retribuir. O calor de suas mãos a fizeram sentir algo diferente; Mirna o olhou de forma especial, e seus olhos brilharam. Um sorriso aflorou em seus lábios, e ele lhe sorriu de uma forma linda, com um calor que esquentou seu corpo.

O dia da festa chegou, e Mirna se vestiu de cigana, mas se esqueceu novamente do medalhão. Sua madrinha perguntou o motivo de ela não o estar usando, e ela respondeu que esqueceu. A jovem estava linda e feliz. A surpresa foi encontrar Íon.

Ela dançava como ninguém, e ele a olhava de forma diferente. Seu coração a afogava de emoção. A fogueira estava perfeita, e já era mais de uma hora. Os violinos e pandeiros inundavam sua alma de lembranças. Íon a tirou para dançar. Perguntou se estava feliz; ela sorriu, e disse: “São lembranças de meus pais e meu acampamento, que voltam à minha memória e acalentam meu coração. Sim, estou feliz.” Ele a convidou para irem passear pelo acampamento, perto das fogueiras para dançarem. Contente, ela o acompanhou. Ele escolheu uma fogueira mais afastada, e dançaram como nunca. Eram perfeitos. Quando pararam, se olharam apaixonados e se beijaram. O beijo os levou aos céus. Ele a olhou estranhamente, e a levou de volta a sua madrinha. Se despediu, e, em sua língua, disse que era comprometido. Disse também que pedia desculpas, mas era fiel à futura esposa, e tinha que se afastar de Mirna – que o fazia esquecer-se do compromisso. Mirna não contara à madrinha que entendia o que falavam, e ela se sentiu abatida e saiu de perto para chorar, sem que a vissem. A madrinha a procurou e, vendo seu rosto, entendeu que falhara com Mirna. A noite terminara, e foram para casa. A jovem soluçava, e sua madrinha ouvia.
No dia seguinte, foi chamá-la para conversar.

“Minha querida, eu falhei com você e seu pai, que me confiou. Sei que seu coração se encantou por Íon, mas ele é comprometido, e você também é, desde pequena. Assim é nosso povo. Seu futuro marido vem com seu pai para o casamento. Queria que fosse uma surpresa agradável, para se conhecerem, mas por minha decisão, esperava que se vissem, primeiro. Seu pai foi embora para outro país, e combinamos o encontro e lugar para o mês que vem. Não sabemos nossos endereços, mas estaremos no lugar no dia e hora certa.”

A reação de Mirna foi de surpresa, de saber que seu pai vinha após tantos anos, mas sentiu que o mundo a enganava.

“Quanto a Íon, ele foi correto. Não tenha mágoa dele. Seu futuro marido a espera desde criança, e só a morte o separaria de você, assim como Íon, porque seria banido dos seus.” Mirna soluçava, e ficou depressiva.

“Coloque seu medalhão, porque assim os ciganos saberão que é comprometida.” Ela falou à madrinha que assim ela se portaria, e que se lembrava da língua desde o dia do táxi. Lembrou-se de seus pais, mas não do marido prometido. Só falavam em romani após este dia, para que ela praticasse e lembrasse de sua língua. Nunca mais viram Íon.

O pai estava no lugar combinado. Mirna foi vestida como cigana.

O encontro foi de muito carinho e emoção; seus parentes estavam ansiosos para rever Mirna.

Seu pai a chamou de Tsura, e ela olhou espantada. Explicaram ter trocado seu nome para que ninguém descobrisse a sua origem. Ele comentou também que tornara a se casar, e que tinha três irmãs e dois irmãos. Mirna ficou feliz pelo pai. Suas irmãs eram apenas dois anos mais novas que ela. Seus irmãos eram mais adolescentes, ela os conheceria antes do casamento. A jovem se lembrava apenas de um menino, dizendo que voltaria para busca-la.

Ficou sabendo que o irmão de seu futuro marido, o cigano Mihai, se casaria no mesmo dia. Eram tantos nomes e pessoas, que nem sabia como guardar todos. Suas meio-irmãs ela as amou assim que as viu. Eram parecidas com ela, e falavam que não viam a hora dos dançarinos dançarem. Mihai iria dançar, e parecia um deus grego em beleza e sedução. A noiva era de sorte, e muitas a invejavam. O sorriso dele, juntamente com o olhar, apaixonaram muitas ciganas.

Ela se estremeceu, lembrando-se de Íon. Como fora tola em se apaixonar por um desconhecido. Suas irmãs a ajudaram a se vestir no dia do casamento. Sem acreditar, viu os irmãos juntos na hora do casamento. Se lembrou das suas irmãs comentando sobre como Mihai dançava e seduzia com o olhar e sorriso as ciganas. Ela parou atônita ao caminhar, ao encontro de seu futuro marido, que era irmão de seu amado.
Ele também a olhava como se fosse a primeira vez, e seus olhos brilhavam. O padre da tribo esperava no altar, junto com os noivos. Os irmãos eram muito parecidos, mas Íon era o mais bonito. Ela sentiu vontade de sair correndo, com as brincadeiras do destino cruel.
Não olhava mais para eles, e invocava a santa protetora Santa Sara, que lhe desse força nesta provação. Que soubesse honrar seu marido que a esperava no altar.

Seu pai estava feliz, e seu futuro marido a esperava. As palmas em cadência lembravam a dança que partilharam, sem saber que seriam cunhados. O pai a levou até o altar, por serem católicos. A emoção foi demais, e desfaleceu. Quando abriu os olhos e viu que estava nos braços de Íon, os fechou rapidamente, mas ele viu que ela acordara.

“Então, menina, vai me dar mais surpresas, ou já me assustou o suficiente por hoje?” A olhou profundamente nos olhos. Ela se aconchegou em seus braços e sorriu, sem se importar com tradições. Só queria descansar. Ele olhou em volta e chamou sua madrinha, e disse: “Vou levar ela para a tenda, para que se restabeleça.”

Ele a levou em seus braços acompanhado pelo sogro e as falantes cunhadas. Sim, sogro e cunhadas, afinal, por todos esses anos, guiado pelas palavras de seu – agora sogro –, procurou por uma moça chamada Tsura, e não Mirna. Seu sogro esquecera que combinara com sua madrinha para ela trocar o nome de sua filha.

Levou-a para um divã na tenda, e falou suavemente: “Então é Tsura que procurava por anos. Eu devia confiar nos meus sentimentos, que me falavam que a amava. Não podia romper com meu pasto, e me sinto feliz que seja a minha amada noiva.”

Ela abriu os olhos, cheios de lágrimas e alegria. Ele disse: “Se quiser esperar, minha linda, eu espero. Mas, se quer se casar, vamos logo, que a festa vai terminar só ao amanhecer.”

Ela, rindo, ficou de pé, e disse: “Estou pronta.” Rindo, de mãos dadas, caminharam sob aplausos. Após se despedirem dos convidados, com o sol nascendo, ele disse: “Vamos, minha luz do amanhecer, que quero te beijar e acariciar muito, para matar minha saudade e te ter.”

A noite chegou novamente, e o casal, cansado e saciado com amor, ainda dormiu com o corpo entrelaçado, suspirando palavras de amor.

Dione Fonseca.
Domingo, 09-08-2020. 02:26.

ÍON: Forma basca e romena do grego Ioannes, que significa “Deus é gracioso”.
MIHAI: Forma romena do grego Michaēl, que significa “quem é como Deus?” Em uso pelos romani.
SURA: Forma romani de eslavo Zora, que significa “luz do amanhecer. 

7381586892?profile=RESIZE_400xImagem livre, não possuo direitos autorais.

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Respostas

  • OURO PEAPAZ

    Parabéns querida amiga Dione Fonseca! Belíssima Participação

    7942854052?profile=RESIZE_930x

  • DIAMANTE PEAPAZ

    História bonita e repleta de detalhes. Bem articulado, o fruto da tua imaginação. Parabéns, querida Dione! Beijosssssssssssssss

    • BRONZE PEAPAZ

       Amiga Mestra e gestora deste recanto de magia e paz. Sinto-me em casa e com vontade de escrever. Muito feliz em participar e reencontrar em Agradecida e emocionada. Obrigada por tudo que faz pelas artes. Meu grande abraço e meu desejo que permaneçamos aqui.
      Grande beijo e meu carinho
      Dione

  • OURO PEAPAZ

    Que conto lindo...fascinante.
    Parabéns amiga querida escritora Poeta Dione 🌟 Adorei!
    Gratidão pela linda presença neste certame.
    Aplausos. Abraços Poéticos.
    Beijos

    • BRONZE PEAPAZ


      Querida escritora e poeta que delicia estar aqui novamente. Emocionada com nosso cantinho cigano e minha mestra nesta arte de poder sonhar e escrever sobre este povo que me encanta com costumes e danças. Grande abraço e meu carinho sempre.
      Grande beijo e meu carinho
      Obrigada Sua amiga Dione.

    • OURO PEAPAZ

      Uma honra sua linda presença querida amiga Dione, mil abraços, gratidão

    • BRONZE PEAPAZ

      Querida Janete, poeta e mestre, é uma honra participar deste certame. Agradeço e estou muito feliz em voltar. Grande abraço, estou aguardando o próximo tema!

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